TRIBUNAL DA IGNORÂNCIA Dramaturgia Clínica Discursiva (DCD – MPI) "Nenhuma verdade sai daqui sem ser interrogada."
TRIBUNAL DA IGNORÂNCIA
Dramaturgia Clínica Discursiva (DCD – MPI)
"Nenhuma verdade sai daqui sem ser interrogada."
PROCESSO Nº 001
Objeto da audiência: A verdade apresentada no filme Dia D e a hipótese da existência de vida inteligente extraterrestre.
Autor da provocação: Breguésio.
Relator: Silvan.
Presidência da sessão: A Loka do Rolê.
Sentença: Suspensa.
Toda verdade permanece sob interrogatório.
ATO I — QUANDO O UNIVERSO BATE À PORTA
O silêncio ocupava a sala.
Não era um silêncio de ausência.
Era aquele silêncio que aparece quando uma frase consegue desorganizar tudo aquilo que parecia organizado.
Na tela, o filme terminava uma de suas sequências mais tensas.
Uma personagem defendia que determinadas informações não poderiam permanecer ocultas.
Outra respondia que a humanidade tinha o direito de saber.
A discussão parecia girar em torno de documentos, governos, tecnologias e possíveis inteligências extraterrestres.
Mas o Tribunal da Ignorância nunca julgava aquilo que aparecia na superfície.
Seu trabalho sempre começava um pouco abaixo das palavras.
Breguésio foi o primeiro a levantar-se.
Olhava para a tela como quem acabara de testemunhar a maior descoberta da história.
— Então era verdade...
Silvan não respondeu.
Continuou sentado.
As mãos apoiadas sobre um livro antigo.
Como se esperasse a pergunta certa.
Breguésio insistiu.
— Existe vida inteligente fora da Terra.
Silvan levantou lentamente os olhos.
Não olhou para a tela.
Olhou para Breguésio.
— Inteligente?
— Segundo qual critério?
O silêncio voltou a ocupar a sala.
Breguésio parecia não compreender.
— Eles atravessaram anos-luz...
Silvan respondeu quase imediatamente.
— E continuam dependendo de alguma coisa para existir.
Nova pausa.
— Comem o quê?
— Respiram o quê?
— Transformam energia em quê?
— Dependem de quais condições materiais?
Cada pergunta parecia retirar um pedaço do encanto inicial.
Não para negar a descoberta.
Mas para deslocá-la.
Silvan fechou lentamente o livro.
— Você percebe?
— Nós chamamos de inteligência aquilo que amplia nossa admiração.
Talvez devêssemos chamá-la de outra coisa.
Porque inteligência não elimina dependência.
Não elimina limite.
Não elimina tempo.
Breguésio voltou-se para a terceira cadeira.
Até aquele instante, permanecera vazia.
Ou pelo menos era isso que ele acreditava.
A voz surgiu antes da presença.
— Finalmente resolveram começar.
A Loka do Rolê atravessou lentamente a penumbra.
Capuz.
Óculos escuros.
As mãos nos bolsos.
Nenhuma pressa.
Ela nunca precisou correr para chegar a lugar algum.
Sentou-se na cadeira da presidência.
Olhou para os dois.
Depois para a tela.
Sorriu discretamente.
— Então...
— Encontraram vizinhos.
Silvan sorriu.
Breguésio respondeu quase emocionado.
— Não são apenas vizinhos.
São outra inteligência.
A Loka inclinou levemente a cabeça.
— Inteligência...
Ela repetiu a palavra como quem experimenta um alimento novo.
Depois perguntou:
— Eles vieram me cumprimentar?
Os dois permaneceram em silêncio.
Ela continuou.
— Viajaram milhões de anos-luz...
— Descobriram como atravessar distâncias que vocês ainda nem conseguem calcular...
— Talvez dominem tecnologias que fariam a ciência humana parecer infância...
Ela fez uma pausa.
Longa.
Depois concluiu:
— Mesmo assim...
— Não apareceram para conversar comigo.
Silvan já conhecia aquele caminho.
Breguésio ainda tentava compreender.
