Capítulo — Não há escuta → o corpo não responde, ele interrompe
Palavras-gírias:
corte, ruído, glitch, corpo, resto, falha, algoritmo, exaustão, colapso, repetição
Interlúdio da Loka:
Você chama de consciência
o que sobrou depois da queda
chama de memória
o que nunca chegou a acontecer
e ainda quer escuta
num lugar onde o corpo já desligou antes
eu não falo
eu apareço
no intervalo
Apresentação:
Este capítulo não investiga a escuta como técnica — investiga sua impossibilidade como garantia. No bloco acadêmico, a escuta é desmontada como ideal clínico e social, atravessada por Freud, Han, Durkheim e Zuboff, onde o sujeito não sustenta continuidade suficiente para ser “escutado”. No bloco narrativo, a Loka dramatiza o colapso do eu como interrupção corporal — não há história, há remendos. No bloco corrosivo, o texto tensiona a cultura do engajamento, onde escutar foi substituído por responder. Por fim, no bloco clínico, articula-se o sofrimento contemporâneo como excesso de funcionamento, ancorado no DSM-5, CID-11 e Código de Ética do CFP, recusando qualquer promessa de cura ou fechamento.
Referências iniciais:
FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.
HAN, Byung-Chul. Sociedade do cansaço. Petrópolis: Vozes, 2017.
DURKHEIM, Émile. O suicídio. São Paulo: Martins Fontes, 2000.
ZUBOFF, Shoshana. A era do capitalismo de vigilância. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2020.
AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. DSM-5. Washington: APA, 2014.
ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE.
CID-11. Genebra: OMS, 2019.
#mpi
#alokadorole
@alokanorole_persona
#maispertodaignorancia
Acadêmico / Teórico:
A escuta, enquanto conceito clínico e social, parte de um pressuposto raramente questionado: a existência de um sujeito relativamente contínuo, capaz de sustentar narrativas coerentes sobre si. Essa suposição, no entanto, encontra limites estruturais quando confrontada com a própria constituição do psiquismo.
Em Freud (2011), o sujeito já aparece cindido, atravessado por forças inconscientes que operam para além da consciência e da intenção. O que se escuta, portanto, não é o sujeito em si, mas suas formações — sintomas, lapsos, repetições. A escuta nunca acessa um núcleo estável, porque esse núcleo não existe como entidade fixa.
Durkheim (2000), ao tratar do suicídio, desloca ainda mais essa questão: o sofrimento não é apenas individual, mas socialmente estruturado. A escuta, nesse contexto, não capta apenas o sujeito, mas sua inserção em uma rede de normas, expectativas e rupturas coletivas.
Com Byung-Chul Han (2017), o problema se intensifica: na sociedade do desempenho, o sujeito não é mais disciplinado, mas auto explorado. Ele não sofre por repressão, mas por excesso de positividade. A escuta se torna inviável porque não há pausa — apenas funcionamento contínuo.
Zuboff (2020) introduz uma nova camada: a captura da experiência pelo capitalismo de vigilância. O que antes era vivido, agora é transformado em dado. A escuta é substituída por rastreamento, previsão e modulação de comportamento. O sujeito deixa de ser escutado e passa a ser calculado.
Nesse cenário, a própria ideia de escuta clínica entra em tensão. O DSM-5 e a CID-11 organizam categorias diagnósticas que tentam nomear o sofrimento, mas frequentemente operam sobre manifestações já mediadas por um sujeito que se reconstrói discursivamente após rupturas que não são plenamente acessíveis.
O Código de Ética do Psicólogo (CFP) exige respeito à dignidade e singularidade do sujeito. No entanto, essa singularidade não pode ser romantizada como coerência. Ela é atravessada por falhas, interrupções e impossibilidades.
Assim, a escuta não é negada como prática — mas sua idealização como acesso direto ao sujeito é desmontada. O que se escuta é sempre resto.
Narrativo / Simbólico:
Eu não lembro do momento.
E isso não é figura de linguagem.
Não lembro porque não teve momento.
Teve corte.
