O FUTURO É SEMANA QUE VEM — E O PRESENTE VIROU LUGAR DE RESPOSTA
A frase circula com facilidade:
“o futuro é semana que vem”. Ela aparece limpa, objetiva, quase elegante. Não exige esforço para ser entendida. Não pede tempo. Não pede elaboração. Ela se instala.
E talvez seja exatamente isso que a torna eficiente.
Porque não se trata de uma descrição do tempo. Trata-se de uma reorganização dele.
Quando o futuro é colocado tão próximo assim, o presente deixa de funcionar como espaço de experiência e passa a operar como espaço de resposta. Não é mais onde algo acontece — é onde algo precisa ser entregue. O tempo deixa de ser vivido e passa a ser cobrado.
O problema é que essa cobrança não nasce da materialidade.
Ela nasce do discurso.
Os dados que sustentam essa narrativa existem. E são reais.
Relatórios do INEP, cruzados com dados do PISA da OCDE, mostram queda no desempenho em matemática, leitura e ciências em diversos contextos, inclusive no Brasil. Estudos recentes associam o uso intensivo de celulares a pior desempenho acadêmico e aumento de sensação de solidão entre adolescentes. Não há causalidade fechada, mas há correlação consistente.
O próprio campo científico insiste na nuance: não é a tecnologia em si, mas o modo de uso, a quantidade de exposição, o ambiente em que ela se insere.
Mas o discurso não trabalha com nuance.
Ele simplifica.
Ele recorta.
Ele transforma correlação em impressão de causalidade.
Então a equação se monta com rapidez:
uso de tecnologia → queda de desempenho
queda de desempenho → problema
problema → solução urgente
E, nesse ponto, o tempo entra.
Não como variável.
Mas como pressão.
O que aparece como “semana que vem” não é o futuro enquanto experiência. É o futuro enquanto exigência antecipada. Uma forma de reorganizar o presente como dívida.
Porque se o futuro já está aqui, ou prestes a chegar, então o presente já está atrasado.
Só que há um detalhe que o discurso não sustenta:
o corpo não acompanha essa velocidade.
O tempo biológico não mudou.
24 horas continuam sendo 24 horas.
A aprendizagem continua exigindo concentração, repetição, erro, elaboração.
A vida continua sendo vivida no intervalo entre acontecimentos, e não na antecipação deles.
Aqui surge a fricção.
De um lado, o tempo vivido: lento, limitado, atravessado por condições materiais desiguais.
Do outro, o tempo discursivo: acelerado, antecipado, projetado como se fosse universal.
Entre os dois, o sujeito.
E esse sujeito não deixa de existir.
Mas muda de posição.
Ele não vive o tempo.
Ele responde a ele.
A resposta se organiza dentro de um ambiente específico: redes informacionais, plataformas digitais, sistemas de visibilidade. Um espaço que não opera por experiência, mas por probabilidade.
Algoritmos não sabem o que é uma semana.
Eles calculam padrões.
Eles projetam tendências.
Eles distribuem visibilidade com base em recorrência estatística.
Mas quando essa lógica é convertida em linguagem — quando vira manchete, palestra, narrativa — ela retorna ao sujeito como realidade.
E é nesse retorno que o descolamento se instala.
Uma semana projetada não é uma semana vivida.
Mas passa a ser tratada como se fosse.
O resultado não é apenas confusão.
É reorganização da percepção.
O sujeito deixa de se medir pelo que é possível dentro de suas condições materiais e passa a se medir pelo que circula como exigência.
Não importa se aquilo é realizável.
Importa se está sendo cobrado.
É nesse ponto que o cansaço deixa de ser apenas físico.
Ele se torna estrutural.
Não é o excesso de tarefas que esgota.
É a impossibilidade de coincidir com o que é exigido.
A leitura de Byung-Chul Han encontra aqui um terreno concreto. A sociedade do desempenho não impõe limites externos — ela internaliza a exigência. O sujeito se cobra. Se mede. Se ajusta.
Mas agora com uma diferença:
o tempo foi comprimido discursivamente.
E isso altera a forma como o desejo se organiza.
Em Sigmund Freud, o desejo não se fixa. Ele se desloca, substitui, contorna. Não há objeto capaz de satisfazê-lo de forma definitiva.
Então o que o discurso faz é oferecer substitutos.
Curtidas.
Engajamento.
Visibilidade.
Não como solução.
