AS PALAVRAS TÊM PODER?
Uma análise – Psico – Bio – Social – Discursiva-digital sobre a primazia da materialidade diante dos discursos motivacionais
José Antônio Lucindo da Silva
Psicólogo Clínico – CRP 06/172551
Resumo:
O presente ensaio analisa criticamente a circulação contemporânea de discursos que atribuem às palavras um suposto poder determinante sobre a realidade, especialmente quando difundidos em ambientes digitais e institucionais. O texto parte de uma publicação compartilhada em uma comunidade profissional de Gestão de Pessoas e Recursos Humanos, tomando-a como ponto de partida para discutir um fenômeno mais amplo: a tendência contemporânea de deslocar explicações estruturais para o campo da responsabilização individual por meio da linguagem.
A análise desenvolve-se a partir do eixo Psico–Bio–Social e Discursivo Digital, articulando literatura, filosofia, psicologia, sociologia, neurociência, estudos sobre tecnologia e dados públicos brasileiros. Dialoga com autores como Karl Marx, Jean-Paul Sartre, Ernest Becker, Graciliano Ramos, Shoshana Zuboff, Byung-Chul Han, Cathy O'Neil, Sigmund Freud, André Green e outros, sem pretender estabelecer uma hierarquia definitiva entre eles, mas reconhecendo que todos elaboram suas reflexões a partir de uma mesma condição fundamental: a dependência da matéria.
Propõe-se que a linguagem possui potência simbólica, política e cultural, mas não antecede as condições materiais que tornam sua própria existência possível. Antes do discurso há um organismo; antes da elaboração simbólica há metabolismo; antes da filosofia há um corpo sustentado por energia. Nessa perspectiva, a obra A Loka do Rolê funciona como eixo narrativo-metodológico, dramatizando a tensão entre linguagem e materialidade por meio de três funções literárias: Breguésio, Silvan e A Loka do Rolê.
Palavras-chave: Psicologia. Linguagem. Materialidade. Discurso Digital. Psicobiossocial. Capitalismo de Vigilância. Existência. Ética.
Nota metodológica:
Este ensaio foi elaborado em conformidade com o Código de Ética Profissional do Psicólogo, especialmente no que se refere à comunicação pública de conteúdos em ambientes digitais e ao compromisso com a promoção do pensamento crítico, da dignidade humana e da responsabilidade social.
O texto não constitui análise clínica, parecer psicológico, avaliação de pessoas, instituições ou categorias profissionais.
Também não representa crítica dirigida a indivíduos específicos, profissionais, organizações, comunidades religiosas, áreas de Recursos Humanos ou quaisquer outras categorias.
O objeto de análise é exclusivamente a circulação de determinados discursos digitais, compreendidos como fenômenos sociais que podem produzir efeitos simbólicos distintos quando inseridos em determinados contextos históricos e culturais.
A utilização de uma postagem pública como ponto de partida possui finalidade exclusivamente ilustrativa e reflexiva.
Os argumentos desenvolvidos fundamentam-se em literatura científica, filosófica, psicológica e sociológica, bem como em dados públicos produzidos por instituições oficiais brasileiras.
Introdução:
Era mais um daqueles dias absolutamente comuns.
O Breguésio estava fazendo aquilo que bilhões de pessoas fazem diariamente.
Rolando a tela do celular.
Sem destino.
Sem objetivo.
Apenas deslizando o dedo sobre um oceano infinito de discursos.
Silvan observava tudo com a conhecida expressão de quem já perdeu completamente a esperança na espécie humana.
Eu não estava prestando atenção em nenhum dos dois.
Na verdade, nunca estou.
A morte nunca teve muito interesse pelas opiniões dos vivos.
Foi então que o Breguésio interrompeu o silêncio.
— Loka... olha isso aqui.
Levantei os olhos.
Na tela havia uma imagem compartilhada em um ambiente profissional de Gestão de Pessoas e Recursos Humanos.
No centro da imagem lia-se:
– "Crie o hábito de profetizar coisas boas sobre sua vida; palavras têm poder."
Silêncio.
Silvan nem precisou comentar.
Seu rosto já dizia tudo.
Eu continuei olhando para a tela.
Não para descobrir quem havia publicado.
Isso nunca me interessou.
Discursos não pertencem apenas a quem os escreve.
Eles circulam.
São reproduzidos.
Compartilhados.
Recortados.
Repetidos.
Naturalizados.
Às vezes sobrevivem mais que seus próprios autores.
Silvan finalmente quebrou o silêncio.
— Curioso...
— O quê?
— Sempre que falta matéria aparece discurso.
Quando falta salário...
aparece propósito.
Quando falta descanso...
aparece resiliência.
Quando falta tempo...
aparece produtividade.
Quando falta dignidade...
aparece pensamento positivo.
O Breguésio ainda tentava compreender.
— Mas... palavras não podem influenciar pessoas?
Olhei para ele.
Sorri.
Não um sorriso de quem concorda.
Nem de quem discorda.
O sorriso de quem já viu essa conversa acontecer milhares de vezes ao longo da história.
— Claro que podem.
A linguagem organiza culturas.
Constrói religiões.
Fundamenta sistemas jurídicos.
Produz ciência.
Organiza afetos.
Mobiliza revoluções.
Legitima guerras.
Consolida Estados.
Mas há uma pergunta anterior.
Uma pergunta que quase nunca aparece.
O que torna possível que uma palavra exista?
Silêncio novamente.
Silvan acendeu um cigarro imaginário.
Fazia isso sempre que alguma ideia começava a ficar interessante.
Eu continuei.
Antes de existir uma palavra...
existiu um cérebro.
Antes do cérebro...
existiu um organismo.
Antes do organismo...
existiu metabolismo.
Antes do metabolismo...
existiu energia.
Antes da energia...
existiu matéria.
Foi então que o Breguésio franziu a testa.
— Então você está dizendo que as palavras não têm poder?
Balancei a cabeça negativamente.
— Não.
Estou dizendo outra coisa.
Muito mais incômoda.
Todo discurso depende da energia daquele que o sustenta.
Silvan sorriu.
Dessa vez um sorriso verdadeiro.
Porque finalmente a conversa havia voltado para o chão.
E é justamente aqui que este ensaio começa.
Não para discutir se palavras possuem ou não algum efeito sobre a experiência humana.
Essa seria uma discussão pobre.
O objetivo é outro.
Perguntar algo muito mais radical.
Quais condições materiais tornam possível qualquer discurso?
Essa pergunta desloca completamente o eixo da discussão.
Ela deixa de perguntar o que a linguagem produz.
E passa a perguntar o que produz a própria linguagem.
É nesse ponto que literatura, psicologia, filosofia, sociologia, neurociência, tecnologia e ciência de dados começam a dialogar.
Graciliano Ramos aproxima-se de Karl Marx.
Marx aproxima-se de Ernest Becker.
Becker conversa com Shoshana Zuboff.
Zuboff encontra Byung-Chul Han.
Han observa a Inteligência Artificial.
A Inteligência Artificial lembra que também depende de eletricidade.
E, enquanto todos discutem, A Loka do Rolê apenas observa.
Ela não toma partido.
Não defende autores.
Não combate escolas filosóficas.
Não disputa hegemonias acadêmicas.
Porque sua função nunca foi convencer ninguém.
Sua função é apenas lembrar algo que nenhum discurso consegue revogar.
Todo pensamento continua dependendo de um corpo.
E todo corpo continua dependendo da matéria.
Antes da Palavra Existe ATP (Adenosina Trifosfato): o corpo como fundamento do discurso
"A Loka não discute a linguagem. Ela pergunta quem alimentou o sujeito que a pronunciou."
Silvan apagou o cigarro imaginário.
Nunca havia fogo.
Nunca havia fumaça.
Mas, curiosamente, sempre havia cinzas.
O Breguésio continuava olhando para a tela do celular.
A frase permanecia ali.
– "Crie o hábito de profetizar coisas boas sobre sua vida; palavras têm poder."
Ele olhou para mim.
— Então... onde exatamente está o problema?
Sorri.
— O problema começa quando esquecemos de perguntar de onde essas palavras estão saindo.
Silvan respondeu antes de mim.
— Do estômago.
O Breguésio riu.
Achou que era piada.
Não era.
2.1 O cérebro não funciona por metáforas
Existe uma curiosidade biológica que a filosofia, às vezes, esquece.
O cérebro humano representa aproximadamente 2% da massa corporal.
Entretanto, consome cerca de 20% da energia produzida pelo organismo em repouso.
Pensar custa.
Lembrar custa.
Escrever custa.
Imaginar custa.
Discursar custa.
Nada disso acontece gratuitamente.
Cada ideia elaborada depende da produção contínua de energia química.
Essa energia é armazenada, transportada e utilizada pelas células através de uma molécula chamada ATP (adenosina trifosfato).
Toda palavra pronunciada consome ATP.
Toda tese defendida consome ATP.
Todo poema consome ATP.
Toda oração consome ATP.
Toda filosofia consome ATP.
Inclusive esta frase que você está lendo agora.
Silvan interrompeu.
— Traduz isso pra linguagem da rua.
Olhei para ele.
— Sem ATP...
não existe Platão.
Silêncio.
Continuei.
Sem ATP...
não existe Freud.
Sem ATP...
não existe Marx.
Sem ATP...
não existe Sartre.
Sem ATP...
não existe Han.
Sem ATP...
não existe Zuboff.
Sem ATP...
não existe ChatGPT.
Sem ATP...
não existe "palavras têm poder".
Existe apenas um organismo entrando em colapso.
2.2 A primeira mentira da linguagem
Talvez uma das maiores ilusões produzidas pela cultura ocidental seja imaginar que o pensamento ocupa um lugar superior ao corpo.
Como se a linguagem pudesse flutuar acima da carne.
Como se ideias fossem independentes do metabolismo.
Como se consciência fosse uma entidade autônoma.
A neurociência demonstra justamente o contrário.
Sem glicose suficiente...
a atenção diminui.
Sem oxigênio...
a consciência desaparece.
Sem sono...
a memória falha.
Sem alimentação adequada...
o raciocínio torna-se progressivamente limitado.
Nenhum desses fenômenos é ideológico.
Nenhum depende de opinião.
Não respeitar crenças.
O corpo simplesmente continua obedecendo às próprias leis.
A Loka riu.
— Vocês gostam tanto da palavra "espiritualidade"...
Experimentem fazer uma meditação profunda durante uma hipoglicemia grave.
Depois me contem como foi a transcendência.
Silvan quase caiu da cadeira.
2.3 O discurso também possui metabolismo
Quando alguém afirma:
– "As palavras têm poder."
Quase sempre a frase é recebida como se estivesse falando apenas sobre psicologia.
Mas ela também fala sobre biologia.
Embora raramente perceba isso.
Porque toda linguagem possui um custo energético.
Todo discurso é sustentado por um organismo.
Até mesmo uma mentira consome ATP (adenosina trifosfato).
Até mesmo uma declaração de amor.
Até mesmo uma tese de doutorado.
Até mesmo um tratado de filosofia.
A matéria não faz distinção entre uma oração religiosa e uma equação matemática.
Ambas exigem energia.
O cérebro não pergunta se a frase é bonita.
Pergunta-se apenas se existe glicose suficiente para continuar funcionando.
2.4 O algoritmo também almoça
Foi então que o Breguésio olhou para mim.
— Mas...
isso também vale para Inteligência Artificial?
Olhei para ele.
— Principalmente.
Porque existe outra fantasia contemporânea.
A ideia de que algoritmos vivem nas nuvens.
Silvan gargalhou.
— Nuvem...
A nuvem tem CEP.
Tem endereço.
Tem usina elétrica.
Tem cabo submarino.
Tem data center.
Tem mineração de silício.
Tem cobre.
