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#ocivilizacaocomecanoNao Crônica — Quando o algoritmo aprende a odiar

#ocivilizacaocomecanoNao Crônica — Quando o algoritmo aprende a odiar




Interlúdio da Loka

Eu fico olhando vocês brigando na tela.
Chamam isso de debate.
Chamam isso de liberdade.

Mas o que eu vejo é só gente gritando
para um algoritmo que aprende rápido
o que dá lucro.


Sai um levantamento do NetLab UFRJ analisando canais misóginos no YouTube.

Dois números chamam atenção.

Há alguns anos existiam 137 canais produzindo conteúdos de desprezo ou controle sobre mulheres.
Eles acumulavam 19 milhões de inscritos.

Agora existem 1, 2 e 3... canais.

Menos produtores.

Mas 23 milhões de inscritos.

O que diminuiu foi o número de canais.
O que cresceu foi o público.

Esse pequeno detalhe revela algo importante sobre a estrutura das plataformas.

O ódio não desaparece.

Ele se concentra.

E quando se concentra, ganha escala.


O limite que funda a cultura:

Na leitura de Sigmund Freud, a cultura nasce de uma operação simples e dolorosa.

A renúncia.

O sujeito aprende que nem todo desejo pode ser realizado.

Existe o outro.

Existe o corpo do outro.

Existe o não.

Freud descreve esse processo em O Mal-Estar na Civilização: a vida social exige que parte da agressividade humana seja contida para que a convivência seja possível.

Sem esse limite simbólico, não existe cultura.

Existe apenas força.

Agora observe o que acontece em certos discursos digitais.

O outro deixa de ser sujeito.

Vira alvo.

O corpo feminino vira categoria pública de julgamento.

Avaliação.
Humilhação.
Controle simbólico.

Quando isso se normaliza, o problema não é apenas moral.

É civilizatório.

Porque a convivência social depende justamente da capacidade de aceitar limites.


O contrato social esquecido:

Muito antes da internet existir, pensadores políticos já haviam percebido isso.

Para Thomas Hobbes, a ausência de limites produz um estado conhecido como guerra de todos contra todos.

No estado de natureza, dizia Hobbes, cada indivíduo busca impor sua vontade.

O resultado é simples.

Violência permanente.

Já Jean-Jacques Rousseau propõe outro caminho.

A sociedade nasce quando os indivíduos aceitam limitar parte da própria liberdade para que a vida coletiva seja possível.

Em outras palavras:

civilização começa quando o desejo encontra um obstáculo e aceita parar.

Esse obstáculo chama-se limite.

Ou, em linguagem simples:

o não.


A economia da atenção:

Mas há um elemento novo nesse cenário.

A infraestrutura digital.

As plataformas não operam segundo critérios morais.

Elas operam segundo métricas.

Tempo de permanência.
Cliques.
Comentários.
Compartilhamentos.

Conflito gera engajamento.

Indignação gera retenção.

Humilhação gera viralização.

A economista Shoshana Zuboff descreveu esse fenômeno como uma nova forma de organização econômica.

A atenção humana virou recurso.

E quando a atenção vira recurso, o que mais a captura tende a ser amplificado.

O algoritmo não cria o ódio.

Mas aprende rapidamente que ele funciona.


O dado que revela o problema

Os números do levantamento mostram isso com clareza.

Menos canais.

Mais audiência.

Isso indica um movimento típico das plataformas:

centralização de influência.

Poucos emissores passam a falar para milhões.

Quando esses emissores operam narrativas de antagonismo, ressentimento ou desprezo, o impacto discursivo cresce exponencialmente.

O problema então deixa de ser apenas individual.

Ele se torna infraestrutural.


Quando o discurso vira clima cultural:

Agora observe o ambiente em que esses conteúdos circulam.

No Brasil, dados recentes indicam cerca de quatro feminicídios por dia.

Isso não significa que um vídeo produz automaticamente uma agressão física.

Mas discursos constroem climas simbólicos.

Eles definem o que é aceitável.

Definem quem pode ser alvo.

Definem quem pode ser humilhado.

Quando a linguagem normaliza o desprezo, a violência simbólica se torna parte do cotidiano.

E quando a violência simbólica se naturaliza, o limite civilizatório começa a enfraquecer.


Bloco 6 — A pergunta que sobra

A internet costuma apresentar o problema como uma disputa de opiniões.

Mas talvez a pergunta seja outra.

Talvez a pergunta seja simples.

O que acontece com uma cultura que desaprende a ouvir o “não”?

Porque civilização não começa com tecnologia.

Não começa com plataformas.

Não começa com algoritmos.

Civilização começa quando um corpo encontra o limite do outro e decide parar.

Sem isso, não existe contrato social.

Não existe cultura.

Existe apenas força organizada em escala industrial.

E agora existe algo novo.

Uma máquina que aprende rápido
o que faz as pessoas clicarem.


Referências

— FREUD, Sigmund. O Mal-Estar na Civilização.

— HOBBES, Thomas. Leviatã.

— ROUSSEAU, Jean-Jacques. Do Contrato Social.

— ZUBOFF, Shoshana. A Era do Capitalismo de Vigilância.

— NETLAB UFRJ. Relatórios sobre misoginia e discurso de ódio em plataformas digitais.

— Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Anuário Brasileiro de Segurança Pública.

— ONU Mulheres / UNODC. Global Study on Homicide.


Notas do Autor:

José Antônio Lucindo da Silva — Psicólogo (CRP 06/172551).
Psicólogo clínico formado pela UNIARA e pós-graduado em Psicologia Clínica com ênfase em Psicanálise. Desenvolve o projeto Mais Perto da Ignorância, dedicado à análise crítica das relações entre subjetividade, tecnologia e cultura.

Este texto é uma elaboração crítico-ensaística produzida com auxílio instrumental de inteligência artificial, em conformidade com o Código de Ética Profissional do Psicólogo (CFP). Não se trata de orientação clínica ou aconselhamento.


#ocivilizacaocomecanoNao
#alokadorole
@alokdorole_personagem
#maispertodaignorancia

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