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A CIVILIZAÇÃO TAMBÉM COZINHA FEIJÃO

A CIVILIZAÇÃO TAMBÉM COZINHA FEIJÃO



José Antônio Lucindo da Silva — Psicólogo CRP 06/172551
Projeto: Mais Perto da Ignorância

Eu passei tempo demais olhando para a internet como quem olha para o céu.
Não por encanto.
Por erro de escala.


A tela sempre ajuda a produzir esse engano.
Ela achata tudo.

Uma guerra é um meme.

Um colapso logístico e um comentário espirituoso.

Um caminhão carregado de arroz e uma análise sobre o futuro da civilização.

Tudo do mesmo tamanho.
Tudo cabendo no mesmo retângulo luminoso.
Tudo fingindo equivalência.

Foi aí que o truque ficou evidente.

Não imediatamente.

Essas coisas nunca ficam evidentes imediatamente.

Primeiro elas circulam.
Depois ganham nome.
Depois viram opinião.
Depois parecem realidade.

Só muito mais tarde aparece o detalhe constrangedor: aquilo que sustenta o mundo quase nunca aparece com a mesma força daquilo que se comenta.


Eu fiquei olhando para isso como quem encosta o ouvido numa parede para escutar o encanamento.

A timeline falava de política global.

A timeline falava de inteligência artificial.

A timeline falava do destino da humanidade.

A timeline falava, sobretudo, de si mesma.

E enquanto isso alguém estava acordando cedo demais para descarregar comida.

Alguém estava colhendo.

Alguém estava transportando.

Alguém estava cozinhando.

Alguém estava mantendo de pé a parte da civilização que não cabe em thread.


A modernidade gosta de dizer que vive de ideias.
É uma vaidade compreensível.

Fica mais bonito dizer “sociedade da informação” do que “sociedade do arroz, do feijão, da energia e do caminhão”.

Uma expressão tem brilho.
A outra tem graxa.

Só que a graxa continua vencendo.

Eu não estou dizendo que discurso não importa.
Importa.

Eu vivo dele neste exato instante.

Escrevo.

Leio.

Monto a frase.

Corto a frase.

Faço do texto um tipo de lâmina.


Mas uma lâmina não sustenta um corpo por muito tempo.

Ela corta.

Às vezes esclarece.
Às vezes só fere melhor.

Quem sustenta o corpo é outra coisa.

É o metabolismo.

É uma rotina invisível.

É um trabalho que ninguém romantiza porque ele chega em casa cheirando a diesel, cansaço e resto de mercado.

Foi por isso que eu comecei a desconfiar da elegância do nosso tempo.
Tudo elegante demais me parece tentativa de esconder infraestrutura.

A nuvem.

A rede.

O fluxo.


A conectividade.

As palavras do século sempre parecem querer abolir o peso.
Como se fosse possível chegar ao simbólico sem pagar pedágio no corpo.
Como se a inteligência artificial pudesse surgir por geração espontânea, sem data center, sem energia, sem mineração, sem trabalhador, sem cadeia logística, sem alguém resolvendo a parte baixa da existência.

A parte que não dá palestra.

A parte que não viraliza.

A parte que não faz carrossel.

A parte que impede que tudo desabe antes do almoço.

A internet acelerou o discurso.

Isso é óbvio.


Opinar virou um reflexo muscular.

A interpretação se tornou instantânea.

O juízo cabe no polegar.
O escândalo cabe num toque.
A indignação tem sido notificada.

Mas a materialidade não acompanha esse ritmo.

Plantar continua levando tempo.

Transportar continua levando tempo.

Consertar continua levando tempo.

Cozinhar continua levando tempo.

O mundo concreto tem uma lentidão que a timeline interpreta como atraso, quando na verdade é só condição de possibilidade.

Eu olho para essa diferença de velocidade e entendo por que tanto discurso contemporâneo parece sempre levemente falso, mesmo quando não mente.


Ele não é falso por invenção.

É falso por desacoplamento.

Ele corre rápido demais para sentir o peso do que comenta.

Ele chega primeiro e chama isso de lucidez.

Depois a realidade, atrasada e suja, entra na sala carregando caixa, nota fiscal, exaustão e preço do combustível.

Aí o texto, muito elegante, já perdeu o eixo.

Foi assim que eu comecei a desconfiar da aristocracia discursiva das redes.

Não no sentido moral.

Não me interessa o sermão sobre quem pode ou não pode falar.

Isso seria só mais uma forma de superioridade performática.

O que me interessa é a assimetria.


Uma pequena parcela comenta tudo o tempo inteiro e passa a impressão de que está retratando o mundo.

Não está.

Está retratando a superfície visível de um mecanismo que depende de uma imensa maioria ocupada demais vivendo para poder transformar a própria exaustão em opinião pública.