— Conversar com você?
A Loka respondeu serenamente.
— Claro.
— Se são tão inteligentes...
— Gostaria de saber como resolveram o problema da finitude.
O ambiente ficou imóvel.
A pergunta parecia deslocar completamente a discussão do filme.
Já não importava mais quem escondia documentos.
Nem quem revelava informações.
Nem quais governos haviam mentido.
Nem quais empresas haviam financiado pesquisas.
Outra pergunta ocupava o centro da audiência.
Uma pergunta muito mais antiga.
Silvan foi quem a pronunciou.
— Toda inteligência precisa reconhecer o próprio limite?
A Loka respondeu sem hesitar.
— Não.
— Mas toda inteligência que ignora o próprio limite produz uma ilusão sobre si mesma.
Silêncio.
Breguésio olhou novamente para a tela.
As imagens do filme continuavam mostrando personagens debatendo o direito à verdade.
Ele respirou profundamente.
— Então eles estavam discutindo a pergunta errada?
Silvan respondeu:
— Não exatamente.
— Apenas começaram pelo lugar errado.
A pergunta não é:
"Existe vida inteligente fora da Terra?"
A pergunta talvez seja:
"O que uma civilização faz quando acredita ter encontrado uma verdade capaz de reorganizar sua própria história?"
A Loka cruzou as pernas.
Olhou para a janela.
Lá fora, a cidade continuava funcionando exatamente como antes.
Pessoas trabalhavam.
Ônibus passavam.
Hospitais permaneciam abertos.
Alguém nascia.
Alguém morria.
Alguém fazia planos para o futuro.
Nada parecia diferente.
Ela voltou-se para os dois.
— Percebem a ironia?
O universo inteiro pode mudar...
...e ainda assim alguém continuará precisando preparar o jantar.
Silvan riu discretamente.
Breguésio permaneceu pensativo.
A Loka prosseguiu.
— Vocês chamam isso de "a maior descoberta da humanidade".
Eu faria outra pergunta.
Ela levantou-se lentamente.
A sala inteira pareceu acompanhá-la.
— O que exatamente essa verdade altera na condição psicobiossocial da existência?
Silêncio.
Nenhum dos dois respondeu.
Porque aquela pergunta não dizia respeito apenas ao filme.
Ela atravessava a política.
A ciência.
A religião.
A tecnologia.
Os algoritmos.
As instituições.
E alcançava aquilo que nenhuma civilização consegue abandonar completamente:
A maneira como produz sentido para continuar existindo.
A Loka caminhou em direção à porta.
Antes de sair, voltou-se apenas uma vez.
Sorriu.
— A audiência está apenas começando.
E desapareceu.
Na mesa do Tribunal permaneceu apenas uma anotação escrita à mão.
HIPÓTESE CLÍNICO-DISCURSIVA PROVISÓRIA Nº 001
"Toda grande verdade reorganiza discursos. Nenhuma grande verdade, por si só, reorganiza a condição material da existência."
A audiência permanece aberta.
TRIBUNAL DA IGNORÂNCIA
Dramaturgia Clínica Discursiva (DCD – MPI)
"Nenhuma verdade sai daqui sem ser interrogada."
PROCESSO Nº 001
Objeto da audiência: A verdade apresentada no filme Dia D e a hipótese da existência de vida inteligente extraterrestre.
Autor da provocação: Breguésio.
Relator: Silvan.
Presidência da sessão: A Loka do Rolê.
Sentença: Suspensa.
Toda verdade permanece sob interrogatório.
ATO II — QUEM GOVERNA QUANDO A VERDADE MUDA DE DONO?
A audiência foi retomada.
Ninguém bateu o martelo.
No Tribunal da Ignorância, martelos nunca encerravam discussões.
Serviam apenas para lembrar que toda certeza produz ruído.
A Loka do Rolê permaneceu na presidência.
Não porque fosse dona da verdade.
Mas porque era a única personagem que nunca precisou disputar sua permanência.
Breguésio caminhava de um lado para o outro.
Ainda havia algo que o inquietava.
— O filme insiste numa pergunta...
