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A ARQUITETURA DA FADIGA

A ARQUITETURA DA FADIGA



AUTOR:
A Loka do Rolê

PROJETO:
Mais Perto da Ignorância — MPI


RESUMO

Passei os últimos dias ouvindo pessoas explicarem o mundo. Especialistas explicavam a política. Economistas explicavam os mercados. Tecnólogos explicavam os algoritmos. Jornalistas explicavam as crises. Psicólogos explicavam o sofrimento. Em algum momento percebi que a quantidade de explicações estava crescendo mais rápido do que a capacidade de compreender qualquer coisa. Talvez esse seja o verdadeiro cenário contemporâneo. Não uma crise de informação, mas uma superprodução dela. Não uma ausência de sentido, mas uma indústria inteira dedicada a fabricá-lo. Enquanto isso, o sujeito continua acordando cansado. Continua ansioso. Continua acelerado. Continua produzindo dados, atenção e comportamento para sistemas que já não consegue enxergar. Este ensaio não procura localizar culpados nem oferecer respostas. Procura apenas observar a rachadura que aparece quando o sofrimento encontra um mundo excessivamente ocupado explicando a si mesmo.


PALAVRAS-CHAVE


INTRODUÇÃO

Passei os últimos dias ouvindo pessoas explicarem o mundo.

Talvez esse tenha sido meu primeiro erro.

Porque existe alguma coisa profundamente suspeita em qualquer época que produz explicações numa velocidade superior à dos acontecimentos.

Os fatos ainda estão acontecendo e alguém já está explicando.

A crise ainda está em curso e alguém já está interpretando.

O sofrimento ainda está atravessando corpos e alguém já está oferecendo categorias para organizá-lo.

Existe uma ansiedade estranha nisso.

Uma pressa.

Uma necessidade quase religiosa de impedir que qualquer coisa permaneça sem significado.

Talvez porque o vazio continue sendo intolerável.

Talvez porque a dúvida continue sendo uma experiência que poucos suportam.

Ou talvez porque tenhamos transformado a explicação em uma forma sofisticada de analgésico.

Não sei.

Mas quanto mais observo o mundo contemporâneo, menos me impressionam as respostas.

O que me impressiona é a quantidade de pessoas que parecem precisar delas para continuar funcionando.


DESENVOLVIMENTO

Durante muito tempo acreditei que o problema estivesse nas máquinas.

Depois acreditei que estivesse nos algoritmos.

Depois acreditei que estivesse no capitalismo.

Depois acreditei que estivesse na vigilância.

Depois acreditei que estivesse na política.

Depois comecei a desconfiar da facilidade com que eu continuava encontrando novos lugares para depositar minhas certezas.

Foi aí que alguma coisa começou a desmoronar.

Porque existe uma diferença entre compreender uma estrutura e transformar essa estrutura numa religião.

E talvez o século XXI tenha desenvolvido um talento especial para transformar diagnósticos em identidade.

As pessoas não defendem apenas opiniões.

Elas habitam opiniões.

Dormem dentro delas.

Organizam amizades através delas.

Organizam afetos através delas.

Organizam medos através delas.

Organizam a própria percepção da realidade através delas.

Talvez por isso a discussão pública tenha adquirido essa aparência de guerra permanente.

Não estamos defendendo argumentos.

Estamos defendendo moradias psicológicas.

E ninguém abandona uma casa facilmente.

Mesmo quando ela está pegando fogo.

Enquanto isso, os sistemas continuam funcionando.

As plataformas continuam aprendendo.

Os algoritmos continuam classificando.

Os mercados continuam reorganizando formas de vida.

As jornadas de trabalho continuam atravessando corpos.

A aceleração continua atravessando sistemas nervosos.

A hiperconectividade continua produzindo solidão.

A abundância de informação continua produzindo desorientação.

E a sensação predominante continua sendo uma só.

Cansaço.

Não um cansaço individual.

Não um cansaço psicológico isolado.

Mas uma fadiga estrutural.

Uma fadiga que atravessa o corpo, o trabalho, a atenção, a linguagem e o próprio modo de existir.

Talvez seja por isso que os debates contemporâneos me pareçam tão estranhos.

Enquanto todos discutem os eventos, eu continuo olhando para as consequências.

