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Amor Fati sem pedra: quando o destino não é escolha

Amor Fati sem pedra: quando o destino não é escolha Pode ser o mano das métricas, o mestre das teses, o brabo do feed. Mas, diante de quem voltou do nada, esquece o script: é humano com humano. Nietzsche propôs o Amor Fati – amar o destino, não apenas suportá-lo, mas afirmá-lo integralmente, “eu quero que tudo se repita eternamente”. Viktor Frankl dizia “quem tem um porquê aguenta qualquer como”. Camus escreveu que é preciso imaginar Sísifo feliz empurrando a pedra. Essas frases, arrancadas de contexto, viraram slogans motivacionais. Mas e quando não há pedra? Quando o destino não foi escolha? Quando o porquê desapareceu junto com o como? No estado-limite – coma, crises neurológicas, tentativas involuntárias de autoextermínio – não há destino para amar. O sujeito volta do apagão com linguagem, mas sem narrativa. Diz “acordei na geleia, irmão… não tinha nada lá”. Não há pílula azul nem vermelha. Não há Morpheus para telefonar. Há apenas o deserto do real. E o real não vem co...

Despertar sem Morpheus: corpo e código

Despertar sem Morpheus: corpo e código Pode ser o brabo das teorias, o mestre das métricas, o pica do feed. Mas, diante de quem voltou do nada, não é manual nem protocolo: é humano com humano. Neo recebe o telefonema de Morpheus, corre pelo escritório, hesita no andaime. As máquinas estão chegando, os agentes cercam, a saída é arriscada. Ele escuta a voz que diz “vai, confia” e ao mesmo tempo sente o corpo tremer. Parece ficção científica, mas a cena é um retrato brutal da nossa experiência em estados-limite. Pacientes que atravessam coma, crises epilépticas ou tentativas involuntárias de autoextermínio relatam algo semelhante: acordam sem saber onde estão, sem saber se estão vivos ou mortos, sem narrativa para contar. Dizem apenas “acordei na geleia, irmão… não tinha nada lá”. Não é drama, não é “fraqueza”, não é falta de fé. É corpo apagando e voltando sem manual de instruções. Freud chamou de trauma aquilo que excede a capacidade de simbolização. Na infância, isso aconte...

Trauma sem pedra: quando nem a infância nem o adulto têm narrativa

Trauma sem pedra: quando nem a infância nem o adulto têm narrativa Pode ser o brabo das teorias, o mestre das métricas, o pica do feed. Mas, diante de quem voltou do nada, não é manual nem protocolo: é humano com humano. O primeiro trauma, diria Freud, é aquele vivido na infância: acontecimentos que excedem a capacidade de simbolização, ficam como traço, retornam mais tarde como sintoma. Mas há uma nova modalidade de trauma: o estado-limite vivido na vida adulta – coma, tentativa de suicídio, crises neurológicas involuntárias. O corpo apaga, a consciência some, volta dizendo “acordei na geleia, irmão… não tinha nada lá”. Não é tentativa, não é fé perdida, não é “drama”. É o real bruto sem narrativa. Essa experiência é diferente porque encontra um eu já discursivo. A criança não tem linguagem para simbolizar o trauma. O adulto tem linguagem – mas ela falha diante do estado-limite. O resultado é paradoxal: uma espécie de “primeiro trauma” vivido depois de ter adquirido palavr...

Setembro Amarelo na era do feed infinito: entre o mal-estar pós-moderno e a escuta que falta

Setembro Amarelo na era do feed infinito: entre o mal-estar pós-moderno e a escuta que falta Pode ser o pica das técnicas, o bam-bam-bam do pedaço, mas na hora de ouvir outro humano, seja só humano com humano. Todo setembro, fitinhas amarelas se multiplicam em posts, slogans e hashtags. A intenção é legítima: falar de suicídio, quebrar tabu, incentivar prevenção. Mas, como lembraria Bauman, vivemos a pós-modernidade líquida, em que símbolos são frágeis e campanhas viram consumo. A fitinha vira filtro no Instagram, o sofrimento vira dado para o algoritmo. O que deveria ser espaço de escuta vira espetáculo moralizante. Enquanto isso, na vida concreta, existe quem atravessa crises epilépticas e transtornos bipolares, perde dias de memória, volta dizendo “acordei na geleia, irmão… não tinha nada lá”. Não é tentativa de suicídio, não é “falta de fé”, é corpo que se apaga involuntariamente. O DSM-5 e a CID-11 reconhecem condições biológicas que podem levar a comportamentos auto-l...