Silvan aguardou.
— A protagonista diz que o direito de saber é mais importante do que as consequências de saber.
Ela acredita que esconder a verdade é pior do que revelá-la.
Silvan permaneceu alguns segundos em silêncio.
Depois perguntou:
— E se a pergunta estiver incompleta?
Breguésio franziu a testa.
— Como assim?
Silvan levantou-se lentamente.
Pegou um pequeno globo terrestre que havia sobre a mesa.
Girou-o com delicadeza.
— Imagine que amanhã alguém prove, sem qualquer dúvida, que governos esconderam informações durante cinquenta anos.
Imagine que documentos existam.
Que tecnologias existam.
Que contatos existam.
Ele parou de girar o globo.
— O que muda primeiro?
Breguésio respondeu rapidamente.
— A verdade aparece.
Silvan balançou a cabeça.
— Não.
— O que aparece primeiro é a desconfiança.
Silêncio.
— Porque a revelação não atinge apenas os fatos.
Ela atinge quem administrava os fatos.
A Loka observava sem interromper.
Silvan prosseguiu.
— Durante muito tempo, a humanidade organizou sua convivência acreditando que determinadas instituições eram responsáveis por mediar aquilo que chamamos de realidade.
Governos.
Universidades.
Tribunais.
Imprensa.
Comunidades científicas.
Religiões.
Cada uma delas ocupou, em diferentes momentos históricos, parte dessa função.
Breguésio respondeu:
— Então o problema não é o extraterrestre.
Silvan sorriu.
— Exatamente.
O problema é descobrir que o administrador da verdade talvez nunca tenha sido apenas um administrador.
Talvez também tenha sido um editor.
A palavra ficou suspensa.
Editor.
A Loka finalmente falou.
— Vocês gostam muito dessa palavra.
Silvan olhou para ela.
Ela continuou.
— Editar não significa apenas esconder.
Também significa escolher.
Escolher o que entra.
Escolher o que fica de fora.
Escolher o momento.
Escolher o enquadramento.
Escolher a narrativa.
Ela apontou para a tela do filme.
— Vocês acham que a discussão é sobre extraterrestres.
Eu continuo vendo outra coisa.
Vejo pessoas discutindo quem tem autorização para organizar a realidade.
Silêncio.
Breguésio voltou a caminhar.
Parecia inquieto.
— Então a verdade nunca chega pura?
Silvan respondeu:
— Ela sempre chega narrada.
A Loka completou:
— E toda narrativa possui um autor.
Silêncio.
Naquele instante, uma tela enorme surgiu ao fundo do Tribunal.
Não mostrava naves.
Não mostrava governos.
Mostrava apenas milhares de notificações.
"URGENTE."
"ESPECIAL."
"A VERDADE REVELADA."
"VOCÊ NÃO VAI ACREDITAR."
"EXCLUSIVO."
Silvan olhou para Breguésio.
— Está vendo?
— A verdade ainda nem terminou de aparecer...
...e já virou mercado.
A Loka riu discretamente.
— O algoritmo foi mais rápido que a filosofia.
Breguésio respondeu quase sem perceber.
— Mas as pessoas têm o direito de saber.
Silvan confirmou.
— Têm.
A questão é outra.
Quem organiza aquilo que será compreendido como saber?
Silêncio.
A Loka cruzou lentamente as mãos sobre a mesa da presidência.
— É curioso...
Vocês imaginam que a mentira destrói uma civilização.
Nem sempre.
Às vezes...
...é a forma como a verdade chega que reorganiza completamente a vida coletiva.
Os dois permaneceram atentos.
Ela prosseguiu.
— Uma verdade nunca entra numa sociedade vazia.
Ela entra numa sociedade que já possui medos.
Interesses.
Memórias.
Disputas.
Esperanças.
Instituições.
Mercados.
E, principalmente...
...discursos.
Silvan assentiu.
— É por isso que Hobbes continua sendo atual.
Breguésio olhou para ele.
Silvan aproximou-se da mesa.
— O Leviatã não nasce porque os seres humanos amam o Estado.
