A CONFIANÇA QUE NÃO ENCONTRA RESPOSTA: FUNCIONAMENTO, NARCISISMO E AUSÊNCIA DE OUTRO NA ERA DO DESEMPENHO
A CONFIANÇA QUE NÃO ENCONTRA RESPOSTA: FUNCIONAMENTO, NARCISISMO E AUSÊNCIA DE OUTRO NA ERA DO DESEMPENHO
Resumo:
Este artigo analisa a emergência de uma forma contemporânea de autoconfiança marcada não pela consolidação subjetiva, mas pela ausência de mediação simbólica e relacional. Partindo da noção de “confiança tóxica” difundida no discurso midiático, propõe-se que tal fenômeno não representa fortalecimento do eu, mas expressão de um funcionamento psíquico esvaziado de alteridade. Articulam-se as contribuições de Freud, Durkheim, Bauman, Han, Zuboff e André Green para demonstrar que o declínio da dúvida e da hesitação não indica resolução de conflitos, mas colapso das referências que sustentavam o vínculo e o pensamento. O sujeito contemporâneo não afirma porque sabe, mas porque não encontra resistência suficiente para duvidar. Nesse cenário, a repetição substitui a elaboração, a exposição substitui o encontro e o outro é reduzido a métrica. A confiança, assim, não cresce: ela apenas se torna desnecessária enquanto operação psíquica.
Palavras-chave: subjetividade; narcisismo; desempenho; ausência de alteridade; cultura digital.
1. Introdução — não há escuta, há funcionamento:
Eu começo pelo corpo.
Não por escolha estética, mas por exigência metodológica.
Se não começa no corpo, começa errado.
O corpo cansado, a atenção interrompida, a incapacidade de sustentar uma linha contínua de pensamento sem desvio — isso não é um detalhe. É condição material.
E dessa condição emerge um traço que, à primeira vista, parece força: todo mundo afirma. Todo mundo sustenta uma posição. Todo mundo parece saber.
Mas não se trata de saber.
Trata-se da ausência de algo que antes operava como limite.
A dúvida desaparece não porque foi resolvida, mas porque deixou de ser necessária.
E quando a dúvida não se impõe, o pensamento não se organiza.
O que aparece, então, não é convicção.
É funcionamento.
2. Descrição factual — a confiança como fenômeno discursivo:
O discurso midiático recente aponta para uma mudança de postura: a chamada “síndrome do impostor” cede lugar a uma autoconfiança ostensiva, marcada por afirmações categóricas, opiniões performáticas e aconselhamentos não solicitados.
A matéria da Folha de S.Paulo identifica:
— aumento de posturas afirmativas
— valorização da exposição confiante
— redução de hesitação pública
— fascínio por figuras que performam certeza
Essa descrição não é interpretação.
É dado.
3. Interpretação teórica — quando o conflito deixa de operar:
Sigmund Freud não descreveu um sujeito orientado.
Descreveu um sujeito dividido.
O desejo, em Freud, não é um guia.
É um impasse.
Ele não resolve.
Ele não aponta.
Ele insiste.
E justamente por isso precisava de mediação:
Lei.
Cultura.
Outro.
Sem esses elementos, o desejo não se organiza.
Ele se dispersa.
Émile Durkheim, ao tratar da anomia, já indicava que a ausência de regulação não produz liberdade, mas desorientação.
A perda de referência não emancipa.
Desorganiza.
Zygmunt Bauman amplia esse quadro ao descrever uma modernidade em que nada se fixa.
Sem fixação, não há sustentação.
E sem sustentação, a escolha não se apresenta como potência, mas como peso.
4. Técnica e estrutura — o comportamento como matéria-prima:
Shoshana Zuboff demonstra que a experiência humana foi capturada como dado.
O comportamento deixa de ser expressão.
Torna-se recurso.
Nesse cenário, não é necessário compreender.
Basta prever.
Byung-Chul Han descreve a passagem de uma sociedade disciplinar para uma sociedade do desempenho.
O sujeito não é mais proibido.
É incentivado.
E esse incentivo contínuo elimina a pausa necessária ao conflito.
Sem pausa, não há elaboração.
5. O ponto de inflexão — quando o desejo não serve mais:
O desejo, enquanto estrutura, é lento.
Não responde à velocidade da demanda contemporânea.
Ele não entrega.
Não performa.
Não produz imediatamente.
E por isso é deslocado.
No lugar, entra a demanda:
Clara.
Mensurável.
Imediata.
“Seja.”
“Mostre.”
“Prove.”
6. André Green e o narcisismo de morte:
André Green oferece aqui um operador decisivo.
Quando o outro deixa de operar como alteridade, o investimento libidinal se retrai.
Não há mais relação.
Há fechamento.
O sujeito não se constitui no vínculo.
Ele se repete.
E essa repetição não constrói.
Mantém.
7. O outro como métrica:
O outro não desaparece empiricamente.
Ele é reconfigurado.
De presença, passa a ser:
— audiência
— dado
— validação
O encontro cede lugar à medição.
E onde há medição, não há escuta.
8. A confiança como efeito, não como causa:
A chamada “confiança tóxica” não é origem.
É resultado.
O sujeito não afirma porque confia.
Afirma porque não encontra resistência suficiente para duvidar.
E sem resistência, não há conflito.
Sem conflito, não há elaboração.
Sem elaboração, não há pensamento.
9. Clínica do real — funcionamento sem vínculo:
No plano do corpo, isso se traduz como:
— exaustão contínua
— ansiedade sem objeto definido
— sensação difusa de vazio
— incapacidade de sustentar silêncio
Mas o funcionamento permanece.
O sujeito segue operando.
Sem interrupção.
Sem retorno.
10. Conclusão — não é excesso, é ausência:
Não houve crescimento da confiança.
Houve esvaziamento do campo onde ela operava.
A confiança, enquanto operação psíquica, depende de um outro que resista.
Sem esse outro, qualquer afirmação parece sólida.
Mesmo quando não é.
Referências:
http://maispertodaignorancia.blogspot.com/2026/03/a-confianca-que-grita-nao-e-forca-e.html
— FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
— DURKHEIM, Émile. O suicídio. São Paulo: Martins Fontes, 2000.
— BAUMAN, Zygmunt. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Zahar, 2001.
— HAN, Byung-Chul. Sociedade do cansaço. Petrópolis: Vozes, 2017.
— ZUBOFF, Shoshana. A era do capitalismo de vigilância. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2020.
— GREEN, André. A loucura privada. São Paulo: Escuta, 1988.
— FOLHA DE S.PAULO. A confiança tóxica tomou conta das redes sociais com influenciadores pouco qualificados. Disponível em:
https://www1.folha.uol.com.br/equilibrio/2026/03/a-confianca-toxica-tomou-conta-das-redes-sociais-com-influenciadores-pouco-qualificados.shtml
Notas do Autor:
José Antônio Lucindo — Psicólogo CRP 06/172551
Este texto é uma elaboração crítico-ensaística fundamentada em Psicologia, Filosofia e Sociologia, em conformidade com o Código de Ética Profissional do Psicólogo (CFP).
Não se trata de aconselhamento ou intervenção clínica.
A Inteligência Artificial é utilizada como ferramenta instrumental de organização textual, sem função de escuta ou prática psicológica.
A análise distingue descrição factual, interpretação teórica e posicionamento crítico, com foco nas condições materiais e discursivas que estruturam o fenômeno.
#mpi
#alokadorole
@alokdorole_personagem
#maispertodaignorancia
Comentários
Enviar um comentário