Mas como sustentação momentânea.
E é aqui que o desejo deixa de operar como busca e passa a operar como demanda.
Demanda por presença.
Demanda por resposta.
Demanda por performance.
Essa demanda não nasce do corpo.
Ela nasce do ambiente discursivo.
E esse ambiente passa a funcionar como instância de validação.
É nesse ponto que a formulação de Jacques Lacan — “o desejo do homem é o desejo do Outro” — sofre uma torção.
O Outro não desapareceu.
Ele mudou de forma.
O que antes era olhar, reconhecimento, presença simbólica, agora aparece como:
métrica
alcance
algoritmo
circulação
Mas há uma diferença decisiva.
Esse Outro não deseja.
Não reconhece.
Não tem falta.
E, ainda assim, o sujeito continua operando como se houvesse ali uma instância capaz de validar sua existência.
Então o que se instala não é apenas uso.
É projeção.
O humano idealiza esse espaço como lugar de reconhecimento.
Mas o que retorna não é reconhecimento.
É cálculo.
E quanto mais o retorno falha em sustentar o desejo, mais o sujeito responde.
Mais ele aparece.
Mais ele performa.
Não para resolver a tensão.
Mas para mantê-la circulando.
Nesse ponto, a tecnologia deixa de ser ferramenta e passa a funcionar como ambiente.
Ferramenta implica limite, uso, finalidade.
Ambiente implica condição.
E quando vira condição, não é mais necessário convencer.
Basta organizar o cenário.
O sujeito não é obrigado.
Ele responde.
E isso fecha o circuito:
o futuro é antecipado → gera ansiedade
a ansiedade busca amarração → vira demanda
a demanda encontra o ambiente → vira performance
a performance gera retorno → reforça o circuito.
Mas nada disso resolve o ponto inicial.
Porque o desejo não se fixa.
Porque o tempo não coincide.
Porque a materialidade não acompanha.
Então o sujeito continua.
Respondendo.
Ajustando.
Tentando alcançar um ponto que se desloca o tempo todo.
E talvez seja esse o ponto mais incômodo.
O futuro que se anuncia não é um lugar.
É um operador.
Ele não chega.
Ele funciona.
Funciona como pressão.
Como referência.
Como medida de insuficiência.
E o presente, nesse arranjo, deixa de ser vivido.
Ele passa a ser ocupado por respostas.
Não é a tecnologia que determina isso.
Mas o modo como o discurso a organiza.
E enquanto essa organização não for tensionada, o efeito permanece:
o sujeito não vive no tempo.
Ele tenta alcançá-lo.
E falha.
Notas do Autor:
José Antônio Lucindo da Silva é psicólogo clínico (CRP 06/172551), formado pela UNIARA e com pós-graduação em Psicologia Clínica com ênfase em Psicanálise. Atua na escuta de adultos, com foco em sofrimento psíquico, discurso e angústia contemporânea. Desenvolve o projeto Mais Perto da Ignorância, voltado à análise crítica das relações entre subjetividade, tecnologia e condições materiais de existência.
Este texto é uma elaboração crítica-ensaística produzida com auxílio instrumental de inteligência artificial, em conformidade com o Código de Ética Profissional do Psicólogo (CFP). Não se trata de aconselhamento, orientação ou prescrição. A função aqui é analítica e reflexiva, distinguindo descrição, interpretação e posicionamento, mantendo a IA como ferramenta e não como instância de escuta clínica.
Referências:
— BRASIL. Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP). Resultados do PISA 2022. Brasília: INEP, 2023.
— OECD. PISA 2022 Results. Paris: OECD Publishing, 2023.
— BRASIL. Agência Brasil. Uso excessivo de dispositivos digitais afeta desempenho de alunos, aponta PISA. 2023.
— FERNANDES, Léa da Cruz Fagundes. Tecnologias digitais e aprendizagem. Porto Alegre: UFRGS.
— HAN, Byung-Chul. Sociedade do Cansaço. Petrópolis: Vozes, 2017.
— FREUD, Sigmund. Além do Princípio do Prazer. São Paulo: Companhia das Letras.
— LACAN, Jacques. O Seminário, Livro 11: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar.
— CASTELLS, Manuel. A Sociedade em Rede. São Paulo: Paz e Terra.
#mpi
#alokadorole @alokdorole_personagem #maispertodaignorancia
Comentários
Enviar um comentário