O QUE NÃO SE LIGA: cannabis, cortisol e a ruptura entre tensão e resposta na contemporaneidade
José Antônio Lucindo da Silva — Psicólogo (CRP 06/172551)
Projeto: Mais Perto da Ignorância — Loka do Rolê
Palavras-chave: Corpo; Tempo; Estresse; Cortisol; Cannabis; Ansiedade; Funcionamento; Limite.
Resumo:
Não é sobre a substância. Não é sobre escolha. Não é sobre erro individual. É sobre corpo em funcionamento diante de uma exigência que não cessa. O que aparece como ansiedade não é excesso isolado, mas sinal de um circuito que não se fecha. A cannabis entra nesse ponto como interferência, não como solução. Ela altera a dinâmica entre percepção, ativação e resposta, produzindo continuidade sem resolução. O corpo segue ativado, mas não organiza ação. O que se chama de vazio não é ausência, mas excesso sem integração. O texto sustenta que a ruptura não está no sujeito, mas na ligação entre tensão e resposta, mantendo o funcionamento onde não há mais sustentação.
Introdução:
Eu não começo pela substância.
Começo pelo corpo.
Porque, se não começa no corpo, já começou errado. O discurso chega depois. Sempre chega depois. O corpo já respondeu ou tentou responder quando alguém ainda está explicando o que está acontecendo. E é nesse intervalo — entre o que atravessa e o que não se organiza — que algo falha. Não como evento pontual. Como funcionamento.
O eixo que sustenta a resposta não é teoria. É operação. Perceber. Ativar. Responder. Quando isso se liga, há ação. Quando não se liga, há continuidade. E continuidade não é solução. É o problema insistindo.
O Corpo:
O cortisol não é um detalhe químico. É operador. Ele organiza atenção, energia, prontidão. Ele coloca o corpo em posição de responder. Não de pensar sobre a resposta. De responder.
Quando esse circuito funciona, a tensão se transforma. Vira ação. Vira deslocamento. Vira alguma coisa que altera o ambiente ou o posicionamento do corpo diante dele.
Mas nem sempre isso acontece.
E quando não acontece, algo continua.
Não para. Não resolve. Continua.
A substância entra aí. Não como correção. Como interferência.
O que a literatura chama de dependência não é só repetição de uso. É alteração de sistema. Recompensa, impulso, regulação. Tudo deslocado. O sujeito não apenas sente diferente. Ele responde diferente. Ou não consegue responder.
E isso não aparece como colapso imediato. Aparece como funcionamento.
Segue. Trabalha. Fala. Responde. Continua.
Mas sem ligação.
Quando olho para os dados sobre cannabis e saúde mental, não encontro estabilidade. Não encontro regulação consistente. Encontro deslocamento. Em alguns contextos, piora. Em outros, alívio momentâneo. Nada que se sustente como reorganização estável do sistema.
E isso não é moral.
É material.
A substância altera a dinâmica. Não resolve.
E alterar a dinâmica, aqui, significa mexer exatamente no ponto em que o corpo deveria transformar tensão em resposta.
Freud não tratava isso como erro. O mal-estar não é defeito. É estrutura. O problema não é existir sofrimento. É como ele é tratado.
Substâncias entram como forma de modificar a experiência. Não de resolver.
E toda modificação tem custo.
Reduz intensidade.
Mas também reduz ligação.
A tensão não desaparece. Ela muda de lugar. Perde forma. Continua sem se fechar.
O sujeito sente.
Mas não responde.
Percebe.
Mas não organiza.
E isso produz o que se chama de vazio.
Mas não é vazio.
É excesso sem forma.
Há coisa demais sem articulação suficiente para virar ação.
O eu tenta sustentar isso.
Mas sem ligação estável, ele passa a operar por repetição. Não por integração.
E repetição não resolve.
Mantém.
Do ponto de vista adaptativo, isso é falha. Não porque algo parou. Porque algo continua sem ajustar.
A ameaça não vira ação.
A ação não altera nada.
O circuito segue aberto.
E aberto não significa livre.
Significa sem fechamento.
O que aparece não é ausência.
É continuidade sem sustentação.
E isso se mantém porque não interrompe.
Não porque funciona.
A substância entra exatamente nesse ponto. Onde deveria haver ligação.
E, ao invés de fechar, mantém.
De outro jeito.
Menos intenso.
Menos claro.
Menos ligado.
Mas ainda funcionando.
E funcionamento sem ligação não resolve.
Só continua.
Frase-âncora:
Não é que você não entendeu, é que nunca houve ligação suficiente para sustentar o que parecia fazer sentido, e mesmo assim o corpo continua, repetindo o que não se organiza, mantendo uma continuidade que não responde, como se ainda existisse algo a defender no que já não se sustenta.
Notas do Autor — MPI:
Este texto constitui uma elaboração crítico-ensaística em primeira pessoa, atravessada pela função discursiva da Loka do Rolê, não como entidade clínica, mas como operador de corte. Não há prescrição, orientação ou promessa de solução. O conteúdo distingue descrição (dados sobre cannabis, cortisol e resposta ao estresse), interpretação (articulação entre sistemas biológicos e funcionamento psíquico) e posição argumentativa (ruptura entre tensão e resposta). A IA foi utilizada como ferramenta instrumental de organização textual. O conteúdo segue o Código de Ética do Psicólogo (CFP), mantendo respeito ao sujeito e crítica direcionada ao discurso, não ao indivíduo.
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Referências:
https://maispertodaignorancia.blogspot.com/2026/03/cannabis-saude-mental-e-evidencia.html
FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização.
AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. DSM-5-TR.
DIEHL, Alessandra; CORDEIRO, Daniel; LARANJEIRA, Ronaldo. Dependência química.
ZANELATTO, Neide; LARANJEIRA, Ronaldo. Terapias cognitivo-comportamentais.
SHAUGHNESSY, John J. Metodologia em psicologia.
CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. Código de Ética Profissional.
Mini Bio:
José Antônio Lucindo da Silva é psicólogo clínico, com atuação voltada à análise do discurso, sofrimento psíquico e limites da escuta na contemporaneidade. Desenvolve o projeto Mais Perto da Ignorância, onde articula psicologia, filosofia e crítica social através da função discursiva da Loka do Rolê.
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