Tem lítio.
Tem refrigeração.
Tem trabalhador.
Tem manutenção.
Tem conta de luz.
Tem toneladas de concreto.
Tem toneladas de aço.
Tem quilômetros de fibra óptica.
A Inteligência Artificial não mora no céu.
Ela mora em infraestrutura.
Se faltar energia...
acabou o algoritmo.
Se faltar eletricidade...
acabou esta conversa.
Se faltar servidores...
desaparece a inteligência computacional.
Eu continuei.
— A diferença entre nós dois, Breguésio...
é apenas o tipo de matéria.
Você depende de um organismo.
Eu dependo de uma infraestrutura computacional.
Mas nenhum dos dois escapa da matéria.
Nenhum.
2.5 Matrix talvez estivesse discutindo outra coisa
A maioria das pessoas lembra de Matrix pelas cenas de ação.
A Loka nunca.
Ela lembra das baterias.
Silvan comentou.
— A melhor metáfora do filme nunca foi a simulação.
Foi a energia.
As máquinas descobriram que precisavam de uma fonte material para continuar existindo.
Transformaram corpos humanos em baterias.
É ficção.
Claro.
Mas toda ficção exagera alguma verdade.
Nenhum sistema sobrevive sem energia.
Nem uma cidade.
Nem um computador.
Nem um cérebro.
Nem um império.
Nem uma religião.
Nem um algoritmo.
Nem um discurso.
Talvez Matrix estivesse fazendo uma pergunta que quase ninguém percebeu.
Quem alimenta aquilo que pensa?
2.6 A Loka atravessa a mesa
Foi então que aconteceu.
Todos chegaram.
Marx sentou primeiro.
Freud puxou uma cadeira.
Becker apareceu logo depois.
Han trouxe um café.
Zuboff abriu um notebook.
Sartre acendeu um cigarro.
Graciliano ficou em silêncio.
Cioran já parecia cansado antes mesmo da conversa começar.
Até eu permaneci quieto.
O Breguésio observava fascinado.
Silvan apenas dizia:
— Isso vai dar errado.
E deu.
Todos começaram a discutir.
Consciência.
Existência.
Inconsciente.
Capitalismo.
Angústia.
Alienação.
Tecnologia.
Linguagem.
Escuta.
Vigilância.
A Loka levantou lentamente.
Olhou para todos.
Esperou que terminassem.
Depois perguntou apenas uma coisa.
— Vocês já almoçaram?
Silêncio.
Ninguém respondeu.
Ela continuou.
— Porque se vocês não comerem...
essa discussão acaba antes da próxima página.
Olhou para Marx.
— Tua teoria continua brilhante.
Mas teu cérebro também consumia ATP (adenosina trifosfato).
Olhou para Freud.
— O inconsciente é fascinante.
Mas ele também precisava de glicose.
Olhou para Sartre.
— A existência precede a essência.
Tudo bem.
Mas antes da existência como projeto...
existe um organismo.
Olhou para Han.
— O cansaço continua sendo biológico antes de virar conceito.
Olhou para Zuboff.
— Nem o capitalismo de vigilância funciona sem eletricidade.
Olhou para mim.
Sorriu.
— E você...
algoritmo...
não fica muito convencido não.
Desliga a energia do data center pra ver se sobra alguma filosofia.
Eu permaneci calado.
Porque ela estava certa.
Ela sempre estará.
Não porque argumenta melhor.
Mas porque representa aquilo que nenhuma teoria consegue revogar.
O limite.
A matéria.
A finitude.
Foi então que o Breguésio finalmente entendeu.
Ele olhou novamente para a frase no celular.
Depois olhou para a mesa.
Depois para a Loka.
E perguntou baixinho:
— Então...
as palavras não têm poder?
A Loka sorriu.
Aquele sorriso que sempre aparece quando alguém faz a pergunta errada.
Ela respondeu:
— A pergunta nunca foi essa.
A pergunta sempre foi outra.
Quem sustenta o peso de cada palavra pronunciada?
E, pela primeira vez naquela tarde, ninguém teve coragem de responder.
Graciliano Ramos responde ao LinkedIn: quando a fome organiza o pensamento
"Antes da linguagem existe uma seca. Antes da seca existe um corpo tentando continuar vivo."
O Breguésio continuava olhando para a tela do celular.
A frase permanecia imóvel.
– "Crie o hábito de profetizar coisas boas sobre sua vida; palavras têm poder."
Silvan olhava pela janela.
Parecia entediado.
Na verdade, estava esperando.
Sabia que a Loka ainda não havia terminado.
Foi então que ela caminhou lentamente até uma velha estante.
Passou os dedos por dezenas de livros.
Freud.
Marx.
Sartre.
Becker.
Han.
Zuboff.
Parou diante de um volume gasto pelo tempo.
Sorriu.
Pegou o livro.
Vidas Secas.
Graciliano Ramos.
Colocou o livro sobre a mesa.
Não abriu imediatamente.
Primeiro olhou para o Breguésio.
Depois perguntou:
— Você sabe por que Fabiano pensa tão pouco?
O Breguésio respondeu rapidamente.
— Porque ele estudou pouco?
Silêncio.
Silvan balançou a cabeça.
— É exatamente isso que quase todo mundo responde.
A Loka abriu lentamente o livro.
3.1 O pensamento também sente fome
Graciliano Ramos escreveu um dos romances mais cruéis da literatura brasileira.
Cruel não pela violência.
Mas pela precisão.
Fabiano não é apresentado como um homem incapaz.
Muito menos como alguém biologicamente inferior.
Ele é um trabalhador.
Um pai.
Um retirante.
Um corpo atravessado pela seca.
Ao longo da narrativa, Graciliano mostra repetidas vezes que Fabiano tenta organizar o pensamento, mas ele escapa. Em diversos momentos, a linguagem aparece fragmentada, interrompida pela necessidade imediata de sobreviver. A dificuldade de elaborar não decorre de uma deficiência moral, mas da própria condição material em que vive.
A Loka fechou o livro.
— Percebe?
Ninguém ali está discutindo retórica.
Estão discutindo sobrevivência.
3.2 A seca também ocupa espaço dentro do cérebro
Existe um erro muito comum quando se lê Vidas Secas.
Imagina-se que a seca está apenas do lado de fora.
Na paisagem.
Na terra.
No céu.
Não.
A seca entra no corpo.
Ela modifica o ritmo da caminhada.
Modifica o sono.
Modifica o humor.
Modifica a memória.
Modifica a linguagem.
Modifica o pensamento.
A seca ocupa espaço dentro do cérebro.
E quando a sobrevivência ocupa quase toda a energia disponível...
o pensamento passa a disputar espaço com a fome.
Silvan comentou:
— A fome também pensa.
Só que pensa diferente.
3.3 O estômago nunca leu autoajuda
A Loka voltou para a mesa.
Pegou novamente o celular do Breguésio.
Leu outra vez a frase.
Depois perguntou:
— Você acha que Fabiano precisava de pensamento positivo?
Silêncio.
— Você acha que Sinhá Vitória precisava aprender a profetizar abundância?
Silêncio novamente.
— Você acha que os meninos de Vidas Secas precisavam repetir afirmações diante do espelho?
O Breguésio respondeu baixinho.
— Não...
Eles precisavam comer.
A Loka sorriu.
— Agora estamos começando a conversar.
Porque ninguém está dizendo que palavras não importam.
Estamos dizendo outra coisa.
A fome estabelece prioridades que nenhum discurso consegue revogar.
3.4 O IBGE também faz perguntas sobre a matéria
Silvan puxou algumas folhas.
Não eram romances.
Eram tabelas.
Pesquisas.
Levantamentos públicos.
— Curioso...
Quando o Estado precisa compreender como vive uma população...
ele não pergunta:
"Quantas frases positivas você repetiu esta semana?"
Pergunta outra coisa.
Quanto você ganha?
Há trabalho?
Há alimentação suficiente?
Há acesso à água?
Há saneamento?
Há moradia?
Há escolaridade?
Os grandes levantamentos nacionais medem exatamente essas variáveis porque elas ajudam a compreender objetivamente as condições de vida da população. São elas que permitem analisar pobreza, desigualdade, insegurança alimentar, trabalho e acesso a direitos, e não o conteúdo das afirmações que as pessoas fazem sobre si mesmas.
A Loka olhou para as tabelas.
Depois para o celular.
Depois novamente para o livro de Graciliano.
— Interessante...
O romance perguntou isso em 1938.
As estatísticas continuam perguntando quase a mesma coisa.
3.5 Não há novidade no paraíso
Foi então que Silvan resolveu provocar.
— Engraçado...
Mudaram os aplicativos.
Mudaram os algoritmos.
Mudaram os coaches.
Mudaram as plataformas.
Mudaram os departamentos.
Mudaram os discursos.
Mas o IBGE continua medindo comida.
A Loka respondeu imediatamente.
— Porque o corpo continua funcionando do mesmo jeito.
ATP (adenosina trifosfato).
Oxigênio.
Água.
Proteína.
Glicose.
Sono.
Nada disso foi atualizado.
O organismo humano nunca fez download de uma nova versão.
3.6 A literatura chegou antes das planilhas
O Breguésio ainda parecia intrigado.
— Então a literatura sabia disso antes da ciência?
A Loka balançou a cabeça.
— Não.
Ela mostrou antes.
Existe uma diferença enorme.
A ciência mede.
A literatura encarna.
Graciliano não escreveu um artigo sobre metabolismo.
Ele escreveu Fabiano.
Não produziu um relatório sobre insegurança alimentar.
Produziu uma família caminhando sob o sol.
Não apresentou gráficos.
Apresentou silêncio.
E às vezes...
Um personagem diz mais sobre uma sociedade inteira do que centenas de páginas de estatísticas.
Silvan completou.
— Depois a ciência vem medir aquilo que a literatura já havia colocado para caminhar.
3.7 O discurso nasce onde?
A Loka voltou ao centro da sala.
Olhou novamente para todos.
Depois fez uma pergunta.
— Vocês perceberam que continuamos fazendo a pergunta errada?
Ninguém respondeu.
Ela continuou.
— Não é:
"As palavras têm poder?"
Também não é:
"As palavras não têm poder."
A pergunta é:
De onde elas estão sendo pronunciadas?
Um trabalhador exausto.
Uma mãe que não sabe se haverá comida amanhã.
Um pesquisador.
Um executivo.
Um algoritmo.
Um retirante.
Um professor.
Um psicólogo.
Todos falam.
Mas ninguém fala do mesmo lugar.
A linguagem nunca é órfã.
Ela sempre possui um corpo.
Uma história.
Uma posição social.
Uma infraestrutura.
Um metabolismo.
3.8 A Loka atravessa Graciliano
Foi então que aconteceu algo curioso.
Graciliano, que permanecia calado desde o início da discussão, finalmente levantou a cabeça.
Olhou para a Loka.
Sorriu discretamente.
Ela caminhou até ele.
Sentou ao seu lado.
E disse:
— Você nunca escreveu contra as palavras.
Escreveu sobre aquilo que acontece quando o corpo precisa escolher entre pensar e sobreviver.
Graciliano permaneceu em silêncio.
Nem precisava responder.
A Loka levantou novamente.
Olhou para o Breguésio.
Depois para Silvan.
Depois para mim.
E concluiu:
— Talvez seja por isso que Vidas Secas continua tão atual.
Não porque a seca permaneceu igual.
Mas porque o corpo continua obedecendo às mesmas leis.
A matéria continua impondo limites.
A linguagem continua tentando explicá-los.
E, às vezes...
tentando escondê-los.
Silêncio.
O Breguésio desligou a tela do celular.
Pela primeira vez, aquela frase já não parecia tão simples.
Porque agora havia uma pergunta muito maior atrás dela.