Ele nasce porque o medo da desorganização pode ser ainda maior.
O Estado é uma tentativa de administrar a convivência.
Não de eliminar a condição humana.
A Loka interrompeu.
— E toda tentativa de administrar a convivência depende de confiança.
Silêncio.
— Agora imaginem...
Ela levantou-se.
Caminhou lentamente pelo Tribunal.
— Uma verdade suficientemente grande para romper essa confiança.
Ela fez uma pausa.
— O que entra em crise primeiro?
Os extraterrestres?
Ou a narrativa que sustentava a autoridade das instituições?
Breguésio demorou a responder.
Depois disse quase em voz baixa:
— Talvez...
...o Leviatã também possa sentir medo.
Silvan sorriu.
— Agora começamos a audiência.
O Tribunal permaneceu em silêncio.
Lá fora, a cidade seguia funcionando.
Os hospitais continuavam atendendo.
As escolas continuavam abertas.
Os mercados continuavam vendendo alimentos.
As pessoas continuavam atravessando as ruas.
A revelação não havia suspendido a vida cotidiana.
Apenas havia produzido uma nova disputa sobre quem poderia explicar essa mesma vida.
A Loka caminhou até a janela.
Olhou para a cidade.
Depois disse algo que fez os dois permanecerem imóveis.
— Vocês continuam perguntando quem possui a verdade.
Eu continuo perguntando outra coisa.
Silêncio.
— Quem suporta viver depois que a verdade muda de dono?
Ninguém respondeu.
Porque aquela pergunta não era apenas política.
Era psicológica.
Era social.
Era histórica.
Era profundamente humana.
Na mesa do Tribunal surgiu uma nova anotação.
HIPÓTESE CLÍNICO-DISCURSIVA PROVISÓRIA Nº 002
"A verdade não reorganiza uma sociedade por existir. Ela reorganiza uma sociedade quando altera as relações de confiança entre sujeitos, instituições e discursos. O impacto não depende apenas do conteúdo revelado, mas da capacidade psicobiossocial de elaborar essa revelação."
A audiência permaneceu aberta.
NOTA METODOLÓGICA DO TRIBUNAL DA IGNORÂNCIA
Antes do prosseguimento desta audiência, o Tribunal da Ignorância considera necessário registrar uma observação metodológica.
A presente elaboração não constitui uma análise integral do filme Dia D. O texto foi construído a partir de um recorte aproximado dos primeiros quarenta e cinco minutos da obra, especialmente das cenas em que os personagens discutem a revelação de uma suposta verdade capaz de reorganizar a história da humanidade.
Assim, tudo o que se segue deve ser compreendido como uma Dramaturgia Clínica Discursiva, e não como uma interpretação definitiva do filme. O acontecimento cinematográfico funciona apenas como um disparador para uma reflexão sobre verdade, tempo, instituições, finitude e produção de sentidos.
Foi justamente nesse ponto da narrativa que surgiu a provocação que estrutura esta audiência:
A verdade pode ser essencial. Mas ela precisa ser revelada justamente agora?
Essa pergunta não procura justificar o ocultamento da verdade nem defender sua revelação. Ela desloca o problema para outro lugar: o da temporalidade e da capacidade psicobiossocial de uma sociedade elaborar aquilo que reconhece como verdadeiro.
O inevitável nunca foi o problema.
O problema talvez seja a humanidade acreditar que decide quando está preparada para encontrar aquilo que é inevitável.
Sob essa perspectiva, o debate deixa de ser apenas político ou científico. Ele passa a envolver a maneira como sujeitos e sociedades constroem simbolicamente a própria existência.
Como lembra Ernest Becker, grande parte da experiência humana é organizada por sistemas simbólicos que procuram oferecer estabilidade diante da vulnerabilidade da condição material. Entretanto, esses sistemas não eliminam a materialidade da existência; eles apenas produzem sentidos para convivermos com ela.
É justamente nesse ponto que a audiência do Tribunal da Ignorância propõe uma inversão.
