A mente virou código, mas o corpo continua pagando a conta
Introdução — a falha da escuta:
A cena se repete: fala-se de saúde mental como se fosse um problema de interpretação, de discurso, de narrativa individual.
Mas o que aparece não é falta de explicação — é excesso de mediação.
A escuta falha não porque ninguém fala.
Falha porque tudo já chega organizado, classificado, nomeado antes de ser vivido.
O sujeito não fala.
Ele preenche categorias.
E quando tudo vira categoria, ninguém escuta mais nada.
Fundamentação teórica:
Descrição factual:
Os sistemas diagnósticos contemporâneos, como o DSM-5, organizam o sofrimento psíquico em classificações estruturadas por critérios observáveis, padronizados e replicáveis .
Na neurociência, o funcionamento mental é associado a circuitos, neurotransmissores e padrões de ativação cerebral, articulando comportamento e biologia .
Na psicanálise, por outro lado, o sofrimento não se reduz a categorias fixas: ele emerge da singularidade da experiência, mediado pela linguagem e pela transferência .
Interpretação teórica:
O que se estabelece aqui não é apenas um avanço técnico — é uma mudança de regime.
O sofrimento deixa de ser algo vivido para ser algo enquadrado.
Freud já apontava que a civilização impõe renúncia ao sujeito, produzindo mal-estar estrutural.
Bauman atualiza: agora o sofrimento não vem do excesso de ordem, mas da instabilidade e da liberdade sem sustentação .
Han radicaliza: vivemos a passagem das coisas para as “não-coisas” — dados, informações, estímulos .
A subjetividade vira fluxo informacional.
Opinião argumentativa:
Não é que o diagnóstico esteja errado.
É que ele se tornou o próprio modo de existir.
Crítica do discurso midiático e digital:
O discurso contemporâneo sobre saúde mental repete um padrão:
– tudo pode ser nomeado
– tudo pode ser explicado
– tudo pode ser otimizado
Isso produz uma ilusão de domínio.
Mas o que está sendo vendido não é compreensão —
é organização do incômodo.
A linguagem técnica substitui a experiência.
O sujeito aprende a dizer “eu tenho isso”,
mas não sabe mais dizer “isso está acontecendo comigo”.
A IA entra como amplificador disso:
Ela reorganiza discurso.
Não escuta.
Não compreende.
Não sofre.
Mas o sujeito interpreta a resposta como escuta.
E aí acontece o deslocamento central do nosso tempo:
o eco vira alteridade.
Clínica do real
O corpo não acompanha essa sofisticação discursiva.
Ele responde de forma mais antiga:
– insônia
– fadiga
– ansiedade difusa
– compulsão
– esgotamento
A neurociência mostra que o cérebro responde a estímulos repetidos, pressão e sobrecarga cognitiva com alterações reais no funcionamento .
A sociologia mostra que as condições materiais — trabalho precário, instabilidade, hiper conectividade — reorganizar o cotidiano.
A psicanálise mostra outra coisa:
o sujeito não desaparece.
Ele retorna como sintoma.
E quanto mais o discurso tenta organizar,
mais o corpo desorganiza.
A promessa contemporânea é simples:
“se você entender, você melhora”
Mas o que aparece é outra coisa:
quanto mais se entende,
menos se sustenta.
Não porque falta conhecimento.
Mas porque o problema nunca foi só cognitivo.
Foi material.
Foi corporal.
Foi social.
E isso não cabe em interface.
No fim, o que resta é isso:
o sujeito continua falando
o sistema continua respondendo
e ambos continuam sem se encontrar.
Referências:
AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. DSM-5: Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais. Porto Alegre: Artmed, 2014.
FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização.
HAN, Byung-Chul. Não-coisas: reviravoltas do mundo da vida. Petrópolis: Vozes, 2022.
HAN, Byung-Chul. Morte e alteridade. Petrópolis: Vozes, 2020.
KANDEL, Eric. Princípios de Neurociências.
FREUD, Sigmund. Fundamentos da clínica psicanalítica.
BAUMAN, Zygmunt. O mal-estar da pós-modernidade.
CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. Guia para uma prática ética e responsável: Inteligência Artificial na Psicologia.
Notas do Autor:
José Antônio Lucindo da Silva — Psicólogo CRP 06/172551
Este texto é uma elaboração crítico-ensaística produzida com auxílio instrumental de IA, em conformidade com o Código de Ética do Psicólogo (CFP). Não se trata de orientação, aconselhamento ou prescrição. A análise distingue descrição factual, interpretação teórica e opinião argumentativa. A IA é compreendida como ferramenta técnico-discursiva, sem escuta, intenção ou responsabilidade clínica. O objetivo do texto é tensionar estruturas discursivas contemporâneas, não oferecer soluções.
#alokadorole
@alokdorole_personagem
#maispertodaignorancia
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