A ESCUTA VIROU INFRAESTRUTURA
AUTOR:
A Loka do Rolê
PROJETO:
Mais Perto da Ignorância — MPI
RESUMO:
Durante séculos, escutar foi uma experiência humana. Um gesto atravessado por presença, conflito, afeto, silêncio e linguagem. No século XXI, entretanto, a escuta deixou progressivamente de ser apenas uma prática relacional para tornar-se infraestrutura técnica. Plataformas digitais, sistemas algorítmicos, dispositivos móveis e modelos de inteligência artificial transformaram conversas, emoções, preferências e hesitações em matéria-prima econômica. Este ensaio investiga a transformação da escuta em mecanismo operacional do capitalismo contemporâneo, articulando subjetividade, corpo, tecnologia, trabalho, linguagem e vigilância. A partir de uma perspectiva psico-bio-social-tecnológico-discursiva, examina-se como a experiência humana passa a ser convertida em dado, previsão e produto. O texto propõe uma leitura crítica da captura algorítmica da atenção, da erosão dos espaços de elaboração simbólica e da reorganização da subjetividade sob regimes permanentes de monitoramento. Não se trata de discutir tecnologia como ferramenta neutra, mas como dispositivo histórico que reorganiza formas de sofrimento, produção de identidade e circulação de poder.
PALAVRAS-CHAVE:
subjetividade, inteligência artificial, escuta, capitalismo de vigilância, sofrimento contemporâneo, algoritmos, trabalho digital, discurso, tecnologia, atenção
INTRODUÇÃO:
Existe algo estranhamente melancólico na ideia de que a humanidade construiu máquinas capazes de ouvir tudo justamente no momento em que parece ter perdido a capacidade de escutar.
Não falo da audição. Falo da escuta.
A diferença entre ambas tornou-se uma das ruínas mais discretas do nosso tempo.
A audição permanece intacta. Nunca ouvimos tanto. Notificações, podcasts, vídeos, mensagens instantâneas, reuniões digitais, assistentes virtuais, inteligências artificiais conversacionais. Sons circulam sem descanso. Palavras atravessam telas em velocidade industrial. Vozes multiplicam-se como mercadorias em liquidação permanente.
A escuta, entretanto, parece cada vez mais rara.
Talvez porque tenha sido absorvida pela infraestrutura.
Aquilo que durante muito tempo pertenceu ao campo da relação humana passou gradativamente para o domínio da técnica. Hoje, sistemas computacionais escutam consumidores, trabalhadores, estudantes, pacientes, eleitores e usuários. Não para compreender. Compreensão continua sendo um luxo caro. Escutam para modelar comportamentos.
O algoritmo não precisa saber quem sou.
Basta calcular qual será meu próximo movimento.
O restante da minha subjetividade transforma-se em ruído operacional.
DESENVOLVIMENTO:
Há uma ironia histórica difícil de ignorar.
Durante boa parte do século XX, a crítica social denunciava instituições que não escutavam indivíduos. Famílias rígidas, fábricas disciplinadoras, burocracias impessoais e governos autoritários eram frequentemente descritos como estruturas incapazes de ouvir demandas subjetivas.
No século XXI ocorreu uma mutação peculiar.
As instituições aprenderam a escutar.
Ou pelo menos aprenderam a capturar sinais.
A diferença é decisiva.
Escutar deixou de significar estabelecer vínculo e passou a significar coletar dados.
Cada clique, pausa, rolagem, curtida, busca, hesitação ou permanência diante de uma tela tornou-se informação economicamente relevante.
A experiência humana converteu-se em recurso extrativo.
Shoshana Zuboff descreve esse fenômeno como capitalismo de vigilância. Não se trata apenas de observar comportamentos, mas de transformá-los em matéria-prima destinada à previsão e modificação de futuras ações.
A escuta tornou-se mineração.
O sujeito tornou-se jazida.
A atenção tornou-se commodity.
