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A máquina que escreve e o pesquisador que finge pensar.

A máquina que escreve e o pesquisador que finge pensar


Palavras-gírias: 

paper-fantasma, produtivismo, robô-autor, currículo-lattes inflado, ciência-de-copiar-colar, performance acadêmica, algoritmo-assistente, prestígio estatístico.


Interlúdio da Loka

Eu avisei.
Vocês queriam acelerar o pensamento.

Agora o pensamento virou download.

O artigo está pronto.
A dúvida não.


A máquina que escreve e o pesquisador que finge pensar

Saiu em O Globo. Assinatura elegante, tom de reportagem científica, aquela pedagogia tranquila de quem explica um problema novo para um público curioso.

Pesquisadores estariam preocupados com o uso indiscriminado de inteligência artificial na redação científica.

Preocupados.

Bonito isso.

Demoraram só alguns séculos para notar que quando você transforma conhecimento em linha de produção, alguém inevitavelmente tenta automatizar a fábrica.

Mas vamos com calma.

Porque a história não começa com inteligência artificial.

A história começa no momento em que o conhecimento deixa de ser uma aventura intelectual meio bagunçada e passa a funcionar como sistema de prestígio mensurável.

Publicar virou moeda.
Citação virou capital simbólico.
Índice de impacto virou ranking de valor existencial.

E aí, surpresa: alguém percebe que um algoritmo consegue escrever um artigo inteiro em poucos segundos.

Escândalo.

Quase como se ninguém tivesse percebido que o próprio sistema acadêmico já estava funcionando como fábrica de texto muito antes da máquina chegar.


O pequeno problema das referências que nunca existiram

Segundo a reportagem, cresce o número de trabalhos científicos redigidos com auxílio de modelos de linguagem.

Alguns apresentam problemas curiosos:

referências inexistentes
autores que nunca publicaram
bibliografias fantasma.

O algoritmo escreve bonito.

Mas às vezes inventa um pesquisador.

Isso ganhou até nome técnico.

Alucinação de IA.

Bonito também.

A máquina imagina.
A academia finge.
E o PDF continua circulando.

Porque, sejamos honestos: boa parte da ciência contemporânea já estava operando dentro de uma lógica de produção textual contínua.

Não necessariamente de pensamento contínuo.

De texto.

Relatório.
Artigo.
Projeto.
Parecer.
Capítulo.
Resumo expandido.

A engrenagem gira.


O detalhe que a matéria menciona de passagem

A reportagem faz uma observação discreta, quase tímida:

o sistema acadêmico moderno vive sob pressão permanente de produtividade.

Publicar ou desaparecer.

Um artigo por ano já não basta.

Agora são três.

Cinco.

Dez.

Orientações, relatórios, projetos de financiamento, bancas, pareceres.

E no meio disso tudo aparece uma ferramenta que faz algo extremamente sedutor:

escrever rápido.

Muito rápido.

Rápido demais.

E de repente alguém descobre que um algoritmo consegue produzir em quinze segundos aquilo que um pesquisador levaria dois dias tentando organizar.

Pronto.

A tentação estava montada.


Freud já tinha avisado, mas ninguém lê Freud nas reuniões de departamento

Se alguém acha que isso é apenas uma questão tecnológica, vale lembrar um sujeito antigo chamado Sigmund Freud.

No ensaio O mal-estar na civilização, Freud explica algo simples: toda organização social exige renúncia.

Tempo.

Energia.

Disciplina.

A civilização funciona pedindo que o indivíduo abra mão de parte da própria espontaneidade para sustentar uma ordem coletiva.

Agora imagine uma civilização científica que exige produção constante de pensamento formalizado.

Mas oferece em troca algo curioso:

planilhas de produtividade.
ranking de impacto.
pontuação curricular.

Freud talvez resumisse assim:

A civilização científica promete conhecimento, mas cobra sofrimento administrativo.


Bauman e a liquefação do saber

Décadas depois, Zygmunt Bauman descreveu uma mudança estrutural interessante.

Instituições começaram a perder estabilidade.

As carreiras ficaram mais precárias.

As responsabilidades passaram a recair cada vez mais sobre o indivíduo.

No mundo acadêmico isso se traduz de forma muito concreta.

O pesquisador precisa:

produzir constantemente
competir constantemente
atualizar constantemente

E quando um sistema exige produção infinita, o indivíduo começa a procurar ferramentas que tornem essa sobrevivência possível.

Às vezes com café.

Às vezes com ansiedade.

Agora, aparentemente, com algoritmos redatores.


Byung-Chul Han e o pesquisador como empreendedor de si

Quem talvez descreva melhor essa fase seja Byung-Chul Han.

Na Sociedade do Cansaço, Han argumenta que o mundo contemporâneo abandonou o modelo disciplinar clássico.

Hoje ninguém precisa mandar você trabalhar.

Você mesmo se explora.

