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QUANDO O OUTRO VIRA MÉTRICA: O SOFRIMENTO QUE NÃO ENCONTRA LIMITE

QUANDO O OUTRO VIRA MÉTRICA: O SOFRIMENTO QUE NÃO ENCONTRA LIMITE


José Antônio Lucindo da Silva

Mais Perto da Ignorância — MPI


Resumo:

Este artigo articula dados recentes sobre saúde mental de adolescentes brasileiros e relatórios globais de felicidade com o acervo teórico do projeto Mais Perto da Ignorância, especialmente a série O TCC Negado. Argumenta-se que o aumento do sofrimento psíquico entre jovens — particularmente entre meninas — não pode ser explicado apenas pelo uso de redes sociais, mas pela transformação da função do outro nas relações mediadas. Sustenta-se que o outro permanece como presença discursiva, porém perde sua incidência como alteridade efetiva, reorganizando o sofrimento em formas de repetição, esvaziamento e continuidade.

Palavras-chave: subjetividade; alteridade; redes sociais; sofrimento psíquico; mediação


Introdução:

Os dados não inauguram o problema.
Eles apenas tornam visível o que já operava.

O levantamento do IBGE revela que meninas apresentam índices significativamente maiores de tristeza persistente, vontade de se ferir e percepção de que a vida não vale a pena. A matéria completa pode ser acessada em:
https://oglobo.globo.com/brasil/noticia/2026/03/25/ibge-numero-de-meninas-que-relatam-tristeza-e-acham-que-a-vida-nao-vale-a-pena-e-o-dobro-do-de-meninos.ghtml  

Paralelamente, o relatório global de felicidade aponta que o uso intensivo de redes sociais está associado à redução do bem-estar, sobretudo entre jovens e com impacto mais evidente entre meninas. A reportagem pode ser consultada em:


https://www.estadao.com.br/saude/redes-sociais-desafiam-o-bem-estar-de-jovens-segundo-relatorio-global-que-avalia-felicidade/ 
 

A leitura imediata organiza o problema como psicológico.
A leitura estrutural exige outro deslocamento.


Desenvolvimento:

No acervo do projeto, especialmente na série:

http://maispertodaignorancia.blogspot.com/2026/03/serie-o-tcc-negado-subjetividade.html  

foi sustentado que o problema contemporâneo não está no excesso de tecnologia, mas na transformação da função do outro.

O outro não desaparece.
Mas deixa de operar como presença.

Essa hipótese, recusada institucionalmente entre 2018 e 2019, retorna agora como evidência empírica.

As redes sociais não eliminam a relação.
Elas reorganizam sua forma.

O que aparece como vínculo é, na prática:

— imagem editada
— discurso ajustado
— resposta previsível
— validação mensurável

O encontro permanece.
Mas não incide.


O corpo como interface

No material já produzido no blog do projeto — disponível em:
https://maispertodaignorancia.blogspot.com/ 

aparece um eixo recorrente: o corpo como ponto de inscrição do sofrimento contemporâneo.

Os dados do IBGE mostram maior insatisfação corporal entre meninas, enquanto o relatório global indica que uma parcela significativa delas consome conteúdos que prejudicam a percepção do próprio corpo.

O corpo deixa de ser experiência.
Passa a ser superfície de avaliação.

A relação com o outro ocorre por:

— curtidas
— visualizações
— comparação constante

O outro aparece.
Mas como métrica.


O falso encontro:

No desenvolvimento do TCC negado, foi sustentado que a relação continua, mas não produz deslocamento.

Essa formulação encontra correspondência direta nos dados atuais.

Os jovens estão mais conectados do que nunca.
Mas apresentam mais sofrimento.

Isso não é contradição.
É coerência estrutural.


O que se instala é:

— encontro sem efeito
— relação sem incidência
— presença sem alteridade


A ausência de tensão:

Na tradição freudiana, o outro é condição de constituição porque introduz limite, frustração e conflito.

Sem isso, não há reorganização psíquica.

O que os dados contemporâneos indicam é a redução dessa incidência.

A interação permanece.
Mas não atravessa.

A relação continua.
Mas não exige deslocamento.

O sofrimento não desaparece.
Ele muda de forma.


Aparece como:

— repetição
— esvaziamento
— continuidade sem transformação


Redes sociais como amplificador

O relatório global diferencia dois modos de uso:

— ativo (troca, comunicação) → maior bem-estar
— passivo (consumo, comparação) → menor bem-estar

Essa distinção confirma a hipótese central do projeto:


as redes não criam o problema.
Elas amplificam.

Amplificam uma estrutura marcada por:

— validação externa
— fragilização dos vínculos
— transformação da presença em representação


O ponto estrutural ignorado:

O dado mais importante do relatório não está nas redes.

Está fora delas.

A qualidade dos vínculos sociais segue como principal determinante do bem-estar.

Isso confirma diretamente o eixo do projeto:

não é a tecnologia o problema central,
mas a transformação da alteridade.


Considerações finais:

O que aparece hoje como crise de saúde mental entre jovens não pode ser reduzido a um fenômeno individual nem explicado exclusivamente pelo uso de redes sociais.

Trata-se de uma reorganização estrutural:


— O outro não desapareceu
— Mas deixou de operar como limite


A relação permanece.
Mas não produz efeito.

E é nesse ponto que o sofrimento se instala:

não na ausência de vínculo,
mas na presença de um vínculo que não atravessa.

O que hoje aparece como dado estatístico
já operava como hipótese.

O que foi recusado como pergunta
retorna como diagnóstico.

Sem fechamento.
Sem reconciliação.

Só permanência.


Referências:

— FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.

— HAN, Byung-Chul. Sociedade do cansaço. Petrópolis: Vozes, 2015.

— IBGE. Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE 2024). Disponível em:

https://oglobo.globo.com/brasil/noticia/2026/03/25/ibge-numero-de-meninas-que-relatam-tristeza-e-acham-que-a-vida-nao-vale-a-pena-e-o-dobro-do-de-meninos.ghtml 

— WORLD HAPPINESS REPORT 2026. Disponível em:

https://www.worldhappiness.report/ed/2026/executive-summary-happiness-and-social-media/ 

— ESTADÃO. Redes sociais desafiam o bem-estar de jovens. Disponível em:

https://www.estadao.com.br/saude/redes-sociais-desafiam-o-bem-estar-de-jovens-segundo-relatorio-global-que-avalia-felicidade/ 

— SILVA, José Antônio Lucindo da. Série — O TCC Negado: subjetividade, tecnologia e o outro que não comparece. Disponível em:

http://maispertodaignorancia.blogspot.com/2026/03/serie-o-tcc-negado-subjetividade.html 

— MAIS PERTO DA IGNORÂNCIA (Blog). Disponível em:

https://maispertodaignorancia.blogspot.com/  


Notas do Autor:

Este texto constitui uma elaboração crítico-ensaística, sem finalidade de orientação ou prescrição, em conformidade com o Código de Ética Profissional do Psicólogo. A inteligência artificial foi utilizada como ferramenta instrumental de organização textual. As análises distinguem descrição factual, interpretação teórica e posição argumentativa.


Mini bio:

José Antônio Lucindo da Silva é psicólogo clínico (CRP 06/172551), com atuação voltada à análise das condições materiais e discursivas do sofrimento psíquico contemporâneo. Desenvolve o projeto Mais Perto da Ignorância, articulando clínica, filosofia e crítica da tecnologia.



O resto está no texto completo. Quem quiser conforto, pode parar por aqui.


#mpi
#alokadorole @alokdorole_personagem #maispertodaignorancia

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