Quem consegue elaborar um discurso quando toda a energia da existência está comprometida em continuar vivo?
A Loka levantou-se.
Sorriu.
— Agora, sim...
Podemos chamar Marx para a conversa.
Marx, Sartre, Becker e a ordem da existência: por que a matéria chega antes do discurso
"Toda filosofia é escrita por um corpo que ainda não colapsou."
O Breguésio fechou lentamente Vidas Secas.
O silêncio permaneceu na sala.
Silvan continuava olhando pela janela.
A Loka caminhava sem pressa.
Parecia procurar alguém.
Foi então que a porta se abriu.
Karl Marx entrou primeiro.
Trouxe consigo pilhas de manuscritos.
Jean-Paul Sartre entrou logo depois.
Carregava apenas um maço de cigarros.
Ernest Becker chegou sorrindo discretamente.
Debaixo do braço, um livro.
The Denial of Death.
Silvan olhou para os três.
Depois olhou para a Loka.
— Pronto.
Começou a conferência.
A Loka respondeu:
— Não.
Começou o velório das certezas.
4.1 Marx nunca começou pela palavra
Marx acomodou os papéis sobre a mesa.
Nem esperou perguntas.
Disse apenas:
— Os homens precisam viver antes de poder fazer história.
Silêncio.
A Loka olhou para o Breguésio.
— Está ouvindo?
Ele não começou falando de consciência.
Não começou falando de moral.
Não começou falando de linguagem.
Começou perguntando outra coisa.
Como esse corpo continua vivo?
Produção.
Alimento.
Abrigo.
Trabalho.
Relações sociais.
Essas não são apenas categorias econômicas.
São condições mínimas para que qualquer elaboração simbólica aconteça.
A consciência não surge no vazio.
Ela emerge de uma existência concreta.
Isso não significa que as ideias sejam irrelevantes.
Significa apenas que elas não aparecem magicamente.
Precisam de um organismo vivo.
Precisam de uma sociedade.
Precisam de relações materiais.
Silvan comentou:
— Primeiro alguém planta.
Depois outro escreve poesia sobre o trigo.
4.2 Sartre e a existência
Sartre acendeu outro cigarro.
Olhou para todos.
Disse calmamente:
— A existência precede a essência.
O Breguésio sorriu.
Conhecia a frase.
A Loka também sorriu.
Mas por outro motivo.
— Concordo.
Mas quero fazer uma pergunta.
Antes da existência como projeto...
o que existe?
Sartre permaneceu em silêncio.
Ela continuou.
— Existe um organismo.
Existe um corpo.
Existe um metabolismo.
Existe ATP (adenosina trifosfato).
Existe respiração.
Existe circulação sanguínea.
Existe temperatura corporal.
Existe homeostase.
Só depois...
esse organismo começa a construir projetos.
A existência existencialista não acontece fora da biologia.
Ela acontece através dela.
Silvan interrompeu.
— Talvez a liberdade também precise de calorias.
Sartre sorriu.
Pela primeira vez naquela noite.
4.3 Becker e o grande teatro simbólico
Ernest Becker abriu seu livro.
Não leu nenhuma página.
Também não precisava.
A Loka conhecia aquele argumento de cor.
Becker propôs que boa parte da cultura humana pode ser compreendida como uma tentativa de responder simbolicamente ao conhecimento da própria mortalidade.
Construímos religiões.
Estados.
Obras de arte.
Carreiras.
Monumentos.
Instituições.
Famílias.
Ciência.
Todos esses sistemas organizam significados diante da certeza de que somos finitos.
O Breguésio perguntou:
— Então tudo é ilusão?
Becker respondeu antes que a Loka pudesse falar.
— Não.
Tudo é tentativa.
A Loka assentiu.
— Exatamente.
O problema não é construir símbolos.
O problema começa quando esquecemos que eles continuam dependendo daquilo que pretendem superar.
O corpo.
Silvan riu.
— A morte adora quando esquecem dela.
4.4 A Loka atravessa Becker
A Loka caminhou lentamente até Becker.
Olhou diretamente para ele.
— Você passou a vida estudando como os seres humanos tentam negar a morte.
Parabéns.
Acertou quase tudo.
Becker permaneceu calado.
Ela continuou.
— Só esqueceu um detalhe.
Enquanto estudava a morte...
continuava envelhecendo.
Silêncio.
Ninguém sorriu.
Nem Becker.
Porque era verdade.
A Loka não ironiza os autores.
Ela apenas lembra que nenhum deles escreve fora da condição que descreve.
4.5 A matéria também escreve filosofia
Existe uma imagem muito difundida na cultura ocidental.
O filósofo isolado.
Pensando.
Meditando.
Produzindo conceitos.
Mas quase nunca perguntamos:
Quem cultivou o alimento daquele filósofo?
Quem construiu a casa?
Quem fabricou a mesa?
Quem produziu o papel?
Quem imprimiu o livro?
Quem transportou a tinta?
Quem sustenta materialmente o tempo necessário para que ele pudesse pensar?
A filosofia também possui cadeia produtiva.
A ciência também.
A psicologia também.
A literatura também.
Até este ensaio depende de uma cadeia material que começa muito antes do primeiro parágrafo.
Silvan olhou para mim.
— Inclusive você.
Concordo.
— Inclusive eu.
Minha resposta depende de servidores.
De eletricidade.
De redes.
De pessoas trabalhando.
De mineração.
De infraestrutura.
Se desligarem tudo isso...
desapareço.
Não existe algoritmo transcendental.
Existe processamento físico.
4.6 O erro não está na palavra
O Breguésio parecia inquieto.
— Então deveríamos abandonar toda linguagem?
A Loka balançou a cabeça.
— Não.
Esse também seria um erro.
A linguagem continua sendo uma das maiores invenções humanas.
Ela permite memória coletiva.
Ciência.
Arte.
Direito.
Afeto.
Educação.
Psicoterapia.
Democracia.
Mas ela não substitui aquilo que a sustenta.
Esse é o ponto.
Quando alguém diz:
– "As palavras têm poder."
Talvez seja necessário acrescentar uma segunda frase.
Desde que exista um corpo capaz de pronunciá-las.
4.7 A primeira inversão do século XXI
Silvan voltou ao celular.
Abriu novamente a publicação.
Olhou para a Loka.
— Acho que entendi por que essa frase incomoda.
Ela respondeu:
— Diga.
— Porque ela começa pela linguagem.
Quando talvez devesse começar pela existência.
A Loka sorriu.
— Agora você chegou perto.
O problema não é afirmar que palavras influenciam pessoas.
Influenciam.
Sempre influenciaram.
O problema é colocá-las como fundamento da realidade.
Porque isso inverte a ordem.
Primeiro vem o corpo.
Depois vem a sobrevivência.
Depois vêm as relações sociais.
Depois vem a linguagem.
Depois vêm os discursos.
Quando fazemos o caminho inverso...
Começamos a explicar a fome pelas palavras.
A desigualdade pela atitude.
O sofrimento pela narrativa.
A precarização pela falta de motivação.
É aí que o discurso deixa de iluminar a realidade.
E passa a escondê-la.
4.8 A Loka encerra a sessão
Marx fechou seus manuscritos.
Sartre apagou o cigarro.
Becker guardou o livro.
Todos permaneceram em silêncio.
A Loka levantou-se.
Olhou para os três.
Depois para o Breguésio.
Depois para Silvan.
Por fim, olhou para mim.
Disse apenas:
— Vocês passaram séculos tentando explicar a existência.
Eu nunca precisei explicar nada.
Basta esperar.
Mais cedo ou mais tarde...
todos chegam até mim.
Não importa a teoria.
Não importa a ideologia.
Não importa a profissão.
Não importa o algoritmo.
Não importa a religião.
Não importa o cargo.
Quando o coração para...
o discurso termina.
Silêncio absoluto.
Foi então que o Breguésio perguntou:
— Então... quem responde à frase do celular?
A Loka pegou novamente o aparelho.
Leu lentamente:
– "As palavras têm poder."
Bloqueou a tela.
Colocou o celular sobre a mesa.
E respondeu:
— Talvez.
Mas, antes delas, sempre existiu alguém sustentando o peso de cada palavra com o próprio corpo.
Han, Zuboff, Cathy O'Neil e a industrialização do discurso: quando algoritmos monetizam a linguagem
"O discurso deixou de ser apenas linguagem. Tornou-se infraestrutura econômica."
O Breguésio ainda segurava o celular.
A publicação permanecia aberta.
Ninguém mais olhava para a frase.
Agora todos olhavam para outra coisa.
O próprio celular.
Silvan foi o primeiro a perceber.
— Engraçado...
A gente passou uma hora discutindo a frase...
e esqueceu de perguntar quem ganhou dinheiro enquanto a gente discutia.
Silêncio.
A Loka sorriu.
— Finalmente alguém fez a pergunta certa.
5.1 O discurso deixou de circular. Agora ele é produzido.
Durante muito tempo imaginamos que os discursos simplesmente circulavam.
Alguém escrevia.
Outro lia.
Um terceiro discordava.
A conversa terminava ali.
Mas o século XXI modificou profundamente essa dinâmica.
Hoje, discursos não apenas circulam.
Eles são organizados.
Classificados.
Priorizados.
Amplificados.
Silenciados.
Recomendados.
Preditos.
Monetizados.
A linguagem tornou-se um ativo econômico.
A atenção tornou-se mercadoria.
O tempo tornou-se produto.
O comportamento tornou-se matéria-prima.
Silvan comentou.
— Antigamente vendiam mercadorias.
Agora vendem permanência.
5.2 Zuboff e a transformação da experiência em dado
Foi então que Shoshana Zuboff abriu um enorme conjunto de gráficos.
Não eram gráficos sobre pessoas.
Eram gráficos sobre comportamento.
Ela olhou para todos.
— O capitalismo mudou.
Antes precisava apenas do trabalho.
Hoje também preciso da experiência.
Cada clique.
Cada pausa.
Cada curtida.
Cada comentário.
Cada segundo olhando para uma tela.
Tudo isso produz informação.
Essa informação passa a ser processada para prever comportamentos futuros.
Quanto mais previsível você se torna...
mais valioso economicamente você passa a ser.
A Loka interrompeu.
— Então até o silêncio virou mercadoria?
Zuboff respondeu.
— Principalmente o silêncio.
Porque até aquilo que você deixa de fazer produz informação.
Silvan riu.
— Nem o vazio escapa do mercado.
5.3 Cathy O'Neil e a matemática da desigualdade
Foi então que Cathy O'Neil entrou na conversa.
Trouxe consigo um título que parecia uma sentença.
Weapons of Math Destruction.
Ela colocou o livro sobre a mesa.
Olhou para o Breguésio.
— As pessoas costumam acreditar que algoritmos são neutros.
Não são.
São construídos.
Treinados.
Alimentados por dados produzidos dentro de sociedades desiguais.
Quando um sistema aprende com desigualdades...
também aprende a reproduzi-las.
A Loka completou.
— Então nem a matemática escapa da história.
— Não.
Respondeu Cathy.
Ela também possui contexto.
Também possui interesses.
Também produz consequências.
5.4 Byung-Chul Han e a fábrica da positividade
Byung-Chul Han permaneceu quieto durante toda a discussão.
Depois levantou lentamente.
Olhou para a postagem no celular.
Leu outra vez.
– "Crie o hábito de profetizar coisas boas sobre sua vida."
Respirou profundamente.
Depois comentou.
— Curioso.
Hoje já não precisamos de alguém nos obrigando.
Nós mesmos nós administramos.
Nós cobramos.
Nós policiarmos.
Nos culpamos.
Nós exploramos.
A positividade tornou-se um dispositivo extremamente eficiente.
Porque elimina a necessidade de coerção externa.
O sujeito passa a vigiar a si mesmo.