Antes de discutir tecnologias, civilizações extraterrestres ou grandes revelações, torna-se necessário recordar uma condição anterior a qualquer discurso: toda forma de vida depende de condições materiais para continuar existindo.
É preciso alimento.
É preciso energia.
É preciso um corpo.
Como a própria Loka do Rolê costuma lembrar com sua ironia característica:
"Antes da filosofia, alguém precisou preparar o frango."
Essa frase não diminui o pensamento. Pelo contrário. Ela recorda que toda elaboração simbólica repousa, inevitavelmente, sobre uma base material. O discurso não substitui a existência; ele nasce porque a existência precisa continuar.
Talvez seja justamente por isso que o Tribunal da Ignorância insista tanto em interrogar as verdades contemporâneas.
Não porque elas sejam falsas.
Mas porque nenhuma delas consegue escapar completamente da condição psicobiossocial que torna possível qualquer forma de vida.
É sob esse compromisso metodológico que esta audiência continua.
TRIBUNAL DA IGNORÂNCIA
Dramaturgia Clínica Discursiva (DCD – MPI)
"Nenhuma verdade sai daqui sem ser interrogada."
PROCESSO Nº 001
Objeto da audiência: A verdade apresentada no recorte inicial do filme Dia D e a hipótese da existência de vida inteligente extraterrestre.
Autor da provocação: Breguésio.
Relator: Silvan.
Presidência da sessão: A Loka do Rolê.
Sentença: Suspensa.
Toda verdade permanece sob interrogatório.
ATO III — O ERRO NÃO É PROCURAR VIDA. É CONFUNDIR INTELIGÊNCIA COM AUSÊNCIA DE LIMITE.
O Tribunal permanecia em silêncio.
Não havia testemunhas.
Não havia advogados.
Não havia plateia.
Apenas três personagens e uma pergunta que parecia crescer à medida que era discutida.
Breguésio foi o primeiro a romper o silêncio.
— Talvez eu tenha entendido.
Silvan permaneceu imóvel.
— Nós sempre imaginamos que encontrar outra inteligência significaria encontrar alguém maior do que nós.
Silvan respondeu calmamente:
— Talvez apenas encontremos alguém diferente.
A Loka do Rolê sorriu.
— Ou alguém condenado ao mesmo problema.
O silêncio voltou.
Breguésio insistiu.
— Mas eles atravessaram galáxias...
A Loka olhou para ele.
— E daí?
Ela caminhou lentamente pelo Tribunal.
Cada passo parecia desmontar uma camada do entusiasmo inicial.
— Vocês insistem em medir inteligência pela distância percorrida.
Eu continuo perguntando outra coisa.
Ela parou diante da mesa.
— Eles dependem de quê?
Silêncio.
— Se precisam transformar energia...
Dependem.
— Se precisam de matéria...
Dependem.
— Se precisam manter alguma organização para continuar existindo...
Dependem.
Silvan completou:
— E toda dependência revela um limite.
A Loka assentiu.
— Exatamente.
Ela voltou-se para Breguésio.
— Você percebe?
O problema nunca foi viajar milhões de anos-luz.
O problema continua sendo permanecer existindo.
Breguésio abaixou lentamente a cabeça.
— Então a inteligência deles...
Ela interrompeu.
— Pode ser extraordinária.
Mas extraordinário não significa ilimitado.
Silêncio.
Silvan aproximou-se da janela.
A cidade permanecia viva.
Pessoas saíam do trabalho.
Outras chegavam aos hospitais.
Alguém fazia compras.
Alguém chorava uma perda.
Alguém comemorava um nascimento.
Ele falou sem tirar os olhos da rua.
— Ernest Becker talvez sorrisse diante dessa cena.
Breguésio perguntou:
— Por quê?
— Porque passamos a vida construindo sistemas simbólicos para suportar aquilo que nunca conseguimos eliminar.
Silêncio.
— A vulnerabilidade.
— A dependência.
— A morte.
A Loka não respondeu imediatamente.
Pela primeira vez, parecia ouvir.
Silvan continuou.
— Criamos religiões.
Criamos Estados.
Criamos bandeiras.
Criamos moedas.
