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O TEMPO NÃO PARTICIPA DO DEBATE

O TEMPO NÃO PARTICIPA DO DEBATE



Crônica-Ensaio | Mais Perto da Ignorância

Outro dia encontrei uma discussão interminável sobre livre-arbítrio.

Era uma dessas discussões modernas que adoram parecer profundas porque utilizam palavras grandes, gráficos coloridos, imagens do cérebro iluminadas por ressonâncias magnéticas e uma quantidade razoável de convicção.

De um lado, estavam aqueles que defendiam a liberdade humana.

Do outro, aqueles que afirmavam que tudo já estava determinado.

No meio da confusão apareceu Robert Sapolsky dizendo que talvez aquilo que chamamos de escolha tenha começado décadas antes do momento em que acreditamos ter decidido.

Confesso que achei interessante.

Mas não pelo motivo que muita gente imagina.

O que me chamou atenção não foi a questão do livre-arbítrio.

Foi o desaparecimento do tempo.

Porque enquanto todos discutiam quem escolheu, ninguém parecia notar que a vida já havia acontecido.

A escolha já tinha virado passado.

O corpo já tinha envelhecido.

A infância já tinha terminado.

Os mortos continuavam mortos.

Os amores terminados continuavam terminados.

As oportunidades perdidas continuavam perdidas.

E os boletos, curiosamente, continuavam vencendo.

Talvez esse seja o primeiro problema dessa conversa.

Ela costuma começar pela consciência.

Mas a vida não.

A vida começa pelo corpo.

Antes de qualquer elaboração filosófica existe um organismo tentando permanecer vivo.

Antes de qualquer teoria da liberdade existe um metabolismo.

Antes da identidade existe a necessidade.

Antes do discurso existe a matéria.

Talvez Darwin sorrisse discretamente diante disso.

Afinal, por mais sofisticadas que sejam nossas teorias, continuamos sendo organismos submetidos às mesmas exigências fundamentais que atravessam qualquer espécie.

Comemos.

Dormimos.

Adoecemos.

Envelhecemos.

Morremos.

Nenhuma teoria aboliu isso.

Nenhum algoritmo corrigiu isso.

Nenhuma plataforma atualizou isso.

Mas existe uma característica curiosa do ser humano.

Ele produz narrativas.

Produz tantas narrativas que às vezes começa a acreditar que elas são mais importantes que aquilo que procuram explicar.

É nesse ponto que Ernest Becker entra na conversa.

Becker suspeitava que boa parte da cultura humana era uma tentativa sofisticada de negociar a própria mortalidade.

Não eliminar a morte.

Isso seria impossível.

Mas produzir sistemas simbólicos capazes de amortecer seu impacto.

Religiões.

Ideologias.

Heróis.

Patriotismos.

Legados.

Identidades.

Narrativas.

Talvez o livre-arbítrio também participe dessa coleção.

Não porque seja falso.

Mas porque talvez funcione como mais uma tentativa de organizar simbolicamente aquilo que nos escapa.

O problema é que a matéria raramente participa dessas negociações.

Ela apenas continua existindo.

E continua impondo limites.

Marx percebeu isso de forma brutal.

Enquanto muitos pensadores discutiam consciência, Marx observava produção.

Enquanto falavam sobre ideias, ele observava trabalho.

Enquanto falavam sobre liberdade, ele observava condições materiais.

A pergunta marxiana continua desconfortável até hoje:

Quem possui as condições para sustentar determinado discurso?

Porque uma reflexão também possui infraestrutura.

Uma filosofia também possui condições de produção.

Uma teoria também possui custos materiais.

O sujeito debate autonomia enquanto alguém produz energia.

Debate consciência enquanto alguém cultiva alimentos.

Debate liberdade enquanto alguém limpa o ambiente onde ele pensa sobre liberdade.

A materialidade nunca desaparece.

Ela apenas se torna invisível.

Talvez seja justamente isso que a contemporaneidade tenta esquecer.

Afinal, nunca se falou tanto em liberdade.

Nunca se falou tanto em escolha.

Nunca se falou tanto em autonomia.

E, paradoxalmente, nunca estivemos tão cercados por sistemas capazes de antecipar comportamentos.