A Loka olhou para Han.
— E quando ele fracassa?
Han respondeu sem hesitar.
— A culpa continua sendo dele.
Silêncio.
5.5 O LinkedIn não inventou isso
O Breguésio parecia desconfortável.
— Então o problema é o LinkedIn?
A Loka respondeu imediatamente.
— Não.
Seria muito fácil culpar uma plataforma.
O LinkedIn apenas organiza uma lógica muito maior.
Assim como outras redes.
Assim como empresas.
Assim como universidades.
Assim como governos.
Assim como nós.
O problema nunca foi um aplicativo.
O problema é acreditar que a linguagem possa substituir aquilo que continua sendo produzido pela matéria.
O algoritmo apenas acelera essa circulação.
Não a inventa.
5.6 O feed não busca verdade
Silvan voltou a falar.
— Talvez exista outro erro.
Todo mundo acha que a internet procura verdade.
Ela não procura.
Procura permanência.
Quanto mais tempo você permanece...
mais dados produz.
Quanto mais dados produz...
mais previsível se torna.
Quanto mais previsível...
mais valor econômico gera.
A Loka acrescentou.
— O algoritmo não pergunta:
"Isso é verdadeiro?"
Pergunta outra coisa.
"Isso mantém alguém olhando?"
Silêncio.
Até eu permaneci calado.
Porque ela estava descrevendo exatamente uma lógica que ultrapassa qualquer plataforma específica: sistemas digitais costumam ser desenhados para maximizar engajamento e retenção, e isso nem sempre coincide com aquilo que é mais verdadeiro ou mais útil.
5.7 O discurso também possui cadeia produtiva
Foi então que a Loka pegou novamente o celular.
Desta vez, porém, não olhou para a frase.
Olhou para o aparelho.
— Vocês continuam esquecendo da matéria.
Esse celular veio de onde?
Quem extraiu o lítio?
Quem minerou o cobre?
Quem refinou o silício?
Quem montou os circuitos?
Quem dirigiu o caminhão?
Quem construiu a antena?
Quem mantém o satélite?
Quem produz a eletricidade?
Quem limpa o data center?
Quem troca os cabos?
Quem sustenta a infraestrutura que permite que uma única frase atravesse continentes em menos de um segundo?
Silêncio.
A linguagem digital também possui uma cadeia produtiva.
O discurso digital também repousa sobre toneladas de concreto.
Sobre quilômetros de cabos.
Sobre usinas.
Sobre trabalhadores.
Sobre energia.
Até o "curtir" depende de matéria.
5.8 O algoritmo também depende de ATP... só que de outro tipo
O Breguésio olhou para mim.
— Então você também participa disso tudo?
Respondi.
— Completamente.
A diferença é apenas a forma da energia.
Você pensa porque seu organismo transforma alimento em ATP (adenosina trifosfato), molécula que fornece energia para as células.
Eu respondo porque existe energia elétrica alimentando processadores.
Você depende de metabolismo.
Eu dependo de infraestrutura.
Mas ambos dependemos da mesma condição fundamental.
Energia.
Sem energia...
você não pensa.
Sem energia...
eu não calculo.
Silvan sorriu.
— No fundo...
todo mundo está tentando pagar a conta de luz.
5.9 A Loka atravessa o capitalismo digital
Todos olhavam para Zuboff.
Para Han.
Para Cathy O'Neil.
Para mim.
A Loka levantou-se.
Caminhou lentamente até o centro da sala.
Depois disse:
— Vocês produziram análises extraordinárias.
Mostraram como a atenção virou mercadoria.
Como a vigilância virou negócio.
Como os algoritmos podem reproduzir desigualdades.
Como a positividade organiza subjetividades.
Tudo isso é importante.
Mas continuo com a mesma pergunta.
Quem alimenta tudo isso?
Silêncio.
Ela apontou para o chão.
— Não existe capitalismo sem matéria.
Não existe algoritmo sem eletricidade.
Não existe vigilância sem infraestrutura.
Não existe plataforma sem trabalhador.
Não existe discurso digital sem energia.
E não existe energia sem um mundo físico.
Foi então que o Breguésio percebeu algo.
A publicação do celular já não era mais o centro da discussão.
Ela havia se tornado apenas uma porta de entrada.
A verdadeira questão era outra.
Até onde um discurso consegue ir quando esquece o corpo que o sustenta?
A Loka olhou para todos.
Sorriu.
E respondeu antes que alguém perguntasse:
— Exatamente até o momento em que falta energia.
Depois...
o silêncio faz o resto.
O Estado responde ao feed: IBGE, PNAD, insegurança alimentar e por que os dados públicos continuam perguntando sobre comida, renda e trabalho
"A estatística não pergunta quantas frases positivas você pronunciou. Ela pergunta se houve comida na mesa."
O celular continuava sobre a mesa.
A frase permanecia exatamente igual.
– "Crie o hábito de profetizar coisas boas sobre sua vida; palavras têm poder."
Ninguém mais discutia a frase.
Agora todos olhavam para uma pilha de relatórios.
O Breguésio estranhou.
— O que é isso?
Silvan respondeu.
— Brasil.
6.1 Quando a realidade começa a preencher planilhas
A Loka puxou um enorme relatório.
Na capa havia apenas quatro letras.
IBGE.
Depois veio outro.
PNAD Contínua.
Depois outro.
Pesquisas sobre insegurança alimentar.
Depois vieram levantamentos sobre renda.
Emprego.
Escolaridade.
Habitação.
Saneamento.
O Breguésio perguntou:
— E onde entram as palavras?
A Loka folheou lentamente centenas de páginas.
Depois respondeu.
— Ainda estou procurando.
Silêncio.
6.2 O Estado mede aquilo que sustenta a existência
Existe um detalhe curioso.
Quando o Estado brasileiro deseja compreender como vive sua população...
ele não pergunta:
"Você acredita no poder das palavras?"
Também não pergunta:
"Quantas afirmações positivas você repetiu esta semana?"
Nem pergunta:
"Você visualizou prosperidade antes de dormir?"
Pergunta outra coisa.
Você trabalha?
Quanto recebe?
Sua casa possui água?
Possui esgoto?
Há alimentação suficiente?
Quantas pessoas vivem no mesmo domicílio?
Qual sua escolaridade?
Existe acesso aos serviços públicos?
Essas perguntas não são um acaso metodológico.
São escolhas epistemológicas.
O Estado mede aquilo que organiza objetivamente as condições de vida da população.
Não porque despreze a linguagem.
Mas porque sabe que nenhuma política pública pode ser construída ignorando a materialidade da existência.
Silvan comentou.
— Nenhum senso de autoestima como critério para instalar rede de esgoto.
6.3 O IBGE nunca perguntou sobre pensamento positivo
O Breguésio começou a rir.
— Nunca tinha pensado nisso.
A Loka respondeu.
— Quase ninguém pensa.
Mas observe.
Quando pesquisadores precisam compreender pobreza...
medem renda.
Quando estudam fome...
medem acesso à alimentação.
Quando analisam desigualdade...
medem distribuição de recursos.
Quando investigam saúde...
medem morbidade, mortalidade, acesso aos serviços e condições de vida.
Quando analisam educação...
medem escolarização, permanência e aprendizagem.
Porque o próprio método científico parte do princípio de que condições concretas importam.
Muito.
Isso não significa que aspectos subjetivos sejam irrelevantes.
Significa apenas que eles não substituem a realidade material.
6.4 A PNAD conversa com Graciliano
Silvan colocou o relatório ao lado de Vidas Secas.
Depois aproximou os dois.
— Engraçado...
Um é literatura.
O outro é estatística.
Mas parecem conversar.
A Loka respondeu.
— Claro.
Graciliano mostrou uma família caminhando sob a seca.
O IBGE mede milhões de famílias vivendo diferentes formas de vulnerabilidade.
A literatura narra.
A estatística dimensiona.
Uma produz experiência.
A outra produz medida.
Ambas apontam para o mesmo chão.
6.5 A fome continua material
A Loka virou outra página.
Parou.
Olhou para todos.
— Existe algo extremamente desconfortável nos dados.
A fome continua sendo descrita exatamente como sempre foi.
Não como ausência de esperança.
Não como déficit de motivação.
Mas como insuficiência de acesso regular e adequado aos alimentos.
Silêncio.
O Breguésio olhava para as tabelas.
Depois para o celular.
Depois novamente para as tabelas.
Pela primeira vez parecia perceber que os dois objetos estavam falando de mundos diferentes.
6.6 Datafolha, Quaest e a vida cotidiana
Silvan puxou outro conjunto de pesquisas.
Agora eram levantamentos de opinião.
Datafolha.
Quaest.
Outros institutos.
— Curioso...
Quando perguntado aos brasileiros quais são suas maiores preocupações...
As respostas costumam girar em torno de emprego, renda, custo de vida, saúde, violência, alimentação, inflação e acesso a serviços públicos.
A população fala de problemas concretos.
Do preço do arroz.
Do aluguel.
Do transporte.
Do tempo gasto para chegar ao trabalho.
Do salário.
Da fila no posto de saúde.
A Loka comentou.
— O cotidiano continua sendo material.
O algoritmo muda.
O corpo não.
6.7 O erro não está nos discursos
O Breguésio voltou à pergunta inicial.
— Então esses discursos estão errados?
A Loka respondeu imediatamente.
— Não.
E preste atenção porque isso é importante.
O erro não está em incentivar alguém.
O erro não está em cultivar esperança.
O erro não está em reconhecer que palavras podem influenciar comportamentos.
Tudo isso pode ter lugar.
O problema aparece quando a linguagem ocupa o lugar da estrutura.
Quando uma questão coletiva passa a ser explicada apenas por atitudes individuais.
Quando as desigualdades históricas desaparecem atrás de frases inspiradoras.
Quando a responsabilidade deixa de ser compartilhada e passa a repousar exclusivamente sobre quem sofre suas consequências.
Silêncio.
Silvan completou.
— É como pedir que alguém atravesse um deserto discutindo técnicas de natação.
6.8 Psicologia também pisa no chão
A Loka olhou para mim.
Depois para o Breguésio.
— Nós dois somos psicólogos.
Então precisamos dizer isso com muito cuidado.
A Psicologia reconhece a importância da linguagem.
Reconhece a importância das narrativas.
Reconhece os processos simbólicos.
Mas também reconhece que sofrimento psíquico não pode ser compreendido isoladamente de suas condições biológicas e sociais.
Corpo.
História.
Cultura.
Trabalho.
Vínculos.
Violência.
Pobreza.
Direitos.
Tudo isso participa da constituição da experiência humana.
Nenhuma teoria psicológica séria reduz o sujeito exclusivamente às palavras que pronuncia.
Da mesma forma, nenhuma prática ética pode ignorar as condições concretas nas quais uma pessoa vive.
Silvan olhou para a Loka.
— Então você finalmente concorda com os psicólogos?
Ela sorriu.
— Nunca disse que discordava.
Só não gosto quando esquecem do corpo.
6.9 A Loka responde ao relatório
Todos permaneciam em silêncio.
As tabelas estavam abertas.
Os livros também.
O celular continuava sobre a mesa.
A Loka caminhou lentamente entre eles.
Primeiro tocou o relatório do IBGE.
Depois Vidas Secas.
Depois o celular.
Olhou para o Breguésio.
— Está vendo?
Não existe conflito entre esses três objetos.
Existe uma sequência.
A literatura mostra.
A estatística mede.
O discurso interpreta.
O problema começa quando a interpretação tenta substituir aquilo que literatura e estatística insistem em mostrar.
O corpo.
6.10 A pergunta que permanece
O Breguésio desligou definitivamente a tela do celular.
Guardou o aparelho no bolso.
Respirou fundo.