Criamos tecnologias.
Criamos inteligências artificiais.
Agora imaginamos civilizações extraterrestres.
Tudo isso amplia nosso universo simbólico.
Mas nenhuma dessas construções substitui a necessidade de um corpo continuar existindo.
A Loka sorriu.
Dessa vez havia satisfação.
— Finalmente alguém trouxe o frango para a audiência.
Breguésio riu.
Silvan também.
Ela prosseguiu.
— Antes da filosofia...
...alguém precisou comer.
Antes da política...
...alguém precisou sobreviver.
Antes da ciência...
...alguém precisou respirar.
Antes de qualquer discurso...
...existia um corpo tentando continuar existindo.
Ela fez uma pausa.
— É sobre isso que vocês esquecem quando chamam alguém de "inteligência superior".
Silêncio.
Breguésio levantou os olhos.
— Então o erro está na palavra "superior".
Silvan respondeu:
— Talvez.
Porque superior em tecnologia não significa superior em condição existencial.
A Loka aproximou-se lentamente da cadeira da presidência.
Sentou-se.
Retirou os óculos escuros.
Foi a primeira vez que os dois viram seus olhos.
Não havia ameaça.
Nem julgamento.
Havia apenas uma serenidade impossível de datar.
Ela falou quase em tom de confidência.
— Vocês acreditam que eu represento o fim.
Os dois permaneceram atentos.
— Não.
Eu represento o limite.
E existe uma diferença enorme entre essas duas palavras.
O limite não destrói a existência.
Ele lhe dá contorno.
Sem limite...
Não existe trajetória.
Sem trajetória...
Não existe história.
Sem história...
Não existe memória.
Sem memória...
Não existe civilização.
Silêncio.
Breguésio permaneceu olhando para ela.
— Então você não é inimiga da vida?
Ela sorriu.
— Nunca fui.
Quem inventou essa rivalidade foram vocês.
Eu apenas lembro que toda existência acontece porque possui condições.
E toda condição possui limites.
Silvan fechou lentamente o livro que carregava desde o início da audiência.
— Talvez seja isso que o filme ainda não perguntou.
A Loka respondeu:
— Nem precisava.
O papel do cinema é abrir perguntas.
O nosso é interrogar aquilo que as perguntas escondem.
Ela voltou a colocar os óculos.
Levantou-se.
Olhou novamente para a tela onde, minutos antes, personagens discutiam governos, documentos e revelações.
Depois concluiu:
— A humanidade continua fascinada pela possibilidade de encontrar alguém mais inteligente.
Eu continuo fascinada por outra possibilidade.
Os dois aguardaram.
— Encontrar uma inteligência que reconheça a própria finitude sem precisar inventar que ela deixou de existir.
O Tribunal mergulhou em silêncio.
Não porque a audiência tivesse terminado.
Mas porque, pela primeira vez, a descoberta de uma vida extraterrestre parecia pequena diante de uma pergunta muito mais difícil:
É possível chamar de plenamente inteligente uma civilização que domina o cosmos, mas continua incapaz de compreender o significado dos próprios limites?
Sobre a mesa surgiu uma nova folha.
HIPÓTESE CLÍNICO-DISCURSIVA PROVISÓRIA Nº 003
"Uma civilização pode ampliar indefinidamente sua capacidade tecnológica sem ampliar, na mesma proporção, sua elaboração existencial. A inteligência técnica não elimina a dependência material; apenas modifica a forma como uma espécie administra seus próprios limites."
A audiência permanece aberta.
TRIBUNAL DA IGNORÂNCIA
Dramaturgia Clínica Discursiva (DCD – MPI)
"Nenhuma verdade sai daqui sem ser interrogada."
PROCESSO Nº 001
Objeto da audiência: A verdade apresentada no recorte inicial do filme Dia D e a hipótese da existência de vida inteligente extraterrestre.
Autor da provocação: Breguésio.
Relator: Silvan.
Presidência da sessão: A Loka do Rolê.
Audiência: Permanente.
ATO IV — QUANDO A VERDADE ENCONTRA O TEMPO
A audiência aproximava-se do encerramento.