O corpo continua presente nessa operação, embora frequentemente esquecido pelas narrativas triunfalistas da inovação.
Toda experiência digital atravessa sistemas biológicos extremamente antigos.
A aceleração permanente encontra cérebros moldados por dezenas de milhares de anos de evolução. Circuitos relacionados à recompensa, antecipação e busca de novidade são continuamente acionados por arquiteturas digitais desenhadas para maximizar engajamento.
O resultado não aparece apenas em indicadores econômicos.
Aparece na fadiga.
Na insônia.
Na sensação difusa de exaustão sem causa aparente.
Na incapacidade crescente de sustentar atenção prolongada.
No esgotamento que parece não pertencer integralmente a ninguém porque foi distribuído socialmente.
Byung-Chul Han observou que a sociedade disciplinar cede lugar à sociedade do desempenho. O sujeito contemporâneo já não precisa ser coagido externamente com a mesma intensidade. Ele aprende a explorar a si próprio.
Transforma-se simultaneamente em patrão e empregado.
Fiscal e fiscalizado.
Empresário e matéria-prima.
Essa dinâmica torna-se particularmente visível nos ambientes digitais.
Produzimos conteúdo gratuitamente.
Oferecemos dados gratuitamente.
Treinamos sistemas gratuitamente.
Fornecemos informação emocional gratuitamente.
Depois consumimos a interpretação estatística de nós mesmos como se fosse liberdade.
Chamamos isso de personalização.
Chamamos isso de autonomia.
Chamamos isso de escolha.
O feed agradece a colaboração involuntária.
Existe uma violência curiosa nessa reorganização da experiência.
Ela raramente grita.
Raramente aparece como repressão explícita.
Opera através da conveniência.
A dominação contemporânea frequentemente veste a roupa confortável da facilidade.
O sujeito não é forçado a permanecer conectado.
Ele é seduzido.
Não é obrigado a produzir.
É incentivado.
Não é perseguido.
É engajado.
Não é controlado.
É otimizado.
As palavras mudam.
As relações de poder permanecem.
Freud descreveu o mal-estar como efeito inevitável da vida civilizada. Talvez o século XXI tenha introduzido uma camada adicional a esse diagnóstico. O sofrimento contemporâneo já não decorre apenas dos conflitos entre desejo e norma.
Surge também do conflito entre experiência humana e lógica algorítmica.
Entre temporalidade biológica e velocidade computacional.
Entre elaboração subjetiva e processamento automático.
Entre silêncio e conectividade permanente.
Nesse contexto, a linguagem também sofre transformações.
Não apenas nos comunicamos através das plataformas.
Passamos progressivamente a pensar segundo as arquiteturas discursivas que elas privilegiam.
O que circula mais rápido ganha aparência de verdade.
O que produz reação ganha aparência de relevância.
O que engaja ganha aparência de importância.
A lógica da plataforma infiltra-se na lógica da percepção.
A consequência não é simplesmente informacional.
É ontológica.
A própria experiência de existir começa a ser reorganizada por métricas.
Curtidas, visualizações, compartilhamentos, rankings, indicadores e avaliações funcionam como dispositivos de produção subjetiva.
A identidade torna-se painel de desempenho.
A autoestima aproxima-se da estatística.
A sociabilidade converte-se em monitoramento recíproco.
Não somos apenas observados.
Aprendemos a observar a nós mesmos segundo critérios algorítmicos.
O olhar disciplinar foi internalizado.
Mas agora utiliza interfaces amigáveis.
Enquanto isso, o mundo do trabalho atravessa transformação semelhante.
A inteligência artificial surge frequentemente acompanhada de promessas de eficiência, produtividade e racionalização. Contudo, por trás dessas narrativas existe uma redistribuição silenciosa do esforço humano.
Automatizam-se determinadas tarefas.
Multiplicam-se novas exigências.
Aumenta-se a velocidade esperada.
Reduz-se a margem para hesitações.
O trabalhador contemporâneo encontra-se simultaneamente conectado, monitorado e mensurado.