As plataformas digitais não precisam controlar indivíduos diretamente.

Elas precisam apenas organizar probabilidades.

Não dizem o que pensar.

Organizam aquilo que será visto.

Não obrigam.

Sugerem.

Não impõem.

Recomendam.

E nessa diferença aparentemente pequena surge uma transformação gigantesca.

A liberdade deixa de ser proibida.

Passa a ser administrada.

É aqui que Byung-Chul Han se torna importante.

A sociedade contemporânea não opera prioritariamente através da proibição.

Opera através da demanda.

Não ouvimos mais:

"Você não pode."

Ouvimos:

"Você consegue."

"Você pode."

"Você deve."

"Você precisa."

"Você tem potencial."

"Você pode ser melhor."

"Você pode produzir mais."

"Você pode performar mais."

"Você pode otimizar mais."

O resultado não é liberdade.

O resultado é exaustão.

A Sociedade do Cansaço não nasce da ausência de liberdade.

Nasce da obrigação permanente de exercê-la.

Mas talvez exista algo ainda mais antigo que tudo isso.

Algo que antecede Darwin, Marx, Freud, Sapolsky e Han.

O tempo.

Os antigos pareciam compreender isso melhor do que nós.

"Os cães ladram e a caravana passa."

"O homem teme o tempo, mas o tempo teme as pirâmides."

"O maior erro é a pressa antes do tempo e a lentidão ante a oportunidade."

Esses provérbios não discutem livre-arbítrio.

Discutem permanência.

Discutem limite.

Discutem consequência.

Discutem duração.

Nenhum deles coloca o indivíduo no centro da realidade.

Todos colocam o tempo.

Talvez por isso a oração da serenidade tenha me chamado atenção.

Mas não em sua forma tradicional.

E sim numa versão ligeiramente alterada.

Tempo, conceda-me serenidade para aceitar aquilo que não posso modificar.

Coragem para modificar aquilo que posso.

E sabedoria para reconhecer a diferença.

Quando Deus desaparece da frase e o Tempo ocupa seu lugar, algo muda.

A oração deixa de ser uma expectativa de intervenção.

Torna-se uma constatação existencial.

O tempo não salva.

O tempo não responde.

O tempo não concede.

O tempo apenas transforma tudo em passado.

E talvez seja justamente aí que o livre-arbítrio perca importância.

Não porque não exista.

Mas porque a questão principal nunca foi essa.

A questão principal é que toda escolha, livre ou determinada, termina no mesmo lugar.

Na vida vivida.

E a vida vivida não pode ser refeita.


O TEMPO NÃO PARTICIPA DO DEBATE:

Parte II — O Eu Soberano e a Fome

Talvez o personagem mais curioso da modernidade não seja o livre-arbítrio.

Talvez seja o Eu.

Não o sujeito concreto.

Não o corpo.

Não o organismo.

Mas o Eu.

Aquele que Elisabeth Roudinesco chamou de Eu Soberano.

Um personagem que passou a acreditar ser o centro de sua própria história.

Acredita escolher.

Acredita decidir.

Acredita controlar.

Acredita produzir a si mesmo.

Acredita ser autor da própria narrativa.

É uma invenção fascinante.

E relativamente recente.

Durante séculos, o ser humano compreendeu a si mesmo como parte de algo maior.

Uma aldeia.

Uma tribo.

Uma comunidade.

Uma linhagem.

Uma religião.

Uma tradição.

A modernidade modifica isso.

O indivíduo sobe ao palco.

E lentamente passa a acreditar que a peça inteira existe para contar sua história.

O Eu Soberano nasce nesse movimento.

Mas existe um detalhe.

O palco continua sustentado por uma estrutura que o Eu raramente observa.

Porque enquanto o Eu discursa, alguém planta.

Enquanto o Eu produz significado, alguém transporta mercadorias.

Enquanto o Eu procura sua autenticidade, alguém limpa a rua.

Enquanto o Eu debate liberdade, alguém está trabalhando para manter a rede elétrica funcionando.

O Eu Soberano adora falar de autonomia.

A infraestrutura continua ignorando a conversa.

Marx provavelmente sorriria diante dessa cena.