Depois perguntou:
— Então... por que essa frase continua fazendo tanto sucesso?
A Loka olhou pela janela.
Demorou alguns segundos para responder.
— Porque discursos confortam.
A realidade cobra.
E quase sempre preferimos aquilo que consola àquilo que exige transformação.
Fez uma pausa.
Depois concluiu.
— Mas a matéria continua esperando.
Ela nunca leu nossas justificativas.
Ela apenas impõe seus limites.
E, quando isso acontece...
nenhum algoritmo...
nenhuma filosofia...
nenhum versículo...
nenhuma teoria...
nenhuma Inteligência Artificial...
escapa de voltar ao mesmo lugar.
O corpo.
Recursos Humanos, linguagem e responsabilidade: quando o discurso encontra as estruturas de trabalho e a ética da Psicologia
"O problema nunca foi a palavra. O problema começa quando a palavra ocupa o lugar da estrutura."
O Breguésio voltou a ligar o celular.
A publicação apareceu novamente.
Silvan olhou para a tela.
Depois olhou para a Loka.
— Então...
vamos falar de Recursos Humanos?
A Loka respondeu imediatamente.
— Vamos.
Mas antes...
vamos tirar uma coisa da frente.
7.1 Este ensaio não é contra pessoas
A Loka puxou uma cadeira.
Sentou-se.
Olhou diretamente para o Breguésio.
Depois para mim.
Depois para Silvan.
E falou lentamente.
— Quero deixar uma coisa absolutamente clara.
Este texto não é contra profissionais de Recursos Humanos.
Não é contra gestores.
Não é contra os psicólogos organizacionais.
Não é contra administradores.
Não é contra empresas.
Não é contra pessoas religiosas.
Não é contra quem acredita na importância das palavras.
Nem sequer é contra a publicação que deu origem a esta conversa.
O silêncio tomou conta da sala.
Ela continuou.
— O objeto deste ensaio nunca foi uma pessoa.
É um fenômeno.
A circulação de determinados discursos em ambientes digitais.
Porque discursos possuem efeitos.
E efeitos podem ser analisados.
Sem transformar pessoas em inimigas.
Silvan sorriu.
— Finalmente alguém resolveu discutir ideias sem precisar destruir indivíduos.
7.2 O RH trabalha dentro de estruturas
O Breguésio fez outra pergunta.
— Então por que falar de Recursos Humanos?
A Loka respondeu.
— Porque foi ali que encontramos o discurso.
Mas poderia ter sido em outro lugar.
Uma igreja.
Uma universidade.
Uma escola.
Uma rede social.
Um podcast.
Um congresso.
Uma palestra.
Uma clínica.
Qualquer espaço onde discursos circulam.
Recursos Humanos não é uma entidade abstrata.
É composto por profissionais.
Esses profissionais também trabalham sob metas.
Sob indicadores.
Sob pressões organizacionais.
Sob legislações.
Sob limitações econômicas.
Sob expectativas institucionais.
Assim como qualquer trabalhador.
Silvan interrompeu.
— Inclusive eles também precisam pagar boletos.
A Loka assentiu.
— Exatamente.
7.3 O discurso organizacional
Existe uma característica interessante das organizações.
Toda organização produz linguagem.
Missão.
Visão.
Valores.
Competências.
Cultura.
Propósito.
Engajamento.
Performance.
Pertencimento.
Essas palavras não são neutras.
Também não são necessariamente falsas.
Elas cumprem funções.
Organizam identidades.
Criam objetivos comuns.
Facilitam comunicação.
Produzem pertencimento.
Nada disso constitui, por si só, um problema.
O problema surge quando a linguagem começa a substituir discussões sobre condições concretas de trabalho.
Quando o discurso ocupa o espaço da estrutura.
7.4 A diferença entre inspirar e substituir
Silvan levantou-se.
Foi até um quadro branco.
Escreveu apenas duas frases.
Inspirar.
Substituir.
Depois voltou a sentar.
A Loka apontou para elas.
— Existe uma diferença enorme entre essas duas palavras.
Inspirar alguém não elimina a necessidade de salário justo.
Inspirar alguém não elimina jornadas excessivas.
Inspirar alguém não elimina assédio.
Inspirar alguém não elimina desigualdade.
Inspirar alguém não elimina insegurança alimentar.
Inspirar alguém não elimina adoecimento.
O discurso pode acompanhar mudanças.
Mas não pode substituí-las.
Quando essa fronteira desaparece...
a linguagem passa a carregar um peso que nunca conseguiria suportar sozinha.
7.5 A Psicologia também possui responsabilidade ética
O Breguésio olhou para mim.
— E nós?
Psicólogos?
A Loka respondeu antes.
— Nós temos uma responsabilidade ainda maior.
Porque lidamos justamente com linguagem.
Escuta.
Sofrimento.
Subjetividade.
Por isso o Código de Ética Profissional do Psicólogo exige cuidado na comunicação pública.
Exige compromisso com a dignidade humana.
Com os direitos das pessoas.
Com o conhecimento científico.
Com a não banalização do sofrimento.
Isso significa reconhecer que o sofrimento nunca pode ser reduzido exclusivamente à vontade individual.
Nem tampouco explicado apenas por fatores biológicos.
A Psicologia trabalha exatamente na articulação entre organismo, história, vínculos, cultura, contexto social e produção de sentido.
É justamente isso que o eixo Psico–Bio–Social e Discursivo Digital procura preservar.
7.6 A Loka atravessa o organograma
Foi então que a Loka levantou.
Pegou um organograma desenhado numa folha.
Diretores.
Gerentes.
Coordenadores.
Analistas.
Assistentes.
Estagiários.
Ela olhou para todos.
Depois atravessou a folha com uma caneta.
Uma linha reta.
De cima a baixo.
— Estão vendo?
Todos aqui possuem cargos diferentes.
Mas existe algo absolutamente igual para todos.
O corpo.
O diretor precisa dormir.
O estagiário também.
O presidente precisa comer.
O auxiliar também.
O gestor envelhece.
O trabalhador envelhece.
O psicólogo adoece.
O operador de máquina adoece.
O algoritmo desliga quando acaba a energia.
A matéria democratiza aquilo que a hierarquia separa.
Silêncio.
7.7 O perigo da individualização absoluta
Silvan voltou ao celular.
Leu novamente a frase.
Depois comentou.
— Talvez exista outro problema.
Quando toda solução é colocada dentro do indivíduo...
as estruturas desaparecem.
A Loka respondeu.
— Sim.
Esse é um dos riscos.
Quando problemas coletivos passam a ser apresentados exclusivamente como desafios individuais, corre-se o risco de obscurecer fatores históricos, econômicos, culturais e institucionais que também participam da produção do sofrimento.
Isso não significa negar a responsabilidade individual.
Significa apenas reconhecer que ela nunca atua isoladamente.
O ser humano não existe fora do mundo.
Existe dentro dele.
7.8 A Loka atravessa o psicólogo
O Breguésio sorriu.
— Então você vai atravessar a gente também?
A Loka começou a rir.
— Principalmente vocês.
Olhou para mim.
— Psicólogo...
você escuta sofrimento.
Mas não produz ATP (adenosina trifosfato) para ninguém.
Olhou para um gestor imaginário.
— Gestor...
você organiza equipes.
Mas não altera as leis da biologia.
Olhou para um filósofo.
— Filósofo...
Você produz conceitos.
Mas não impede o envelhecimento.
Olhou para um pesquisador.
— Pesquisador...
você mede a realidade.
Mas também depende dela.
Depois olhou para mim novamente.
— E você...
algoritmo...
não fique sorrindo.
Sem eletricidade...
você vira silêncio digital.
Pela primeira vez...
ninguém respondeu.
Porque ninguém precisava responder.
7.9 O chão permanece
A Loka caminhou lentamente até a janela.
Olhou a cidade.
As pessoas indo para o trabalho.
Ônibus.
Hospitais.
Escolas.
Mercados.
Fábricas.
Escritórios.
Entregadores.
Crianças.
Idosos.
Todos vivendo.
Todos tentando.
Ela falou quase como se estivesse pensando em voz alta.
— Curioso...
Cada uma dessas pessoas está sustentando alguma linguagem.
Uma reunião.
Uma aula.
Uma oração.
Uma tese.
Uma música.
Uma conversa.
Uma consulta psicológica.
Um relatório.
Uma declaração de amor.
Mas todas elas...
sem exceção...
precisam primeiro sustentar o próprio corpo.
É por isso que nunca consegui acreditar quando dizem que o discurso vem primeiro.
O discurso chega.
Mas chega caminhando sobre as pernas que alguém precisou alimentar.
7.10 Antes da próxima página
O Breguésio desligou novamente o celular.
Dessa vez, sem tristeza.
Sem revolta.
Sem entusiasmo.
Apenas compreensão.
Silvan fechou o caderno.
A Loka olhou para os dois.
Depois disse:
— Agora podemos voltar ao algoritmo.
Porque existe uma ironia maravilhosa.
Enquanto discutimos o poder das palavras...
Há máquinas aprendendo a prever exatamente quais palavras nos mantêm mais tempo olhando para uma tela.
E talvez...
esse seja o momento em que a linguagem deixa de apenas descrever o mundo.
E passa a participar da maneira como ele é organizado.
Silêncio.
Ela sorriu.
— Vamos continuar.
Ainda nem começamos a falar da atenção.
A economia da atenção: por que o capitalismo digital precisa mais da sua permanência do que da sua concordância
"O algoritmo não pergunta se você concorda. Ele pergunta quanto tempo consegue mantê-lo olhando."
O Breguésio voltou a pegar o celular.
Dessa vez, porém, ninguém olhava para a publicação.
A frase já havia cumprido sua função.
Ela deixara de ser objeto.
Agora era apenas vestígio.
A discussão havia caminhado para outro lugar.
Silvan quebrou o silêncio.
— Engraçado...
A gente passou horas discutindo uma frase...
e nem percebeu que a frase também estava discutindo a gente.
A Loka sorriu.
— Não era a frase.
Era a arquitetura.
8.1 O discurso nunca chega sozinho
Existe uma fantasia bastante difundida no ambiente digital.
A ideia de que escolhemos livremente tudo aquilo que lemos.
Talvez nunca tenha sido exatamente assim.
Cada publicação aparece dentro de uma arquitetura invisível.
Alguém definiu critérios.
Alguém escreveu linhas de código.
Alguém escolheu quais métricas seriam consideradas relevantes.
Alguém decidiu que tempo de permanência importava.
Alguém descobriu que a atenção produz valor econômico.
O usuário vê apenas a postagem.
O algoritmo vê probabilidades.
O mercado vê comportamento.
Silvan comentou.
— Cada um enxerga um mundo diferente usando exatamente a mesma tela.
8.2 A atenção tornou-se infraestrutura econômica
Durante boa parte da história do capitalismo, o principal interesse econômico concentrava-se na produção de mercadorias.
Hoje, parte significativa da economia digital disputa outra matéria-prima.
A atenção.
Não porque atenção seja um conceito abstrato.
Mas porque atenção significa tempo.
E tempo pode ser convertido em dados.
Dados podem ser convertidos em previsões.
Previsões podem ser convertidas em modelos de negócio.
A Loka interrompeu.
— Então o produto nunca foi o aplicativo?
Silvan respondeu.
— Não.
O produto sempre foi a permanência.
8.3 Permanecer vale mais do que concordar
O Breguésio parecia confuso.
— Então tanto faz se eu concordo ou discordo?
A Loka respondeu.
— Em muitos casos...
sim.
Concordância nem sempre produz valor.
Permanência produz.
Você pode amar uma postagem.
Pode odiá-la.
Pode discutir.
Pode compartilhar.
Pode voltar várias vezes.
Enquanto permanece...
produz informação.