Setembro Amarelo na era do feed infinito: entre o mal-estar pós-moderno e a escuta que falta

Setembro Amarelo na era do feed infinito: entre o mal-estar pós-moderno e a escuta que falta Pode ser o pica das técnicas, o bam-bam-bam do pedaço, mas na hora de ouvir outro humano, seja só humano com humano. Todo setembro, fitinhas amarelas se multiplicam em posts, slogans e hashtags. A intenção é legítima: falar de suicídio, quebrar tabu, incentivar prevenção. Mas, como lembraria Bauman, vivemos a pós-modernidade líquida, em que símbolos são frágeis e campanhas viram consumo. A fitinha vira filtro no Instagram, o sofrimento vira dado para o algoritmo. O que deveria ser espaço de escuta vira espetáculo moralizante. Enquanto isso, na vida concreta, existe quem atravessa crises epilépticas e transtornos bipolares, perde dias de memória, volta dizendo “acordei na geleia, irmão… não tinha nada lá”. Não é tentativa de suicídio, não é “falta de fé”, é corpo que se apaga involuntariamente. O DSM-5 e a CID-11 reconhecem condições biológicas que podem levar a comportamentos auto-l...

Não tem nada lá? — viver, negar a morte e segurar o outro no feed

Não tem nada lá? — viver, negar a morte e segurar o outro no feed Pode ser o bam-bam-bam da técnica, o pica da galáxia dos diplomas, o mestre dos algoritmos. Mas se você não encostar no outro, se não for humano com humano, todo esse conhecimento é só ego rodando feed. Ernest Becker, em A Negação da Morte , dizia que passamos a vida montando “projetos de imortalidade”: carreiras, templos, famílias, redes sociais — tudo para não encarar a finitude. Aristóteles lembrava que o tempo não é coisa, é medida do movimento: cada instante é um limite entre antes e depois. Kierkegaard alertava: a angústia não é medo de algo, é o nada se abrindo diante da liberdade. Cioran foi além: até os projetos de imortalidade se decompõem, sobra apenas o cume do desespero. Platão já tinha encenado isso no mito da caverna: o sujeito vê o real, volta, tenta contar e sofre o “auto suicídio social” — não porque quer, mas porque ninguém quer ouvir. Nosso paciente não é Neo: não tem Morpheus, nem tr...

Despertar sem Morpheus: duas realidades, um corpo só

Despertar sem Morpheus: duas realidades, um corpo só Pode ser o mestre dos algoritmos, o hacker das métricas, o doutor dos diplomas. Mas se não tiver outro humano para te apresentar ao mundo quando você volta do “coma da existência”, você continua perdido no código. Há pessoas que passam por crises tão intensas — convulsões, episódios bipolares, estados de inconsciência — que é como atravessar para o “lado de fora da Matrix” sem ter um Morpheus esperando. Elas voltam para o corpo, mas não têm manual. Têm linguagem, mas a linguagem não encaixa no que o corpo viveu. Isso não é drama nem falta de vontade: é anatomia, neuroquímica, psique. É o que Freud chamou de trauma — uma experiência bruta, sem filtro, que retorna no corpo e no medo. Esse paciente vive exatamente essa duplicidade. De um lado, uma realidade que ele não pode simbolizar: crises, apagões, experiências de inconsciência que marcam o corpo antes que a palavra possa chegar. De outro, uma realidade consciente, onde ...