O DESESPERO CLIMÁTICO JÁ VIROU PROJETO DE GESTÃO PLANETÁRIA
José Antônio Lucindo da Silva
Projeto: MAIS PERTO DA IGNORÂNCIA — MPI
Existe uma cena silenciosa acontecendo no presente.
A humanidade sabe exatamente o que produz o aquecimento global.
Sabe exatamente o que deveria fazer.
Sabe exatamente quais interesses impedem a mudança.
E mesmo assim continua queimando o planeta como quem fuma dentro de um quarto fechado esperando que a fumaça peça desculpas antes do colapso respiratório.
O dado mais perturbador não é o avanço climático.
É o fato de que o capitalismo contemporâneo conseguiu transformar até o fim do mundo em problema administrável.
Não se fala mais em interromper a destruição.
Fala-se em modular os danos.
Regular temperatura.
Calibrar partículas.
Gerenciar insolação.
Controlar a luz solar como quem ajusta brilho de tela.
A solução proposta pelos projetos de engenharia planetária é quase delirante na sua sinceridade estrutural:
ao invés de interromper a emissão de carbono, cria-se uma camada artificial na atmosfera para refletir parte da luz do Sol.
O planeta vira laboratório.
A atmosfera vira interface técnica.
O clima vira software geopolítico.
A lógica é brutal:
não conseguimos parar de consumir petróleo, então talvez seja mais fácil alterar a incidência solar da Terra inteira.
O mais interessante é que isso não aparece como ficção científica.
Aparece como pragmatismo.
E talvez esse seja o verdadeiro sintoma contemporâneo.
O colapso não produz mais interrupção moral.
Produz inovação.
A destruição ambiental deixa de ser tratada como limite civilizatório e passa a funcionar como oportunidade tecnológica de gerenciamento climático em larga escala.
A humanidade não quer abandonar a máquina que produz o desastre.
Ela quer instalar acessórios no desastre para continuar funcionando.
O problema nunca foi desconhecimento científico.
O problema é que o modelo econômico atual depende exatamente da continuidade daquilo que ameaça a sobrevivência coletiva.
Então surge o paradoxo:
talvez a espécie capaz de modificar a atmosfera inteira não consiga reduzir o próprio consumo.
Talvez seja mais fácil construir um véu artificial ao redor do planeta do que interromper o funcionamento da lógica produtiva contemporânea.
E aí aparece a pergunta que ninguém gosta de fazer:
se já aceitamos alterar irresponsavelmente a composição atmosférica com carbono, por que exatamente pareceria absurdo manipular artificialmente a luz solar?
No fundo, a engenharia planetária talvez seja apenas a continuação lógica do mesmo delírio que produziu o problema.
A diferença é que agora o desespero ganhou orçamento, laboratório e linguagem científica.
Texto-base:
https://www.estadao.com.br/ciencia/fernando-reinach/uma-solucao-para-quando-o-desespero-chegar/
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