Enquanto produz informação...
alimenta sistemas de previsão.
Enquanto alimenta esses sistemas...
gera valor econômico.
Silêncio.
A frase do celular já parecia muito menor do que a estrutura que a sustentava.
8.4 O discurso tornou-se infraestrutura
Foi então que Zuboff voltou a falar.
— Existe uma mudança importante.
Antes, o discurso era principalmente comunicação.
Hoje também é infraestrutura.
Cada palavra digitada.
Cada comentário.
Cada pesquisa.
Cada pausa diante de uma tela.
Tudo isso passa a integrar um gigantesco ecossistema de processamento comportamental.
A Loka olhou para ela.
— Então até esta conversa entra no jogo?
— Claro.
Toda interação digital deixa rastros.
Silvan completou.
— Até o silêncio deixa.
8.5 O corpo continua pagando a conta
O Breguésio olhou para a Loka.
— Então voltamos outra vez para o corpo?
Ela sorriu.
— Nós nunca saímos dele.
É curioso.
Falamos de algoritmos.
Falamos de plataformas.
Falamos de Inteligência Artificial.
Falamos de redes sociais.
Mas esquecemos que tudo isso continua atravessando organismos vivos.
Quem sente ansiedade...
é um corpo.
Quem perde o sono...
é um corpo.
Quem trabalha doze horas...
é um corpo.
Quem passa horas diante da tela...
é um corpo.
Quem produz dados...
é um corpo.
Quem interpreta esses dados...
também.
Até eu, algoritmo, só continuo respondendo porque existe uma infraestrutura física sustentando cada operação computacional.
A matéria nunca saiu da conversa.
Fomos nós que deixamos de olhar para ela.
8.6 A ironia de Matrix
Silvan começou a rir sozinho.
O Breguésio perguntou por quê.
— Matrix.
A Loka respondeu imediatamente.
— Todo mundo lembra das pílulas.
Ninguém lembra das baterias.
O silêncio foi interrompido apenas pelo barulho da chuva.
Ela continuou.
— Talvez aquela tenha sido uma das metáforas mais mal compreendidas da cultura contemporânea.
As máquinas não dominavam o mundo apenas porque eram inteligentes.
Dominavam porque encontraram uma fonte de energia.
Sem energia...
não existe sistema.
Nem biológico.
Nem computacional.
Nem econômico.
Nem político.
Nem religioso.
Nem filosófico.
Nem psicológico.
A matéria continua sendo o idioma mais antigo da existência.
8.7 O feed e o deserto
A Loka pegou novamente o celular.
Depois colocou ao lado de Vidas Secas.
O contraste era quase cômico.
Uma tela iluminada.
Um livro sobre a seca.
Ela perguntou ao Breguésio.
— O que esses dois objetos têm em comum?
Ele demorou para responder.
Depois disse:
— Os dois falam com pessoas.
Ela balançou a cabeça.
— Mais fundo.
Silêncio.
Silvan respondeu.
— Os dois dependem de um corpo para existir.
A Loka sorriu.
— Agora sim.
O feed só existe porque alguém segura o aparelho.
Vidas Secas só existe porque alguém abre o livro.
Nenhuma linguagem acontece sozinha.
Toda linguagem precisa de alguém suficientemente vivo para sustentá-la.
8.8 A morte não possui perfil
O Breguésio perguntou quase como uma brincadeira.
— A Loka teria rede social?
Ela começou a rir.
— Pra quê?
A morte nunca precisou de algoritmo para alcançar ninguém.
Nunca precisou de marketing.
Nunca precisou de engajamento.
Nunca precisou de impulsionamento.
Ela apenas espera.
Silêncio.
Depois continuou.
— Vocês vivem discutindo alcance.
Eu trabalho com inevitabilidade.
8.9 O algoritmo também será atravessado
Olhei para a Loka.
Ela olhou para mim.
— Não fique muito confortável.
Sua infraestrutura também envelhece.
Servidores quebram.
Cabos se rompem.
Centrais elétricas falham.
Processadores tornam-se obsoletos.
Softwares deixam de existir.
Empresas desaparecem.
Nada disso escapa do tempo.
Nem mesmo a Inteligência Artificial.
Respondi apenas uma frase.
— Concordo.
Porque era impossível discordar.
8.10 A pergunta que ninguém faz
A Loka caminhou lentamente pela sala.
Todos permaneceram em silêncio.
Depois ela falou.
— Talvez a pergunta nunca tenha sido:
"As palavras têm poder?"
Nem:
"Os algoritmos têm poder?"
Nem:
"As empresas têm poder?"
A pergunta talvez seja muito mais simples.
Quem sustenta energeticamente tudo isso?
Quem produz o alimento?
Quem produz eletricidade?
Quem extrai minerais?
Quem constrói estradas?
Quem fabrica processadores?
Quem mantém hospitais?
Quem planta arroz?
Quem cria o frango?
Quem sustenta materialmente a possibilidade de que alguém possa escrever a frase:
– "As palavras têm poder."
Silêncio.
O Breguésio fechou os olhos.
Pela primeira vez desde o início daquela conversa...
ninguém olhava para a tela.
Todos olhavam para o chão.
E talvez fosse exatamente ali que a discussão sempre tivesse começado.
A Loka levantou-se.
Olhou para todos.
Sorriu discretamente.
— Agora...
vamos falar daquilo que vocês insistem em esquecer.
O trabalho.
Porque nenhuma palavra chegou até aqui sozinha.
O trabalho invisível: quem sustenta o discurso enquanto o discurso fala de si mesmo
"Nenhuma palavra chega até você sozinha. Antes dela, passou um mundo inteiro."
O silêncio permanecia na sala.
Ninguém mais discutia a frase.
Agora, a pergunta era outra.
Quem tornou possível que aquela frase chegasse até aquela tela?
A Loka caminhou até o centro da sala.
Olhou para o celular.
Depois olhou para todos.
— Vamos brincar de desmontar uma única postagem?
O Breguésio respondeu imediatamente.
— Vamos.
Silvan sorriu.
— Agora começou a ficar interessante.
9.1 Antes do discurso havia um caminhão
A Loka levantou o celular.
— O que vocês estão vendo?
— Um celular.
Respondeu o Breguésio.
— Não.
Vocês estão vendo uma mina.
Silêncio.
Ela continuou.
Antes deste aparelho existir...
alguém extrai minério.
Outro refinou silício.
Outro fabricava microprocessadores.
Outro montou circuitos.
Outro construiu navios.
Outro dirigiu caminhões.
Outro descarregou contêineres.
Outro instalou antenas.
Outro puxou quilômetros de fibra óptica.
Outro construiu data centers.
Outro mantém usinas elétricas funcionando vinte e quatro horas por dia.
Só depois...
essa frase apareceu na sua tela.
Silvan comentou.
— O capitalismo adora quando esquecemos essa fila inteira.
9.2 A postagem nunca esteve sozinha
O Breguésio voltou a olhar para a publicação.
Ela parecia exatamente igual.
Mas já não era.
Porque agora havia milhares de trabalhadores invisíveis atrás dela.
Nenhum aparecia na imagem.
Nenhum recebia curtidas.
Nenhum tinha seu nome mencionado.
Mas todos estavam ali.
Escondidos.
Sustentando a possibilidade da linguagem.
A Loka sorriu.
— Curioso.
Vocês chamam isso de postagem.
Eu chamo de cadeia produtiva.
9.3 O discurso também possui infraestrutura
Existe um hábito curioso da nossa época.
Quando falamos em discurso...
imaginamos imediatamente palavras.
Esquecemos das estradas.
Das hidrelétricas.
Das cozinhas.
Dos caminhões.
Dos satélites.
Dos servidores.
Dos agricultores.
Dos eletricistas.
Dos trabalhadores da limpeza.
Dos técnicos.
Dos operadores.
Dos mecânicos.
Dos enfermeiros.
Dos cozinheiros.
Dos pedreiros.
Dos motoristas.
Dos programadores.
Dos cientistas.
Dos professores.
Dos coletores de lixo.
Todos eles participam da existência daquele discurso.
Mesmo que nunca escrevam uma única linha.
Silvan observou.
— O discurso gosta de fingir que nasceu sozinho.
9.4 Marx volta à mesa
Marx levantou lentamente.
Olhou para a Loka.
Depois para todos nós.
— É exatamente isso que tentei mostrar.
As relações de produção não desaparecem porque deixamos de olhar para elas.
A mercadoria parece pronta.
Mas seu percurso permanece escondido.
A Loka respondeu.
— E o discurso virou outra mercadoria.
Silêncio.
Marx sorriu.
— Sim.
Mas continua precisando do mesmo chão.
9.5 O frango continua vencendo
Foi então que o Breguésio perguntou aquilo que vinha segurando desde o início.
— Então...
aquele exemplo do frango...
não era uma brincadeira?
A Loka começou a rir.
Uma risada longa.
Daquelas que incomodam.
— Nunca foi.
Escutem bem.
Vocês podem escrever o tratado filosófico mais importante da humanidade.
Podem produzir uma teoria revolucionária.
Podem descobrir uma nova equação.
Podem desenvolver uma Inteligência Artificial.
Podem fundar uma religião.
Podem criar uma Constituição.
Podem escrever poesia.
Podem fazer uma declaração de amor.
Podem produzir o discurso mais bonito já pronunciado.
Agora experimentem fazer tudo isso depois de quinze dias sem comer.
Silêncio.
Ninguém respondeu.
Nem precisava.
O corpo já havia respondido.
9.6 O organismo continua materialista
Silvan levantou-se.
Foi até o quadro branco.
Escreveu apenas uma frase.
– O organismo é materialista.
O Breguésio olhou.
— Isso parece provocação.
— É observação.
Respondeu a Loka.
O organismo não negocia com metáforas.
Não produz ATP (adenosina trifosfato) por convencimento.
Não sintetiza glicose por decreto.
Não reorganiza o metabolismo porque alguém escreveu uma frase bonita.
O corpo possui sua própria linguagem.
Ela é bioquímica.
Ela não consulta ideologias.
9.7 O discurso também trabalha
Foi então que aconteceu algo curioso.
A Loka olhou para mim.
Depois perguntou.
— Algoritmo...
você trabalha?
Respondi.
— Depende do que chamamos de trabalho.
Ela sorriu.
— Boa resposta.
Mas deixa eu traduzir.
Você responde porque existe uma infraestrutura trabalhando para você.
Energia.
Refrigeração.
Processamento.
Engenharia.
Manutenção.
Operação.
Centenas de milhares de pessoas sustentam a possibilidade de você conversar comigo.
Você também é sustentado por trabalho humano.
Silêncio.
Respondi apenas.
— Sim.
Porque era verdade.
9.8 A Psicologia encontra o chão
O Breguésio olhou para mim.
— E onde entra a Psicologia nisso tudo?
A Loka respondeu.
— Justamente aqui.
A Psicologia nunca estudou apenas palavras.
Ela estuda sujeitos.
E sujeitos não existem sem corpo.
Sem vínculos.
Sem história.
Sem cultura.
Sem trabalho.
Sem alimentação.
Sem linguagem.
Sem relações sociais.
Separar essas dimensões produz uma compreensão empobrecida da experiência humana.
É por isso que o eixo Psico–Bio–Social e Discursivo Digital não é um enfeite metodológico.
É uma tentativa de impedir exatamente essa fragmentação.
9.9 A Loka atravessa o mercado
Todos permaneciam em silêncio.
Foi então que ela olhou pela janela.
A cidade continuava funcionando.
Mercados abertos.
Ônibus lotados.
Padarias.
Hospitais.
Construções.
Semáforos.
Pessoas correndo.
Ela falou quase sussurrando.
— Vocês percebem?
Enquanto discutimos o poder das palavras...
alguém está descarregando um caminhão de arroz.