Eu não romantizo essa maioria.

Nem santifico o trabalhador só porque ele trabalha.

A Loka do Rolê não distribui medalha.

Não tem ética da pureza aqui.

O que há é outra coisa: uma tentativa de recolocar o peso onde o discurso retirou peso demais.

Eu quero lembrar que nenhuma opinião cozinha feijão.

Nenhum comentário transporta arroz.

Nenhuma thread substitui nutriente.

Nenhuma análise, por mais sofisticada, alimenta sozinha o organismo de ninguém.


Parece uma obviedade.

Mas a civilização passa muito tempo tentando não olhar para suas obviedades.
Porque a obviedade humilha.

Ela destrói a fantasia de autonomia do pensamento.

Ela devolve o filósofo ao estômago.

Ela devolve o especialista ao prato.

Ela devolve a crítica ao botijão.

E isso, convenhamos, estraga bastante a pose.

Talvez por isso eu tenha insistido tanto nessa trilogia.


Não por amor ao estômago.
Nem por culto à necessidade.

Mas porque o estômago continua sendo o ponto de derrota de toda pretensão exagerada de transcendência técnica.

Pode existir satélite.

Pode existir algoritmo.

Pode existir modelo de linguagem, cidade inteligente, painel preditivo, automação do cotidiano.

Nada disso aboliu a estrutura mais ridícula e mais séria da vida humana: se o corpo não recebe matéria, a metafísica desmonta.

É nesse ponto que a Loka opera.

Não para ensinar.
Não para consolar.

Muito menos para orientar.


Ela entra quando o discurso começa a posar de suficiente.

Ela interrompe quando a explicação começa a se apaixonar pelo próprio brilho.

Ela aparece para lembrar que há uma panela atrás da teoria.
Há um carregamento atrás da nuvem.

Há um corpo atrás da opinião.
E há uma fila de tarefas concretas sustentando a ilusão de que vivemos apenas de interpretação.

A civilização contemporânea fala demais sobre o mundo.

Esse talvez seja o seu sintoma mais banal e mais grave.


Não porque falar seja errado.
Mas porque falar, ou discursar como se o mundo (Digital e Material), estivesse inteiro na fala.

Não está.

Uma parte essencial do mundo continua acontecendo fora do enquadre bonito.

No depósito.

Na estrada.

Na cozinha.

No campo.

Na manutenção.

Na repetição sem glamour de gestos que não entram na análise, mas sem os quais a própria análise some em poucos dias.

Eu não quero concluir isso.
Conclusão demais já estraga.
Prefiro deixar a cena como ela é.

A timeline discutindo o destino da humanidade.
E alguém mexendo no feijão.

A primeira coisa é que se acha central.
A segunda sustenta a primeira.

É só isso.
E já é muito.


Referências para aprofundamento:

Vídeo — A Civilização do Estômago
https://youtu.be/na941iyvvrc?si=d01eMgMEJBNRhnLZ 

Vídeo — O Tubo Digestivo da Civilização
https://youtu.be/aGbMFFf-QUs?si=y5jUOoh5xZ-NIqJ9 

Short — A Fome como Filosofia
https://youtube.com/shorts/CRTQaAhi-7E?si=L5HsjT3NZVTSUqBH 

Texto — O Tubo Digestivo da Civilização 
https://maispertodaignorancia.blogspot.com/2026/03/o-tubo-digestivo-da-civilizacao.html 

Texto — A Fome como Filosofia
https://maispertodaignorancia.blogspot.com/2026/03/a-fome-como-filosofia.html 

Texto — A Civilização do Estômago
https://maispertodaignorancia.blogspot.com/2026/03/a-civilizacao-do-estomago.html 

Mini biografia:

José Antônio Lucindo da Silva é psicólogo clínico (CRP 06/172551), formado em Psicologia pela UNIARA, com pós-graduação em Psicologia Clínica com ênfase em Psicanálise. Atua no atendimento clínico de adultos, online, com foco em escuta, análise do discurso, angústia existencial e sofrimento psíquico contemporâneo.

É autor do projeto Mais Perto da Ignorância (MPI), onde desenvolve ensaios, crônicas, imagens e podcasts sob a função discursiva A Loka do Rolê, investigando tecnologia, trabalho, subjetividade, poder e materialidade social.


Notas do autor:

Este texto não oferece orientação clínica, nem aconselhamento individual.
Não prescreve condutas, não promete transformação, não sugere saídas.

O objetivo é tensionar discursos técnicos, midiáticos e institucionais à luz da materialidade, da história e da ética profissional.

A Loka do Rolê opera aqui como corte discursivo.
Não comenta para reconciliar.
Interrompe para expor o que já não se sustenta.


#alokadorole
@alokdorole_personagem


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