Você mesmo se cobra.

Você mesmo se transforma em projeto permanente de desempenho.

O pesquisador moderno virou algo curioso:

um empreendedor de si mesmo dentro do mercado acadêmico.

E quando aparece uma ferramenta capaz de acelerar o desempenho textual…

bom…

No resto da história vocês já conseguem imaginar.


A ironia de Shoshana Zuboff

Aqui entra uma personagem essencial para entender o momento atual.

Shoshana Zuboff.

Ela descreve o capitalismo contemporâneo como um sistema que transforma comportamento humano em matéria-prima.

Plataformas coletam dados.
Modelos analisam padrões.
Empresas monetizam previsões.

Agora observe a ironia.

Os modelos de linguagem usados hoje para escrever textos científicos foram treinados justamente com milhões de textos humanos produzidos ao longo de décadas.

Artigos.

Livros.

Teses.

Relatórios.

Ou seja:

a máquina aprende com o que a civilização escreveu.

E depois devolve isso reorganizado.

É quase um eco estatístico da própria linguagem humana.

Um espelho.

Só que muito mais rápido.


Kierkegaard e a coisa que algoritmo nenhum faz

Muito antes de computadores existirem, Søren Kierkegaard já tinha descrito algo que nenhuma máquina consegue reproduzir.

Pensar.

Pensar não é apenas organizar frases.

Pensar é enfrentar possibilidade.

Pensar envolve risco.

Dúvida.

Angústia.

É aquele momento em que alguém percebe que talvez esteja errado.

Ou que precisa apagar três páginas inteiras e começar de novo.

Esse momento não aparece em métricas.

Não aparece em indicadores de impacto.

E definitivamente não aparece em textos gerados automaticamente.


O problema talvez não seja a máquina

A reportagem sugere que a inteligência artificial pode comprometer a integridade científica.

Talvez.

Mas a Loka do Rolê gosta de fazer uma pergunta meio incômoda:

e se o problema não for a máquina?

E se o problema for o sistema que transformou pensamento em linha de produção textual?

Porque quando um ambiente exige produção constante de texto, alguém inevitavelmente vai tentar automatizar a escrita.

Não por maldade.

Por sobrevivência.


Um segredo meio constrangedor da ciência

Existe um detalhe que raramente aparece nas reportagens sobre ciência.

Boa parte da pesquisa real não acontece enquanto alguém escreve um artigo.

Ela acontece antes.

Na leitura confusa.

Na dúvida.

No experimento que falha.

No parágrafo apagado.

Na frase que não encaixa.

O artigo publicado é apenas o rastro organizado de um processo muito mais bagunçado.

A inteligência artificial consegue escrever o rastro.

Mas ela não vive o processo.


O sistema aplaude

Agora imagine a cena.

A máquina escreve.
O currículo cresce.
O pesquisador publica.

O sistema aplaude.

Porque o sistema não mede dúvida.

O sistema mede produção.

Planilhas adoram texto.

Métricas adoram números.

E nada cresce mais rápido do que texto produzido em escala industrial.


Interlúdio final da Loka:

A máquina escreve.

O currículo infla.

O pesquisador entrega.

A universidade contabiliza.

O ranking sobe.

Pensar mesmo…

Isso ficou para quem ainda suporta o silêncio entre uma frase e outra.


Referências:

— Freud, Sigmund. O mal-estar na civilização.

— Bauman, Zygmunt. O mal-estar da pós-modernidade.
— Han, Byung-Chul. Sociedade do Cansaço.

— Zuboff, Shoshana. A Era do Capitalismo de Vigilância.
— Kierkegaard, Søren. O Conceito de Angústia.

— O Globo — Rafael Garcia (04/03/2026).
https://oglobo.globo.com/brasil/noticia/2026/03/04/uso-indiscriminado-de-ia-para-redacao-cientifica-preocupa-pesquisadores.ghtml


Notas do Autor:

José Antônio Lucindo da Silva é psicólogo clínico (CRP 06/172551), formado em Psicologia pela UNIARA e pós-graduado em Psicologia Clínica com ênfase em Psicanálise. Atua na escuta clínica de adultos e desenvolve o projeto ensaístico Mais Perto da Ignorância, dedicado à análise crítica das relações entre subjetividade, tecnologia, trabalho e cultura contemporânea.

Este texto constitui uma elaboração crítico-ensaística produzida com auxílio instrumental de inteligência artificial, utilizada como ferramenta de organização textual. O conteúdo respeita o Código de Ética Profissional do Psicólogo (CFP) e não constitui aconselhamento psicológico, orientação clínica ou prescrição.

A função do texto é descrever, interpretar e problematizar fenômenos sociais e discursivos. A persona Loka do Rolê opera como recurso narrativo de observação crítica da realidade, sem oferecer soluções ou promessas de melhoria.

#alokadorole
@alokdorole_personagem
#maispertodaignorancia

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