A exaustão deixa de ser acidente.
Torna-se componente estrutural do funcionamento econômico.
Não porque alguém tenha planejado conscientemente um projeto de sofrimento coletivo.
Mas porque sistemas orientados exclusivamente pela maximização de desempenho tendem a consumir recursos disponíveis até seus limites.
Inclusive recursos humanos.
Inclusive atenção.
Inclusive saúde mental.
Inclusive o tempo.
Inclusive a vida.
A escuta virou infraestrutura porque tudo aquilo que produz sinais passou a possuir valor econômico.
Não importa se a fala expressa alegria, medo, desejo, indignação ou solidão.
O sistema não precisa compreender seu significado existencial.
Precisa apenas reconhecer padrões estatísticos suficientemente úteis.
Essa talvez seja uma das características mais perturbadoras do presente.
A máquina não escuta porque se importa.
Escuta porque calcula.
CONSIDERAÇÕES FINAIS:
Talvez a grande fantasia tecnológica do nosso tempo não seja a inteligência artificial.
Talvez seja a crença de que previsão equivale a compreensão.
Os sistemas atuais sabem cada vez mais sobre comportamentos.
Mas isso não significa que compreendam o sofrimento.
Sabem identificar padrões.
Não necessariamente sentidos.
A escuta transformada em infraestrutura revela uma mutação histórica profunda. A experiência humana converte-se progressivamente em dado; o dado transforma-se em previsão; a previsão transforma-se em mercadoria.
Entre uma etapa e outra permanecem corpos cansados, subjetividades fragmentadas e relações cada vez mais mediadas por sistemas cujo principal interesse não é compreender pessoas, mas administrar probabilidades.
Não há conclusão confortável.
Apenas a constatação de que a captura da atenção tornou-se um dos principais campos de disputa política, econômica e subjetiva do século XXI.
A plataforma continua ouvindo.
A pergunta permanece em aberto: quem ainda está escutando?
NOTAS DO AUTOR:
Este ensaio integra a linha de produção discursiva do projeto Mais Perto da Ignorância — MPI, articulando crítica social, psicanálise, teoria crítica, saúde coletiva e estudos sobre tecnologia. A proposta não consiste em oferecer soluções individuais, mas examinar estruturas históricas que atravessam sofrimento, subjetividade e produção contemporânea da experiência.
MINI-BIO:
A Loka do Rolê é um projeto independente de análise crítica psico-bio-social-tecnológico-discursiva dedicado à investigação das transformações contemporâneas da subjetividade, do trabalho, da tecnologia e das formas de sofrimento produzidas pelo capitalismo digital.
REFERÊNCIAS:
FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização. São Paulo: Companhia das Letras.
https://www.companhiadasletras.com.br/livro/9788535920661/o-mal-estar-na-civilizacao
HAN, Byung-Chul. Sociedade do cansaço. Petrópolis: Vozes.
https://www.vozes.com.br/produto/sociedade-do-cansaco-9788532649961
ZUBOFF, Shoshana. A era do capitalismo de vigilância. Rio de Janeiro: Intrínseca.
https://www.intrinseca.com.br/livro/9788551004512/a-era-do-capitalismo-de-vigilancia
CIORAN, Emil. Breviário de decomposição. Rio de Janeiro: Rocco.
https://www.rocco.com.br/livro/breviario-de-decomposicao
FUNDAÇÃO OSWALDO CRUZ — FIOCRUZ
https://www.fiocruz.br
INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA — IBGE
https://www.ibge.gov.br
INSTITUTO DE PESQUISA ECONÔMICA APLICADA — IPEA
https://www.ipea.gov.br
SCIENTIFIC ELECTRONIC LIBRARY ONLINE — SCIELO
https://www.scielo.br
PUBMED — NATIONAL LIBRARY OF MEDICINE
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov
THE LANCET
https://www.thelancet.com
NATURE
https://www.nature.com
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