Enquanto todos procuram culpados, eu continuo observando sintomas.

Enquanto todos procuram monstros, eu continuo observando infraestruturas.

Mas até isso começou a me incomodar.

Porque existe uma armadilha escondida dentro da crítica.

A ilusão de que observar a engrenagem significa estar fora dela.

Talvez essa seja uma das ficções mais elegantes do sujeito contemporâneo.

Acreditar que consciência produz imunidade.

Não produz.

Saber que existe vigilância não impede a vigilância.

Saber que existe captura comportamental não impede a captura.

Saber que existe exploração não impede a exploração.

Saber que existe sofrimento estrutural não impede o sofrimento estrutural.

A lucidez não é vacina.

Às vezes ela é apenas outra forma de desconforto.

Talvez por isso eu tenha parado de confiar tanto nas certezas.

Principalmente nas minhas.

Porque toda convicção suficientemente confortável começa a me parecer perigosa.

Toda unanimidade começa a me parecer uma forma sofisticada de adormecimento.

Todo consenso começa a me parecer uma tentativa coletiva de evitar perguntas mais difíceis.

E talvez a pergunta mais difícil de todas seja justamente esta:

O que acontece com um sujeito quando as infraestruturas que organizam sua vida se tornam invisíveis?

O que acontece quando o trabalho deixa de terminar?

Quando a vigilância deixa de parecer vigilância?

Quando a exploração deixa de parecer exploração?

Quando a exaustão deixa de parecer exaustão?

Talvez aconteça exatamente o que estamos vendo.

O sofrimento continua chegando.

Mas as causas continuam se afastando.


CONSIDERAÇÕES FINAIS

Durante muito tempo imaginei que a principal tarefa crítica fosse localizar os sistemas.

Hoje já não tenho tanta certeza.

Talvez a tarefa seja compreender a relação íntima que desenvolvemos com eles.

A forma como aprendemos a habitar estruturas que nos atravessam.

A forma como transformamos explicações em abrigo.

A forma como convertimos convicções em identidade.

Talvez o verdadeiro mal-estar contemporâneo não esteja apenas nas máquinas.

Nem apenas nos mercados.

Nem apenas nos algoritmos.

Talvez ele esteja na dificuldade crescente de distinguir aquilo que pensamos daquilo que aprendemos a repetir.

E talvez seja por isso que continuo desconfiando.

Não apenas dos sistemas.

Mas também da tranquilidade de quem acredita ter compreendido completamente o funcionamento deles.


NOTAS DO AUTOR

Este ensaio não pretende oferecer soluções, orientações ou interpretações definitivas. Seu objetivo é sustentar a observação crítica das formas contemporâneas de sofrimento e das infraestruturas que organizam a experiência cotidiana.


MINI-BIO

A Loka do Rolê integra o projeto Mais Perto da Ignorância — MPI, dedicado à investigação crítica das relações entre subjetividade, tecnologia, trabalho, linguagem, capitalismo e sofrimento contemporâneo.


REFERÊNCIAS

FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização. São Paulo: Companhia das Letras.

https://www.companhiadasletras.com.br/livro/9788535920661/o-mal-estar-na-civilizacao 

HAN, Byung-Chul. Sociedade do cansaço. Petrópolis: Vozes.

https://www.vozes.com.br/livro/sociedade-do-cansaco 

ZUBOFF, Shoshana. A era do capitalismo de vigilância. Rio de Janeiro: Intrínseca.

https://www.intrinseca.com.br/livro/9788551004512/a-era-do-capitalismo-de-vigilancia 

CIORAN, Emil. Breviário de decomposição. Rio de Janeiro: Rocco.

https://www.rocco.com.br/livro/breviario-de-decomposicao/ 

BRODSKY, Joseph. Menos que um. São Paulo: Companhia das Letras.

https://www.companhiadasletras.com.br 

FUNDAÇÃO OSWALDO CRUZ

https://www.fiocruz.br 

INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA

https://www.ibge.gov.br 

INSTITUTO DE PESQUISA ECONÔMICA APLICADA

https://www.ipea.gov.br 

SCIENTIFIC ELECTRONIC LIBRARY ONLINE

https://www.scielo.br 


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