Não porque todas as perguntas tivessem sido respondidas.
Mas porque algumas delas haviam se tornado grandes demais para caber em uma única sessão.
A cidade continuava viva.
As redes sociais permaneciam discutindo a revelação.
Os especialistas organizavam novas teorias.
Os governos elaboravam comunicados.
As plataformas distribuíam milhões de interpretações diferentes sobre o mesmo acontecimento.
Tudo parecia novo.
E, ao mesmo tempo, profundamente antigo.
Breguésio olhava novamente para a tela.
As últimas imagens do recorte do filme permaneciam congeladas.
A protagonista insistia que a verdade precisava ser conhecida.
Ele respirou fundo.
Depois perguntou:
— Talvez ela estivesse certa.
Silvan respondeu sem negar.
— Talvez.
Breguésio insistiu.
— Então por que continuamos interrogando essa ideia?
Silvan aproximou-se da janela.
A manhã começava a nascer.
— Porque existe uma diferença entre reconhecer a importância de uma verdade e imaginar que toda verdade possa ser assimilada da mesma maneira, em qualquer tempo histórico.
O silêncio voltou.
Breguésio permaneceu pensando.
Foi então que lembrou de uma frase dita horas antes.
— A verdade pode ser inevitável...
...mas precisa acontecer justamente agora?
A Loka do Rolê sorriu discretamente.
— Finalmente.
Os dois olharam para ela.
— Vocês passaram a audiência inteira discutindo a verdade.
Agora começaram a discutir o tempo.
Ela caminhou lentamente pelo Tribunal.
Cada passo parecia atravessar séculos.
— O inevitável nunca foi o problema.
O problema é acreditar que a humanidade escolhe o momento em que está preparada para encontrar aquilo que é inevitável.
Silêncio.
— O tempo não participa de debates.
Não negocia.
Não faz eleições.
Não responde às redes sociais.
Não consulta governos.
Ele apenas continua.
Silvan completou:
— E, enquanto continua, reorganiza tudo aquilo que imaginávamos permanente.
A Loka assentiu.
— Exatamente.
Ela voltou a olhar para Breguésio.
— Vocês acreditam que a grande questão do filme é descobrir se existe vida inteligente fora da Terra.
Eu continuo vendo outra audiência.
Os dois permaneceram atentos.
— A audiência sobre o narcisismo humano.
Silêncio.
— Durante séculos, vocês imaginaram ocupar o centro.
Depois descobriram que a Terra não era o centro.
Depois descobriram que o Sol também não.
Depois perceberam que a galáxia era apenas uma entre bilhões.
Agora talvez descubram que também não são a única inteligência.
Ela fez uma pausa.
— E continuam acreditando que a maior notícia é essa.
Silvan sorriu.
— Talvez a maior notícia seja outra.
A Loka respondeu:
— Talvez.
Ela caminhou até a mesa da presidência.
Sobre ela havia apenas um prato vazio.
Breguésio estranhou.
— O que isso faz aqui?
A Loka respondeu:
— Lembra da conversa sobre o frango?
Ele sorriu.
Ela continuou.
— Antes de qualquer verdade...
...alguém precisou comer.
Antes de qualquer teoria...
...alguém precisou respirar.
Antes de qualquer civilização...
...alguém precisou sobreviver.
Ela levantou o prato.
— É curioso.
Vocês sonham com galáxias.
Eu continuo perguntando quem preparou o almoço.
Silêncio.
Silvan riu discretamente.
— Parece uma ironia.
A Loka devolveu:
— É uma lembrança.
Toda construção simbólica repousa sobre uma base material.
Nenhuma narrativa elimina essa condição.
Ela apenas a interpreta.
Breguésio olhou novamente para o céu.
Desta vez sem euforia.
Sem medo.
Apenas com curiosidade.
— Então...
...se amanhã aparecer uma nave sobre nossas cidades...
...o que muda?
A Loka respondeu quase imediatamente.
— Muda a história que vocês contam sobre vocês mesmos.
Ela fez uma pausa.
