ENTRE A IMAGEM E O ALGORITMO: QUANDO O LIMITE DEIXA DE SER RECONHECIDO E A REALIDADE VIRA INTERFACE
José Antônio Lucindo da Silva
Psicólogo Clínico — CRP 06/172551
Projeto: Mais Perto da Ignorância (MPI)
Data: 25 mar. 2026
RESUMO:
O presente artigo examina a circulação de imagens em ambientes digitais, a padronização discursiva mediada por sistemas de inteligência artificial e seus efeitos na organização da experiência contemporânea. Parte-se da hipótese de que não se trata de um aumento quantitativo do uso tecnológico, mas de uma reorganização das condições materiais de existência. A imagem deixa de operar como registro e passa a funcionar como dado circulante; a linguagem deixa de se constituir como elaboração e passa a ser antecipada por sistemas técnicos; o limite, embora ainda operante no corpo, deixa de ser reconhecido como referência organizadora. Sustenta-se que o sujeito não perde o real, mas deixa de se orientar por ele.
Palavras-chave: materialidade; mediação; inteligência artificial; subjetividade; limite
1 INTRODUÇÃO:
O corpo não foi suspenso.
O tempo não foi suspenso.
O desgaste não foi suspenso.
Entretanto, tais elementos deixaram de operar como referência dominante na organização da experiência. No lugar, emergem formas mediadas de relação com o mundo, estruturadas por imagens, linguagem padronizada e sistemas algorítmicos.
A psicologia científica, conforme Shaughnessy, Zechmeister e Zechmeister (2012), exige distinção entre descrição, interpretação e posição teórica. Este artigo se organiza a partir dessa distinção, recusando a redução do fenômeno a categorias comportamentais isoladas.
2 DESCRIÇÃO DO FENÔMENO:
Observa-se a intensificação da circulação de imagens em redes digitais, acompanhada da ampliação de sua capacidade de manipulação. A imagem deixa de depender do acontecimento que a originou e passa a existir como unidade independente, suscetível a reprodução, edição e recontextualização.
Paralelamente, sistemas de inteligência artificial operam na organização da linguagem, sugerindo, completando e estruturando enunciados. Esse processo reduz o esforço necessário à produção discursiva, introduzindo padrões recorrentes de expressão.
No plano da experiência, mantém-se a presença do corpo, do tempo e do limite material. Contudo, tais elementos passam a coexistir com formas mediadas de organização que não exigem interrupção.
3 INTERPRETAÇÃO
A mediação tecnológica não atua apenas como ferramenta, mas como estrutura organizadora da experiência. A relação direta com o mundo é progressivamente substituída por interfaces que filtram e organizam a percepção.
Nesse deslocamento, a imagem deixa de registrar e passa a circular; a linguagem deixa de elaborar e passa a antecipar; o limite deixa de ser reconhecido como referência.
Não se trata da eliminação do real, mas da alteração do seu estatuto na experiência do sujeito.
4 MATERIALIDADE E LIMITE:
Freud (1930) localiza o sofrimento psíquico nas tensões entre corpo, mundo e outro. Marx (2004), por sua vez, sustenta que a consciência é determinada pelas condições materiais de existência.
No contexto contemporâneo, tais condições incluem conectividade contínua, disponibilidade permanente de estímulo e redução das interrupções. O corpo permanece submetido a limites, mas esses limites deixam de orientar a organização da experiência.
O que se observa não é a ausência de limite, mas a sua perda de função como referência reconhecida.
5 POSIÇÃO TEÓRICA:
A hipótese sustentada é que o fenômeno descrito não se reduz a dependência tecnológica, mas corresponde a um funcionamento no qual a mediação substitui a experiência como eixo organizador.
Nesse funcionamento, o sujeito não necessita do outro como condição de continuidade, nem do limite como operador de interrupção. O que se estabelece é um regime de repetição, sustentado por fluxo contínuo e ausência de elaboração.
6 CONSIDERAÇÕES FINAIS:
A análise proposta não busca oferecer solução ou orientação. Limita-se a descrever e tensionar um modo de funcionamento no qual o limite permanece operante no plano material, mas deixa de ser reconhecido como referência.
O sujeito continua inserido em um corpo que impõe restrições, mas passa a operar em um sistema que não exige sua interrupção.
REFERÊNCIAS:
FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.
MARX, Karl. Manuscritos econômico-filosóficos. São Paulo: Boitempo, 2004.
SHAUGHNESSY, John J.; ZECHMEISTER, Eugene B.; ZECHMEISTER, Jeanne S. Metodologia de pesquisa em psicologia. Porto Alegre: AMGH, 2012.
NOTAS DO AUTOR — MPI:
Este texto constitui uma elaboração crítico-ensaística que distingue descrição, interpretação e posição teórica. Não oferece aconselhamento, orientação ou prescrição psicológica, estando em conformidade com o Código de Ética Profissional do Psicólogo (CFP).
A inteligência artificial foi utilizada exclusivamente como ferramenta instrumental de organização textual. Não se trata de prática clínica, nem de substituição de escuta profissional.
MINI BIO:
José Antônio Lucindo da Silva é psicólogo clínico (CRP 06/172551), com atuação voltada à análise do sofrimento psíquico a partir das condições materiais, discursivas e tecnológicas contemporâneas.
Nada foi resolvido.
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