É estranho explicar isso, porque tudo em volta continua. A luz continua. O som continua. As pessoas continuam. Mas eu não.
Eu apago.
E volto.
E quando volto, já estou falando.
Já estou explicando.
Já estou me organizando.
Como se tivesse acontecido alguma coisa que eu pudesse contar.
Mas não tem história.
Tem buraco.
A cidade não percebeu.
O ônibus continua.
O celular vibra.
A tela acende.
Tudo funcionando.
Menos a continuidade.
Eu olho para as pessoas e elas parecem inteiras.
Mas eu sei que não estão.
Só não tiveram o corte visível.
É tipo aquele filme — Matrix.
Você acha que está dentro.
Mas já saiu e voltou umas dez vezes.
E ninguém avisou.
Ou pior.
Você mesmo avisou.
Mas transformou em narrativa.
“Eu fiquei mal.”
“Eu tive um episódio.”
“Eu não estava bem.”
Mentira organizada.
Não para enganar o outro.
Para sustentar você.
Porque se você admitir que não teve “você” ali…
não sobra ninguém para contar.
E é aí que a Loka entra.
Não como personagem.
Como ruído.
Como aquilo que não coube na história.
Corrosivo / Ensaísta:
Você quer ser escutado.
Mas não sustenta silêncio.
Você quer profundidade.
Mas vive de resposta rápida.
Você quer verdade.
Mas só compartilha versão.
E depois fala de falta de escuta.
Escuta virou conteúdo.
Virou podcast.
Virou thread.
Virou corte de vídeo com legenda.
Você não escuta.
Você consome escuta.
E isso é perfeito para o algoritmo.
Porque escutar de verdade não gera dado.
Responder gera.
Você acha que está se expressando.
Mas está performando previsibilidade.
Curte.
Comenta.
Compartilha.
E chama isso de presença.
Presença é outra coisa.
É quando você não consegue responder.
Mas isso não se engaja.
Então você traduz.
Transforma o que não tinha linguagem
em linguagem otimizada.
E perdeu exatamente o que importava.
Cioran já sabia.
Quanto mais você explica, menos resta.
E aqui você explica tudo.
Até não sobrar nada.
Clínico / Existencial:
O sofrimento contemporâneo não se organiza apenas como sintoma isolado, mas como condição estrutural de funcionamento contínuo. Quadros como ansiedade generalizada, depressão e transtornos relacionados ao estresse, conforme descritos no DSM-5 e na CID-11, frequentemente aparecem associados à incapacidade de interromper.
Não se trata apenas de sofrimento por falta — mas por excesso.
Excesso de estímulo.
Excesso de resposta.
Excesso de exigência de coerência.
O sujeito não colapsa porque parou.
Colapsa porque não consegue parar.
A escuta clínica, nesse contexto, não pode ser compreendida como simples recepção de discurso. Ela se torna um espaço de sustentação do que não se organiza — do que falha, do que interrompe.
O Código de Ética do Psicólogo orienta para a não imposição de valores e para o respeito à singularidade do sujeito. Isso implica reconhecer que nem todo sofrimento será simbolizado, compreendido ou integrado.
Há experiências que permanecem como resto.
Nota de advertência ética: Este texto aborda sofrimento psíquico e experiências de ruptura. Não substitui acompanhamento profissional.
Nota final: Em caso de sofrimento emocional, procure o CVV — 188 / www.cvv.org.br
Referências:
FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.
HAN, Byung-Chul. Sociedade do cansaço. Petrópolis: Vozes, 2017.
DURKHEIM, Émile. O suicídio. São Paulo: Martins Fontes, 2000.
ZUBOFF, Shoshana. A era do capitalismo de vigilância. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2020.
AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. DSM-5. Washington: APA, 2014.
ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. CID-11. Genebra: OMS, 2019.
Fechamento;
“A escuta não falhou — ela nunca teve onde se apoiar, porque o que você chama de sujeito é apenas a versão que chegou depois do corte, e você insiste em chamar de identidade aquilo que é só sobrevivência narrativa tentando esconder que o corpo interrompe antes de qualquer sentido existir.”
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