Porque sua pergunta permanece viva.

Quem produz as condições que tornam possível essa autonomia?

Quem sustenta materialmente o sujeito que fala sobre liberdade?

A pergunta é desconfortável porque desloca o foco.

Sai do indivíduo.

Vai para as relações.

Sai da consciência.

Vai para a produção.

Sai do discurso.

Vai para a matéria.

Talvez por isso a sociedade contemporânea tenha desenvolvido uma habilidade extraordinária para transformar estruturas em escolhas individuais.

O desemprego vira falta de esforço.

O adoecimento vira falha pessoal.

A exaustão vira baixa produtividade.

A ansiedade vira incapacidade de adaptação.

O sofrimento vira problema privado.

A estrutura desaparece.

O indivíduo permanece.

É uma operação elegante.

E extremamente eficiente.

Porque um sujeito convencido de que é completamente responsável por si mesmo também tende a acreditar que é completamente culpado por seus fracassos.

O Eu Soberano não produz apenas autonomia.

Produz culpa.

Produz vergonha.

Produz inadequação.

Produz comparação.

Produz esgotamento.

Byung-Chul Han observou isso com precisão.

A sociedade disciplinar dizia:

"Obedeça."

A sociedade de desempenho diz:

"Realize-se."

A primeira impunha limites.

A segunda produz demandas infinitas.

O sujeito contemporâneo não está preso por correntes.

Está preso por expectativas.

Ele não para porque ninguém o impede.

Ele não para porque acredita que deveria estar produzindo mais.

O resultado é uma epidemia silenciosa de cansaço.

Mas existe algo ainda mais profundo.

Algo que Freud percebeu muito antes das redes sociais.

O sujeito não controla completamente nem aquilo que chama de si mesmo.

Quando Freud escreve sobre o mal-estar na civilização, ele não está preocupado com liberdade.

Está preocupado com conflito.

Conflito entre desejo e norma.

Entre pulsão e cultura.

Entre satisfação e convivência.

O sofrimento não surge porque perdemos a liberdade.

Surge porque viver com outros seres humanos exige renúncias permanentes.

A civilização não elimina o conflito.

Ela o administra.

Mal.

Mas administra.

Por isso Freud talvez olhasse com estranhamento para a obsessão contemporânea pela autonomia.

Porque o sujeito nunca foi completamente autônomo.

Nunca foi plenamente racional.

Nunca foi inteiramente transparente para si mesmo.

O inconsciente já havia destruído essa fantasia há mais de um século.

Mas o mercado precisava dela viva.

As plataformas precisavam dela viva.

Os algoritmos precisavam dela viva.

Afinal, é mais fácil vender para alguém que acredita ser totalmente livre.

É mais fácil responsabilizar alguém que acredita ser totalmente livre.

É mais fácil culpabilizar alguém que acredita ser totalmente livre.

E aqui voltamos ao debate iniciado por Sapolsky.

Porque talvez sua principal contribuição não seja provar ou refutar o livre-arbítrio.

Talvez sua principal contribuição seja outra.

Mostrar que o sujeito é muito menos soberano do que imagina.

Só que existe uma diferença importante.

Sapolsky procura essa limitação:

nos neurônios.

nos hormônios.

na genética.

na evolução.

A Loka procura essa limitação:

na materialidade.

na história.

na técnica.

na infraestrutura.

na finitude.

São movimentos parecidos.

Mas não são iguais.

Sapolsky reduz a escala para compreender o comportamento.

A Loka amplia a escala para compreender a condição.

Porque a pergunta não é apenas:

"Como esse sujeito foi produzido?"

Mas:

"Que mundo precisou existir para produzir esse sujeito?"

Que sistema econômico?

Que tecnologia?

Que forma de trabalho?

Que forma de comunicação?

Que organização da atenção?

Que lógica de desempenho?

Que promessas de felicidade?

Que medos?

Que ausências?

Que necessidades?

O sujeito não aparece sozinho.

Ele emerge.

Emerge de uma rede gigantesca de relações materiais, simbólicas, históricas e biológicas.

É justamente aqui que Edgar Morin se torna indispensável.

Morin desconfiava das explicações simples.

A realidade não é linear.

Não é binária.