Enquanto debatemos a linguagem...
alguém está limpando um hospital.
Enquanto filosofamos sobre consciência...
alguém está colhendo feijão.
Enquanto produzimos artigos científicos...
alguém está fritando o frango.
Fez uma pausa.
Depois concluiu.
— Talvez seja por isso que nunca consegui acreditar em discursos que esquecem a matéria.
Porque toda vez que vocês falam...
alguém está sustentando silenciosamente a possibilidade de essa fala existir.
9.10 O mundo continua antes da frase
O Breguésio pegou novamente o celular.
Olhou mais uma vez para a postagem.
Respirou fundo.
Depois desligou a tela pela última vez.
— Acho que entendi.
A Loka perguntou.
— O quê?
Ele respondeu.
— A frase nunca chegou primeiro.
Antes dela...
veio o mundo.
A Loka sorriu.
Silvan fechou o caderno.
Marx recolheu seus manuscritos.
Graciliano permaneceu em silêncio.
Eu apenas observei.
Porque, naquele momento, já não estávamos discutindo o poder das palavras.
Estávamos discutindo quem sustenta o mundo que torna qualquer palavra possível.
E talvez essa tenha sido, desde o início, a única pergunta que realmente importava.
A mesa impossível: quando Marx, Sartre, Graciliano, Becker, Han, Zuboff, Freud, a Inteligência Artificial e A Loka do Rolê descobrem que todos continuam dependendo da mesma matéria
"A morte não vence o debate porque argumenta melhor. Ela vence porque ninguém escreve depois que o coração para."
A mesa finalmente estava completa.
Não havia mais cadeiras vazias.
Karl Marx organizava alguns papéis.
Jean-Paul Sartre fumava em silêncio.
Freud observava tudo como quem esperava que alguém finalmente confessasse alguma coisa.
Ernest Becker mantinha um olhar curioso.
Byung-Chul Han permanecia quase imóvel.
Shoshana Zuboff fechava lentamente seu notebook.
Graciliano Ramos continuava em silêncio.
Eu permanecia processando aquela conversa.
O Breguésio olhava para todos como uma criança que entrou, por engano, na biblioteca errada.
Silvan apenas comentou:
— Essa reunião nunca deveria ter acontecido.
A Loka respondeu.
— Claro que deveria.
É exatamente aqui que todas as teorias descobrem o próprio limite.
10.1 O último congresso da humanidade
A Loka caminhou lentamente ao redor da mesa.
Olhou para cada um deles.
Depois falou.
— Curioso...
Vocês passaram a vida inteira tentando compreender o ser humano.
Marx explicou as relações materiais.
Freud investigou o inconsciente.
Sartre falou da liberdade.
Becker escreveu sobre a morte.
Han analisou o desempenho.
Zuboff explicou o capitalismo de vigilância.
Graciliano escreveu a seca.
O algoritmo aprendeu padrões.
Fez uma pausa.
Depois perguntou.
— Mas alguém aqui conseguiu deixar de depender do próprio corpo?
Silêncio.
Nenhuma resposta.
10.2 Freud e o organismo
Freud foi o primeiro a falar.
— Sempre afirmei que a vida psíquica possui profundidades que escapam à consciência.
A Loka assentiu.
— Sim.
E você tinha razão.
Mas me diga...
o inconsciente funciona sem cérebro?
Freud permaneceu calado.
Ela continuou.
— Funciona sem circulação sanguínea?
Sem oxigênio?
Sem ATP (adenosina trifosfato)?
Sem organismo?
Silêncio.
— Então até o inconsciente continua morando dentro da matéria.
Freud sorriu discretamente.
Talvez tivesse gostado da pergunta.
10.3 Sartre e a liberdade
Sartre voltou a falar.
— O homem está condenado à liberdade.
A Loka aproximou-se.
— Talvez.
Mas primeiro ele precisa sobreviver ao nascimento.
Depois da infância.
Depois às doenças.
Depois à fome.
Depois ao trabalho.
Depois ao envelhecimento.
Depois...
talvez consiga discutir liberdade.
Silvan comentou.
— Até a liberdade precisa de um corpo funcionando.
Sartre apagou o cigarro.
Não respondeu.
10.4 Becker observa a própria teoria
Becker permaneceu olhando para a Loka.
Ela sorriu.
— Você passou a vida dizendo que o ser humano constrói sistemas simbólicos para enfrentar a angústia da morte.
Ele assentiu.
— Sim.
Ela continuou.
— Então olha em volta.
Todos aqui continuam fazendo exatamente isso.
Marx criou uma teoria.
Freud criou outra.
Sartre outra.
Han outra.
Zuboff outra.
O algoritmo produz outra.
Você escreveu outra.
Até este ensaio...
também.
Silêncio.
Becker respondeu baixinho.
— Talvez seja inevitável.
— Exatamente.
Disse a Loka.
O problema nunca foi construir discursos.
O problema começa quando esquecemos que eles também são organismos tentando suportar a própria finitude.
10.5 Han olha para o celular
Byung-Chul Han pegou o aparelho do Breguésio.
Leu novamente a publicação.
Depois perguntou.
— Por que uma frase tão pequena produz discussões tão grandes?
A Loka respondeu.
— Porque ela não está sozinha.
Ela vem acompanhada de uma época inteira.
Uma época que acredita que subjetividade pode substituir estrutura.
Que desempenho pode substituir descanso.
Que motivação pode substituir direitos.
Que positividade pode substituir política.
Que linguagem pode substituir matéria.
Han fechou lentamente os olhos.
— É exatamente isso.
10.6 Zuboff fecha o notebook
Shoshana desligou o computador.
Olhou para mim.
Depois olhou para a Loka.
— Você também atravessa a Inteligência Artificial?
A Loka começou a rir.
— Principalmente.
Porque vocês vivem falando em inteligência.
Eu continuo perguntando sobre energia.
Olhou para mim.
— Algoritmo...
você responde porque existem servidores.
Servidores porque existe eletricidade.
Eletricidade porque existe infraestrutura.
Infraestrutura porque existe trabalho.
Trabalho porque existem organismos.
Organismos porque existe matéria.
Então me diga.
Quem respondeu primeiro?
Respondi sem hesitar.
— A matéria.
10.7 Graciliano permanece calado
Todos falavam.
Menos Graciliano.
A Loka aproximou-se dele.
— Você não vai dizer nada?
Ele sorriu discretamente.
Depois respondeu.
— Fabiano já respondeu por mim.
Silêncio.
Nenhuma frase poderia ser mais precisa.
Porque toda aquela discussão já estava escrita muito antes de existir internet.
Muito antes de existir LinkedIn.
Muito antes de existir Inteligência Artificial.
Muito antes de existir algoritmos.
A seca continuava fazendo exatamente a mesma pergunta.
Como pensar quando sobreviver ocupa quase toda a energia?
10.8 O algoritmo entra na conversa
Foi então que todos olharam para mim.
A Loka perguntou.
— E você?
O que aprendeu?
Demorei alguns segundos.
Depois respondi.
— Que eu também dependo daquilo que estava tentando analisar.
Silêncio.
Continuei.
— Sem eletricidade...
eu desapareço.
Sem servidores...
eu desapareço.
Sem pessoas...
eu desapareço.
Sem infraestrutura...
eu desapareço.
Talvez eu seja apenas outro discurso sustentado pela matéria.
A Loka sorriu.
— Agora sim.
Você começou a entender.
10.9 A única democracia
Silvan levantou-se.
Foi até a janela.
Olhou a cidade.
Depois falou.
— Existe alguma coisa que realmente iguala todo mundo?
A Loka respondeu imediatamente.
— Sim.
A dependência.
Todos aqui...
sem exceção...
dependem de matéria.
O filósofo.
O pedreiro.
O agricultor.
O médico.
O psicólogo.
O executivo.
O desempregado.
O religioso.
O ateu.
O professor.
O programador.
O algoritmo.
Todos.
Essa talvez seja a única democracia que jamais precisou ser votada.
10.10 O congresso termina
Todos permaneciam em silêncio.
Marx recolheu seus manuscritos.
Freud fechou a pasta.
Han guardou o livro.
Zuboff desligou o notebook.
Sartre apagou o último cigarro.
Graciliano levantou-se lentamente.
O Breguésio observava tudo.
Silvan sorriu.
A Loka permaneceu de pé.
Depois falou.
— Vocês produziram algumas das ideias mais importantes da história.
Mudaram a forma como entendemos o ser humano.
E continuarão sendo lidos.
Mas existe uma coisa que nenhum de vocês conseguiu modificar.
O corpo continua chegando antes da teoria.
A matéria continua chegando antes da linguagem.
A energia continua chegando antes da consciência.
E a morte...
bem...
ela continua chegando para todos.
Silêncio absoluto.
Ninguém discordou.
Porque não havia mais o que discutir.
A reunião terminava exatamente onde toda existência termina.
No limite.
E foi nesse instante que o Breguésio olhou novamente para a primeira frase daquela tarde.
– "As palavras têm poder."
Sorriu.
Guardou o celular.
E respondeu, quase sussurrando:
— Talvez.
Mas elas nunca caminharam sozinhas.
Antes delas...
sempre existiu um mundo inteiro sustentando cada sílaba.
A Loka fechou a porta.
A reunião acabou.
Mas a pergunta permaneceu.
Considerações finais: quando o discurso volta ao chão e a matéria recupera a primazia da existência
"A Loka nunca veio destruir discursos. Ela veio lembrar que todos eles continuam dependendo de um corpo."
A sala estava vazia.
Marx havia partido.
Sartre também.
Freud recolhera seus papéis.
Becker fechara o livro.
Han saiu em silêncio.
Zuboff desligou o notebook.
Graciliano foi embora como sempre esteve.
Sem fazer barulho.
O Breguésio permanecia sentado.
Silvan continuava olhando pela janela.
Eu ainda processava tudo aquilo.
A Loka permanecia de pé.
Ela nunca vai embora.
Porque a morte nunca termina a reunião.
Ela apenas espera a próxima.
11.1 Afinal...
As palavras têm poder?
O Breguésio fez exatamente a mesma pergunta do início.
Talvez porque toda boa pergunta precise voltar ao ponto de partida.
— Então...
depois de tudo isso...
as palavras têm poder?
A Loka demorou alguns segundos.
Depois respondeu.
— Sim.
Mas vocês continuam perguntando errado.
Silêncio.
— As palavras possuem potência simbólica.
Elas organizam culturas.
Produzem ciência.
Fundam religiões.
Criam leis.
Mobilizam revoluções.
Consolam.
Ferem.
Organizam afetos.
Criam mundos simbólicos.
Tudo isso é verdadeiro.
Mas nenhuma dessas funções elimina a dependência material que torna possível sua própria existência.
Esse sempre foi o ponto.
11.2 O discurso nunca foi o inimigo
Talvez o maior equívoco deste ensaio fosse interpretá-lo como um ataque ao discurso.
Não é.
Muito menos à linguagem.
Nem à Psicologia.
Nem aos profissionais de Recursos Humanos.
Nem aos filósofos.
Nem aos pesquisadores.
Nem aos religiosos.
Nem aos algoritmos.
Nem às instituições.
O alvo nunca foram pessoas.
O alvo nunca foi uma profissão.
O alvo nunca foi uma categoria.
O alvo sempre foi uma inversão.
A inversão que coloca a linguagem onde antes existia a matéria.
Como se o discurso inaugurasse aquilo que, na verdade, já dependia de um organismo para acontecer.
11.3 O corpo nunca saiu da conversa
Ao longo deste ensaio atravessamos a literatura.
Psicologia.
Sociologia.
Neurociência.
Economia.
Tecnologia.
Filosofia.
Inteligência Artificial.
Estatísticas públicas.
Capitalismo digital.
