A CONFIANÇA QUE GRITA NÃO É FORÇA — É FALTA DE OUTRO
30/03/2026 — America/Sao_Paulo
Introdução — ninguém está escutando, só respondendo:
Eu não começo pelo conceito.
Eu começo pelo corpo.
O corpo que não aguenta mais sustentar nada por muito tempo.
O dedo que sobe a tela antes da frase terminar.
O olho que já está na próxima coisa antes de entender a anterior.
Isso não é distração.
É condição.
E dessa condição nasce uma coisa estranha:
Todo mundo fala como se tivesse certeza.
Ninguém trava.
Ninguém recua.
Ninguém diz “não sei”.
E não é porque sabem.
É porque não tem mais o que segure.
Freud já tinha avisado — e ninguém quis escutar:
Sigmund Freud não falou de clareza.
Falou de conflito.
O desejo não aponta caminho.
Não organiza.
Não resolve.
Ele insiste.
Ele escapa.
Ele não fecha.
E por isso precisava de limite.
Lei.
Outro.
Corte.
Sem isso, o desejo não vira liberdade.
Vira dispersão.
Durkheim entra onde Freud já tinha deixado aberto:
Émile Durkheim não romantiza:
Quando a estrutura falha, o sujeito não se encontra.
Ele fica sem referência.
Anomia não é crise.
É funcionamento sem eixo.
Bauman só termina de desmontar:
Zygmunt Bauman tira o resto do chão:
Nada fixa.
Nada segura.
Nada dura.
Você chama isso de liberdade.
Mas liberdade sem sustentação não abre caminho.
Pesa.
E enquanto isso, alguém organizou tudo isso como sistema:
Shoshana Zuboff não está interessada em você.
Está interessada no seu comportamento.
Na repetição.
Na previsibilidade.
Na resposta.
Você não precisa estar certo.
Só precisa continuar.
E aí entra Han — e aqui a coisa vira mesmo:
Byung-Chul Han não fala de repressão.
Fala de excesso.
Agora ninguém te impede.
Agora é você.
Sempre você.
Produzindo.
Falando.
Se mostrando.
Se afirmando.
Sem parar.
E nesse ponto acontece o corte mais silencioso:
O desejo some.
Não porque foi resolvido.
Mas porque ele não funciona nesse ambiente.
Ele não entrega.
Ele não responde rápido.
Ele não vira conteúdo.
No lugar entra a demanda:
Clara.
Direta.
Imediata.
“Seja.”
“Mostre.”
“Prove.”
O desejo não cabia nisso.
Era lento demais.
E quando o desejo sai, o que sobra?
André Green não suaviza:
O outro deixa de existir como outro.
Não some fisicamente.
Mas deixa de operar.
O outro vira número
Curtida.
Engajamento.
Alcance.
E quando o outro vira métrica, acabou
Não tem vínculo.
Tem exposição.
E exposição não precisa de verdade
Precisa de continuidade.
A tal confiança tóxica aparece aqui — mas ela não começa aqui:
Ela é efeito.
O sujeito não está confiante.
Ele está sem nada que faça ele duvidar.
E sem dúvida não existe pensamento
Existe afirmação.
Por isso o “pouco qualificado” funciona
Não porque sabe.
Mas porque não hesita.
E hoje hesitar virou erro
Porque interrompe o fluxo.
E o fluxo não pode parar.
E o corpo paga:
Cansaço que não resolve.
Ansiedade sem objeto.
Vazio que não vira silêncio.
Mas continua funcionando.
Sempre.
Clínica do real — não tem mistério aqui:
O sujeito não está perdido.
Ele está operando dentro de um ambiente onde:
não há escuta
não há tempo
não há outro
Só resposta.
Rápida.
Repetida.
Suficiente.
Conclusão — não é excesso de confiança:
É falta de limite.
A confiança não cresceu.
O outro é que caiu fora da equação.
E sem outro…
qualquer afirmação parece sólida.
Mesmo quando não é.
Referências:
— FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
— DURKHEIM, Émile. O suicídio. São Paulo: Martins Fontes, 2000.
— BAUMAN, Zygmunt. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Zahar, 2001.
— HAN, Byung-Chul. Sociedade do cansaço. Petrópolis: Vozes, 2017.
— ZUBOFF, Shoshana. A era do capitalismo de vigilância. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2020.
— GREEN, André. A loucura privada. São Paulo: Escuta, 1988.
— FOLHA DE S.PAULO. A confiança tóxica tomou conta das redes sociais com influenciadores pouco qualificados. Disponível em:
https://www1.folha.uol.com.br/equilibrio/2026/03/a-confianca-toxica-tomou-conta-das-redes-sociais-com-influenciadores-pouco-qualificados.shtml
Notas do Autor:
José Antônio Lucindo — Psicólogo CRP 06/172551
Este texto é uma elaboração crítico-ensaística fundamentada em Psicologia, Filosofia e Sociologia, em conformidade com o Código de Ética Profissional do Psicólogo (CFP).
Não se trata de aconselhamento ou intervenção clínica.
A Inteligência Artificial é utilizada como ferramenta instrumental de organização textual, sem função de escuta ou prática psicológica.
A análise distingue descrição factual, interpretação teórica e posicionamento crítico, com foco nas condições materiais e discursivas que estruturam o fenômeno.
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