Não é organizada em respostas definitivas.

A realidade é complexa.

O sujeito é complexo.

A sociedade é complexa.

A escolha é complexa.

A consequência é complexa.

Por isso Morin falava dos dilemas impossíveis.

Nem sempre escolhemos entre o bem e o mal.

Às vezes escolhemos entre dois bens incompatíveis.

Às vezes escolhemos entre dois males inevitáveis.

Às vezes escolhemos apenas qual perda suportaremos.

Talvez seja aí que a discussão sobre livre-arbítrio comece a perder força.

Porque a vida concreta raramente oferece liberdade pura.

Oferece circunstâncias.

Oferece limites.

Oferece tensões.

Oferece riscos.

Oferece perdas.

Oferece tempo.

E o tempo continua avançando.

Enquanto discutimos quem escolheu.

Enquanto discutimos quem determinou.

Enquanto discutimos quem estava certo.

A caravana passa.


O TEMPO NÃO PARTICIPA DO DEBATE:

Parte III — O Tempo, a Pedra e os Mortos

Existe uma pergunta que atravessa toda essa conversa.

Uma pergunta que parece simples.

Mas talvez seja a única pergunta que realmente importa.

O que permanece?

Não o que escolhemos.

Não o que desejamos.

Não o que acreditamos.

Mas o que permanece.

Os antigos pareciam mais preocupados com isso do que nós.

Talvez porque ainda não tivessem transformado o indivíduo no centro do universo.

Talvez porque observassem a natureza durante mais tempo do que observavam a si mesmos.

Talvez porque compreendessem algo que esquecemos.

O tempo sempre vence.

Mesmo quando perde.

"O homem teme o tempo, mas o tempo teme as pirâmides."

A frase é curiosa.

Porque ela não fala sobre liberdade.

Não fala sobre autonomia.

Não fala sobre consciência.

Ela fala sobre permanência.

Sobre aquilo que atravessa gerações.

Sobre aquilo que resiste.

Mas existe uma ironia escondida.

As pirâmides também desaparecerão.

Pode levar milhares de anos.

Pode levar dezenas de milhares.

Mas desaparecerão.

O tempo apenas trabalha em escalas diferentes.

O ser humano pensa em décadas.

As pirâmides pensam em milênios.

O tempo pensa em eras.

Talvez por isso Ernest Becker continue assombrando essa conversa.

Porque Becker percebeu que a maior questão humana não era o livre-arbítrio.

Era a mortalidade.

Toda cultura.

Toda identidade.

Toda ideologia.

Toda religião.

Todo heroísmo.

Todo legado.

Toda tentativa de imortalidade simbólica.

Nasce do mesmo lugar.

A consciência de que vamos desaparecer.

A pergunta não é:

"Sou livre?"

A pergunta é:

"Como continuar vivendo sabendo que não permanecerei?"

Talvez seja por isso que o debate sobre livre-arbítrio pareça tão estranho para a Loka.

Porque ele frequentemente ignora aquilo que Becker colocou no centro.

A morte.

Não como tragédia.

Não como punição.

Não como fracasso.

Mas como condição.

O tempo não nos mata.

O tempo apenas revela aquilo que sempre fomos.

Transitórios.

Albert Camus talvez tenha percebido isso de outra maneira.

Imagine Sísifo.

Empurrando uma pedra.

Subindo uma montanha.

Vendo a pedra cair.

Descendo novamente.

Subindo outra vez.

E repetindo isso indefinidamente.

O problema de Camus nunca foi o livre-arbítrio.

O problema de Camus era o absurdo.

O que fazemos quando percebemos que a realidade não está obrigada a produzir sentido para nós?

O que fazemos quando compreendemos que a pedra continuará caindo?

O que fazemos quando compreendemos que a vida não entrega respostas definitivas?

A modernidade respondeu produzindo discursos.

Muitos discursos.

Talvez até demais.

Discursos sobre felicidade.

Discursos sobre realização.

Discursos sobre produtividade.

Discursos sobre liberdade.

Discursos sobre identidade.

Discursos sobre propósito.

Discursos sobre escolha.

Discursos sobre desempenho.

Discursos sobre tudo.