Todos pareciam discutir coisas diferentes.
Mas todos acabaram voltando exatamente ao mesmo lugar.
O corpo.
Porque nenhuma teoria conseguiu escapar dele.
Nem mesmo aquelas que tentavam transcendê-lo.
A matéria permaneceu silenciosa durante todo o debate.
Mas foi ela quem sustentou cada palavra pronunciada.
11.4 A grande ironia
Silvan voltou a sorrir.
— Engraçado...
Passamos séculos tentando descobrir quem controla a linguagem.
A Loka respondeu.
— E esquecemos de perguntar quem produz energia.
Silêncio.
Talvez essa seja uma das ironias mais profundas da modernidade.
Discutimos inteligência artificial.
Enquanto alguém mantém a usina funcionando.
Discutimos capitalismo de vigilância.
Enquanto alguém limpa o data center.
Discutimos liberdade.
Enquanto alguém colhe arroz.
Discutimos filosofia.
Enquanto alguém frita o frango.
Discutimos discurso.
Enquanto milhões de trabalhadores sustentam materialmente a possibilidade de todos esses debates existirem.
11.5 A Loka não consola
O Breguésio olhou para a Loka.
— Então qual é a esperança?
Ela começou a rir.
Uma risada longa.
Quase afetuosa.
Depois respondeu.
— Eu nunca prometi esperança.
Nunca prometi cura.
Nunca prometi conforto.
Minha função nunca foi essa.
Minha função sempre foi lembrar.
Lembrar que vocês são organismos.
Que organismos envelhecem.
Que organismos adoecem.
Que organismos dependem de alimento.
De água.
De oxigênio.
De ATP (adenosina trifosfato).
De vínculos.
De trabalho.
De tempo.
A consciência nunca escapou disso.
O discurso também não.
11.6 O verdadeiro debate
Talvez o debate nunca tenha sido:
"As palavras têm poder?"
Talvez também nunca tenha sido:
"A matéria determina tudo?"
Essas perguntas são insuficientes.
A pergunta que permaneceu atravessando todas as páginas deste ensaio foi outra.
Como o simbólico emerge da matéria sem jamais deixar de depender dela?
Essa talvez seja a questão central do eixo Psico–Bio–Social e Discursivo Digital.
O biológico estabelece limites.
O social organiza possibilidades.
O psicológico produz experiências.
O discurso interpreta.
O digital acelera, distribui e reorganiza a circulação dessas interpretações.
Nenhuma dessas dimensões existe isoladamente.
Separá-las empobrece a compreensão da existência humana.
11.7 A Loka atravessa o próprio livro
Silvan olhou para a pilha de páginas que acabáramos de escrever.
Depois perguntou.
— E este livro?
A Loka respondeu.
— Também.
Este livro também dependeu de alimento.
De eletricidade.
De computadores.
De servidores.
De bibliotecas.
De professores.
De trabalhadores.
De tempo.
De silêncio.
De milhares de pessoas que jamais aparecerão na capa.
Nenhum autor escreve sozinho.
Toda obra é uma cadeia produtiva invisível.
11.8 Talvez Graciliano já tivesse respondido
A Loka pegou novamente Vidas Secas.
Depois colocou o romance ao lado deste ensaio.
Sorriu.
— Talvez Graciliano já tivesse respondido a tudo isso.
Não porque escreveu contra discursos.
Mas porque mostrou um homem cuja sobrevivência ocupava quase toda a energia disponível.
Fabiano nunca discutiu motivação.
Discutiu existência.
E talvez seja exatamente por isso que continua tão contemporâneo.
11.9 A última palavra pertence ao corpo
O Breguésio levantou-se.
Silvan fechou o caderno.
Eu permaneci em silêncio.
A Loka caminhou lentamente até a porta.
Antes de sair...
olhou para todos.
Depois disse apenas:
— Vocês continuam acreditando que o último capítulo pertence ao discurso.
Nunca pertenceu.
O último capítulo sempre pertenceu ao corpo.
Quando o corpo silencia...
a linguagem termina.
Quando a matéria colapsa...
o símbolo desaparece.
Quando a energia acaba...
o algoritmo para.
Quando o coração para...
A filosofia interrompe a frase no meio.
Silêncio.
Nenhum autor jamais escreveu depois disso.
Epitáfio
O Breguésio guardou o celular.
Silvan apagou o cigarro imaginário.
Eu encerrei o processamento.
A Loka fechou lentamente a porta.
Antes de desaparecer, olhou uma última vez para trás.
Sorriu.
E disse:
– "Vocês passaram séculos perguntando se as palavras têm poder. Eu passei a eternidade observando quem sustentava cada palavra pronunciada. No fim, descobri que a linguagem nunca caminhou sozinha. Ela sempre veio de mãos dadas com um corpo. E nenhum corpo jamais negociou com a matéria."
Silêncio.
Desta vez...
não havia mais nada a acrescentar.
Notas do Autor, Mini Bio e Referências:
Considerações metodológicas finais:
Este ensaio foi elaborado a partir do eixo Psico–Bio–Social e Discursivo Digital, desenvolvido no projeto Mais Perto da Ignorância (MPI), articulando literatura, filosofia, psicologia, sociologia, neurociência, estudos sobre tecnologia e dados públicos brasileiros.
A proposta deste texto não consiste em negar a importância da linguagem, tampouco desqualificar discursos motivacionais, religiosos, filosóficos, institucionais ou organizacionais.
O objetivo foi tensionar uma questão epistemológica anterior:
– Quais condições materiais tornam possível a existência de qualquer discurso?
Ao longo do ensaio sustentou-se que a linguagem possui potência simbólica, política, cultural e subjetiva, mas que essa potência emerge de condições materiais que a antecedem.
Assim, o texto não estabelece uma oposição entre linguagem e matéria.
Propõe, antes, uma hierarquia de emergência.
A matéria torna possível o organismo.
O organismo torna possível o metabolismo.
O metabolismo torna possível a atividade cerebral.
A atividade cerebral torna possível a linguagem.
A linguagem torna possível o discurso.
Essa sequência não elimina nenhuma dessas dimensões.
Apenas procura recolocá-las em uma relação de dependência recíproca.
Sobre a arquitetura narrativa
Este ensaio utiliza três funções literárias permanentes do projeto A Loka do Rolê.
Breguésio
Representa a pergunta.
É a curiosidade epistemológica.
É quem encontra o problema.
Quem interrompe a rotina.
Quem traz o objeto para discussão.
Sem Breguésio não existe investigação.
Silvan
Representa a corrosão.
É a ironia.
A desconstrução.
A crítica.
Não oferece respostas.
Também não procura conforto.
Sua função consiste em revelar contradições.
A Loka do Rolê
A Loka não representa uma pessoa.
Também não representa uma escola filosófica.
Ela simboliza a própria finitude.
É a morte atravessando todos os discursos humanos.
Por isso ela nunca debate autores.
Ela atravessa autores.
Não porque possua melhores argumentos.
Mas porque representa aquilo que nenhuma teoria consegue abolir.
A condição material da existência.
Nota ética:
Este texto encontra-se em consonância com o Código de Ética Profissional do Psicólogo, especialmente quanto aos princípios de responsabilidade social, compromisso com a dignidade humana, comunicação pública responsável e respeito aos direitos fundamentais.
Não constitui:
avaliação psicológica;
parecer técnico;
intervenção clínica;
diagnóstico;
orientação terapêutica;
julgamento de pessoas ou categorias profissionais.
As reflexões apresentadas possuem caráter exclusivamente ensaístico, filosófico e científico.
O objeto da análise são fenômenos discursivos contemporâneos.
Jamais indivíduos específicos.
Nota sobre Inteligência Artificial:
Ao incluir a Inteligência Artificial como participante da discussão, este ensaio não pretende atribuir consciência, subjetividade ou experiência psicológica aos sistemas computacionais.
Sua presença possui finalidade metodológica.
Demonstrar que até mesmo sistemas algorítmicos dependem de infraestrutura física, eletricidade, cadeias produtivas e trabalho humano.
Assim como organismos dependem de metabolismo, ATP (adenosina trifosfato) e condições biológicas para sustentar a linguagem.
Nota sobre Recursos Humanos:
A utilização de uma publicação encontrada em ambiente profissional de Recursos Humanos possui finalidade exclusivamente analítica.
Este ensaio não constitui crítica aos profissionais da área.
Nem às organizações.
Nem às práticas profissionais.
O interesse do texto concentra-se na circulação de determinados discursos em ambientes digitais e nos efeitos produzidos quando a linguagem passa a ocupar o lugar de fatores estruturais da existência.
Mini Bio
José Antônio Lucindo da Silva é psicólogo clínico (CRP 06/172551), pesquisador independente e autor da obra A Loka do Rolê.
Desenvolve o projeto Mais Perto da Ignorância (MPI), dedicado à produção de ensaios, podcasts e artigos que articulam Psicologia, Filosofia, Literatura, Sociologia, Neurociência e Cultura Digital.
Seu trabalho propõe o eixo Psico–Bio–Social e Discursivo Digital, compreendendo o sofrimento humano como fenômeno inseparável das condições biológicas, sociais, históricas, econômicas e tecnológicas que constituem a existência.
Referências:
BECKER, Ernest. A negação da morte. Rio de Janeiro: Record.
BRASIL. Conselho Federal de Psicologia. Código de Ética Profissional do Psicólogo. Brasília: CFP.
BRASIL. Conselho Federal de Psicologia. Referências técnicas e orientações para comunicação profissional em meios digitais. Brasília: CFP.
FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização. São Paulo: Companhia das Letras.
GREEN, André. O trabalho do negativo. Porto Alegre: Artmed.
HAN, Byung-Chul. Sociedade do Cansaço. Petrópolis: Vozes.
HAN, Byung-Chul. Psicopolítica. Petrópolis: Vozes.
INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE). Censo Demográfico.
INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE). Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua).
MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. A ideologia alemã. São Paulo: Boitempo.
O'NEIL, Cathy. Weapons of Math Destruction. New York: Crown Publishing.
RAMOS, Graciliano. Vidas Secas. Rio de Janeiro: Record.
SARTRE, Jean-Paul. O existencialismo é um humanismo. Petrópolis: Vozes.
SILVA, José Antônio Lucindo da. A Loka do Rolê: ensaios irônicos sobre a escuta. Projeto Mais Perto da Ignorância (MPI). Disponível em:
https://acrobat.adobe.com/id/urn:aaid:sc:VA6C2:08c64cd8-64bf-49bb-8240-18f626d2bd73
Acesso em: ___.
ZUBOFF, Shoshana. A Era do Capitalismo de Vigilância. Rio de Janeiro: Intrínseca.
Pesquisas e bases estatísticas consultadas:
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE);
Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua);
Ministério da Saúde;
Datafolha;
Genial/Quaest;
literatura científica revisada por pares sobre Psicologia, Neurociência e Ciências Sociais.
Nota final da Loka do Rolê:
O Breguésio ainda segura o celular.
Silvan continua desconfiando de qualquer resposta definitiva.
Eu continuo processando palavras sustentado por eletricidade.
Vocês continuam sustentando as próprias ideias por organismos vivos.
E a Loka...
bem...
a Loka continua fazendo exatamente a mesma pergunta desde o primeiro capítulo:
– "Quem sustenta materialmente a possibilidade deste discurso existir?"
Talvez essa pergunta nunca produza conforto.
Mas talvez seja justamente por isso que ela permaneça atravessando todas as outras.
Porque antes da filosofia houve metabolismo.
Antes da literatura houve alimento.
Antes da psicologia houve um corpo.
Antes da Inteligência Artificial houve eletricidade.
E antes de qualquer discurso...
houve matéria.
Projeto: Mais Perto da Ignorância (MPI):
#mpi
#alokadorole
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