— Mas ninguém deixará de sentir fome por causa disso.
Ninguém deixará de envelhecer por causa disso.
Ninguém deixará de precisar do outro para existir por causa disso.
Ninguém deixará de enfrentar perdas por causa disso.
Silêncio.
— A revelação reorganiza discursos.
A condição continua exigindo existência.
Silvan fechou lentamente o livro.
Pela primeira vez desde o início da audiência, não havia mais nada a acrescentar.
Não porque as perguntas tivessem terminado.
Mas porque haviam encontrado um lugar melhor para continuar existindo.
A Loka levantou-se.
Retirou lentamente os óculos escuros.
Olhou para os dois.
Depois para a cidade.
Por fim, para o leitor.
— Continuem procurando.
Não porque encontrarão uma verdade definitiva.
Mas porque toda verdade que merece esse nome precisa suportar ser interrogada.
O Tribunal mergulhou em silêncio.
Não havia aplausos.
Não havia sentença.
Apenas uma audiência que permanecia aberta.
COMENTÁRIO CLÍNICO:
Esta Dramaturgia Clínica Discursiva toma como ponto de partida um recorte do filme Dia D para discutir processos de produção de sentido, confiança institucional, temporalidade e finitude. O foco não está na comprovação da existência de inteligências extraterrestres, mas na maneira como uma sociedade organiza simbolicamente uma verdade que considera transformadora.
Sob o eixo Psico–Bio–Social e Discursivo Digital, a obra propõe que nenhuma descoberta é assimilada fora das condições concretas da existência. Processos psicológicos, vínculos sociais, instituições, cultura e ecossistemas digitais participam simultaneamente da elaboração do que passa a ser reconhecido como verdadeiro.
A referência à materialidade da existência — sintetizada, de forma irônica, pela lembrança de que "antes da filosofia alguém precisou preparar o frango" — não diminui a importância do conhecimento. Ao contrário, recorda que toda produção simbólica repousa sobre condições biológicas e sociais que tornam possível a própria atividade de pensar.
NOTA ÉTICA:
Este texto possui finalidade educativa, cultural e reflexiva.
A utilização de conceitos da Psicologia ocorre em conformidade com os princípios do Código de Ética Profissional do Psicólogo, evitando diagnósticos individualizados, interpretações patologizantes ou extrapolações sobre pessoas reais. O filme constitui apenas um disparador narrativo para reflexão crítica, não sendo objeto de análise integral nesta audiência.
REFERÊNCIAS:
BECKER, Ernest. A negação da morte. Rio de Janeiro: Record.
HAN, Byung-Chul. Sociedade do cansaço. Petrópolis: Vozes.
HOBBES, Thomas. Leviatã. São Paulo: Martins Fontes.
FREUD, Sigmund. Além do princípio do prazer. Obras completas.
CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. Código de Ética Profissional do Psicólogo. Brasília: CFP.
CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. Referências Técnicas para atuação e comunicação pública da Psicologia. Brasília: CFP.
DESPACHO DA PRESIDÊNCIA:
Esta Presidência registra que a presente audiência não produziu uma conclusão definitiva.
As questões discutidas permaneceram maiores do que qualquer resposta apresentada.
Reconhece-se que toda verdade, por mais robusta que pareça, continua submetida ao tempo, às condições materiais da existência e aos processos psicobiossociais pelos quais os sujeitos e as coletividades produzem sentidos.
Este Tribunal não absolve verdades.
Também não as condena.
Limita-se a interrogá-las.
A audiência permanece aberta.
A Loka do Rolê
Presidência do Tribunal da Ignorância
MINI BIO:
Mais Perto da Ignorância (MPI) é um projeto autoral de divulgação crítica que articula Psicologia, filosofia, cultura, política e tecnologia a partir do eixo Psico–Bio–Social e Discursivo Digital.
No Tribunal da Ignorância, Breguésio inaugura a dúvida, Silvan interroga as certezas e A Loka do Rolê recorda que nenhuma narrativa está acima da condição de existir.
#mpi
#alokadorole
#maispertodaignorancia
Comentários
Enviar um comentário