Mas a pedra continua rolando.

A Loka olha para essa cena e encontra uma ironia.

O sujeito contemporâneo acredita estar escrevendo sua história.

Mas passa boa parte do tempo respondendo a demandas que não escolheu.

Responde ao relógio.

Responde ao mercado.

Responde ao algoritmo.

Responde ao trabalho.

Responde à escassez.

Responde ao envelhecimento.

Responde ao corpo.

Responde à própria mortalidade.

Talvez seja exatamente isso que Byung-Chul Han tenta mostrar.

A liberdade contemporânea tornou-se uma obrigação.

Não somos proibidos de realizar.

Somos obrigados a realizar.

Não somos proibidos de produzir.

Somos obrigados a produzir.

Não somos proibidos de existir.

Somos obrigados a performar a existência.

O resultado é um sujeito permanentemente cansado.

Permanentemente insuficiente.

Permanentemente em dívida consigo mesmo.

E então voltamos à oração.

Mas não à oração tradicional.

Àquela que a própria conversa transformou.

Tempo,

conceda-me serenidade para aceitar aquilo que não posso modificar.

Coragem para modificar aquilo que posso.

E sabedoria para reconhecer a diferença.

Quando Deus sai da frase e o Tempo entra, algo muda.

A oração perde a promessa.

Ganha a realidade.

Porque o tempo não responde.

O tempo não concede.

O tempo não intervém.

O tempo apenas transforma.

Transforma corpos.

Transforma cidades.

Transforma impérios.

Transforma teorias.

Transforma discursos.

Transforma certezas.

Transforma convicções.

Transforma até mesmo aquilo que parecia eterno.

Talvez seja por isso que os antigos falavam tanto sobre o tempo.

E tão pouco sobre livre-arbítrio.

Eles sabiam algo que esquecemos.

O problema não era controlar a vida.

O problema era atravessá-la.

"Os cães ladram e a caravana passa."

A frase parece simples.

Mas contém uma brutalidade extraordinária.

Enquanto discutimos.

A vida continua.

Enquanto argumentamos.

A vida continua.

Enquanto produzimos teorias.

A vida continua.

Enquanto procuramos culpados.

A vida continua.

Enquanto tentamos descobrir quem escolheu.

A vida continua.

A caravana passa.

Sempre passou.

Sempre passará.

Talvez por isso a Loka tenha tanta dificuldade com o Eu Soberano.

Não porque ele seja completamente falso.

Mas porque ele exagera a própria importância.

O Eu Soberano acredita ser o protagonista.

Mas a matéria não reconhece protagonistas.

O tempo não reconhece protagonistas.

A morte não reconhece protagonistas.

O corpo não reconhece protagonistas.

A fome não reconhece protagonistas.

O envelhecimento não reconhece protagonistas.

A gravidade não reconhece protagonistas.

A necessidade não reconhece protagonistas.

No fundo, talvez toda essa conversa sobre livre-arbítrio esteja tentando responder a uma pergunta errada.

Porque a questão nunca foi:

"Sou livre?"

Nem:

"Sou determinado?"

Talvez a questão seja:

"Como viver dentro dos limites inevitáveis da existência?"

Essa pergunta é menos confortável.

Menos elegante.

Menos vendável.

Menos lucrativa.

Mas talvez esteja mais próxima da realidade.

Porque ela não começa na consciência.

Começa no corpo.

Não começa na identidade.

Começa na necessidade.

Não começa no discurso.

Começa na matéria.

E talvez seja exatamente aqui que o eixo Psico-Bio-Social e Discursivo Digital encontre sua formulação mais radical.

Antes da escolha existe o corpo.

Antes do corpo existe a evolução.

Antes da autonomia existe a dependência.

Antes da consciência existe a necessidade.

Antes da narrativa existe a experiência.

Antes do discurso existe a materialidade.

E depois de tudo isso continua existindo o tempo.

O tempo que atravessou Darwin.

O tempo que atravessou Marx.

O tempo que atravessou Freud.

O tempo que atravessou Becker.

O tempo que atravessou Morin.

O tempo que atravessará Sapolsky.

O tempo que atravessará todos nós.

Sem pedir autorização.

Sem participar do debate.

Sem precisar escolher.


O TEMPO NÃO PARTICIPA DO DEBATE:

Parte IV — O Sujeito Digital e o Fim da Soberania

Talvez a maior ironia desta conversa seja que ela nunca foi sobre livre-arbítrio.

Nem sobre determinismo.

Nem sobre neurociência.

Nem sobre filosofia.

Nem sobre psicologia.

Talvez ela sempre tenha sido sobre escala.

Sobre onde colocamos o foco.

Sobre qual camada escolhemos observar.

Porque, dependendo da distância, a realidade muda de forma.

Vista de perto, encontramos neurônios.

Vista um pouco mais longe, encontramos o corpo.

Mais longe, encontramos a família.

Mais longe, encontramos a cultura.

Mais longe, encontramos a economia.

Mais longe, encontramos a técnica.

Mais longe, encontramos a história.

Mais longe, encontramos o tempo.

Sapolsky realizou um trabalho extraordinário ao demonstrar que nenhum comportamento nasce isolado.

Mas talvez a pergunta da Loka nunca tenha sido essa.

A pergunta da Loka sempre pareceu outra.

Quem ganha quando esquecemos o restante da paisagem?

Quem ganha quando reduzimos o sujeito ao cérebro?

Quem ganha quando reduzimos sofrimento à química?

Quem ganha quando reduzimos história à biografia?

Quem ganha quando reduzimos estruturas à responsabilidade individual?

Porque toda redução produz invisibilidades.

Toda explicação produz sombras.

Toda teoria ilumina algo e obscurece outra coisa.

A contemporaneidade levou essa operação ao extremo.

O sujeito tornou-se uma empresa.

O corpo tornou-se projeto.

A identidade tornou-se produto.

A atenção tornou-se mercadoria.

A emoção tornou-se dado.

A experiência tornou-se conteúdo.

A vida tornou-se performance.

Byung-Chul Han talvez tenha sido um dos autores que melhor percebeu essa transformação.

O sujeito contemporâneo já não é explorado apenas por instituições externas.

Ele aprende a explorar a si mesmo.

Torna-se patrão e empregado da própria existência.

Vigia a si mesmo.

Cobra a si mesmo.

Avalia a si mesmo.

Monitora a si mesmo.

Compara a si mesmo.

E, ao final do processo, chama isso de liberdade.

É uma operação brilhante.

E devastadora.

Porque elimina a figura do opressor visível.

O chicote desaparece.

A cobrança permanece.

Talvez seja aqui que o Eu Soberano de Roudinesco encontre seu destino.

Ele acreditava ser livre.

Descobre que é monitorado.

Acreditava ser autônomo.

Descobre que é previsto.

Acreditava ser autor.

Descobre que é atravessado.

Acreditava ser centro.

Descobre que é consequência.

Consequência biológica.

Consequência histórica.

Consequência econômica.

Consequência tecnológica.

Consequência cultural.

Consequência temporal.

Mas existe uma camada ainda mais profunda.

Porque o sujeito digital não sofre apenas por excesso de informação.

Ele sofre por excesso de presente.

Tudo acontece agora.

Tudo exige resposta agora.

Tudo exige posicionamento agora.

Tudo exige reação agora.

Tudo exige opinião agora.

O passado desaparece.

O futuro desaparece.

Resta apenas uma atualização contínua.

Uma sucessão infinita de estímulos.

Uma sequência interminável de notificações.

Uma economia inteira organizada para impedir a maturação da experiência.

E sem experiência não existe narrativa.

Sem narrativa não existe memória.

Sem memória não existe história.

Sem história não existe alteridade.

Sem alteridade existe apenas repetição.

Talvez seja exatamente isso que Han chama de crise da narrativa.

Não faltam histórias.

Falta duração.

Não faltam discursos.

Falta elaboração.

Não faltam informações.

Falta tempo.

E então retornamos ao início.

Aquele mesmo início que parecia estar discutindo livre-arbítrio.

Talvez a pergunta correta nunca tenha sido:

"Quem escolheu?"

Talvez a pergunta correta seja:

"Quais condições tornaram essa escolha possível?"

Essa é uma pergunta diferente.

Muito diferente.

Porque ela desloca a análise do indivíduo para a relação.

Do cérebro para o contexto.

Da consciência para a história.

Da decisão para a condição.

É nesse ponto que o eixo Psico-Bio-Social e Discursivo Digital encontra sua razão de existir.

Nenhum fenômeno humano pode ser compreendido isoladamente.

O sofrimento não é apenas psicológico.

O comportamento não é apenas biológico.

A identidade não é apenas social.

A subjetividade não é apenas discursiva.

Tudo acontece simultaneamente.

Tudo acontece junto.

Tudo acontece em relação.

O sujeito é organismo.

O sujeito é história.

O sujeito é linguagem.

O sujeito é técnica.

O sujeito é economia.

O sujeito é tempo.

Por isso a Loka continua desconfiando do debate sobre livre-arbítrio.

Não porque seja irrelevante.

Mas porque frequentemente chega tarde.

Quando a discussão começa, o corpo já existe.

A infância já aconteceu.

A cultura já operou.

A tecnologia já atravessou.

A economia já condicionou.

A história já marcou.

A morte já estava presente desde o primeiro dia.

E o tempo continua avançando.

No fim, talvez os antigos estivessem menos preocupados em explicar o ser humano porque compreendiam algo que continuamos tentando reaprender.

"Os cães ladram e a caravana passa."

A caravana é o tempo.

A caravana é a história.

A caravana é a vida.

A caravana é a matéria.

Ela continua.

Independentemente das teorias que produzimos para explicá-la.

Talvez seja por isso que a oração modificada permaneça como síntese possível deste ensaio.

Tempo,

conceda-me serenidade para aceitar aquilo que não posso modificar.

Coragem para modificar aquilo que posso.

E sabedoria para reconhecer a diferença.

Não porque o tempo responda.

Mas porque ele continua.

E talvez seja justamente isso que a vida sempre tenha sido.

Não uma prova de liberdade.

Não uma prova de determinismo.

Mas uma travessia.

Uma travessia realizada por organismos temporários tentando elaborar, por meio de narrativas, uma existência que nunca deixou de ser finita.

E enquanto discutimos tudo isso...

a caravana passa.


Nota Ética:

Este texto possui finalidade exclusivamente reflexiva, educativa e ensaística. Não substitui acompanhamento psicológico, psiquiátrico ou qualquer modalidade de cuidado em saúde. As reflexões apresentadas não devem ser interpretadas como diagnóstico, orientação clínica individual ou prescrição de condutas. O conteúdo respeita os princípios do Código de Ética Profissional do Psicólogo (CFP), especialmente aqueles relacionados à promoção da dignidade humana, à não patologização da existência e ao compromisso com a complexidade dos fenômenos humanos.


Mini Bio:

José Antonio Lucindo da Silva é psicólogo, pesquisador independente e criador do projeto Mais Perto da Ignorância (MPI) e da persona ensaística A Loka do Rolê. Desenvolve análises a partir do eixo Psico-Bio-Social e Discursivo Digital, investigando as relações entre subjetividade, tecnologia, cultura, sofrimento humano, materialidade e produção de sentidos na contemporaneidade.


Referências:

BAUMAN, Zygmunt. Mal-estar na pós-modernidade. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.

BECKER, Ernest. A negação da morte. Rio de Janeiro: Record, 2007.

CAMUS, Albert. O mito de Sísifo. Rio de Janeiro: Record, 2019.

FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.

HAN, Byung-Chul. Sociedade do cansaço. Petrópolis: Vozes, 2017.

HAN, Byung-Chul. A crise da narrativa. Petrópolis: Vozes, 2023.

HAN, Byung-Chul. A expulsão do outro. Petrópolis: Vozes, 2022.

MARX, Karl. A ideologia alemã. São Paulo: Boitempo, 2007.

MORIN, Edgar. Introdução ao pensamento complexo. Porto Alegre: Sulina, 2015.

ROUDINESCO, Elisabeth. O Eu soberano: ensaio sobre as derivas identitárias. Rio de Janeiro: Zahar, 2022.

SAPOLSKY, Robert. Determinado: uma ciência da vida sem livre-arbítrio. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2024.


#mpi
#alokadorole



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