UMA VEZ ADICTO, SEMPRE ADICTO?
Crítica à Fixação Identitária na Adicção
1. Introdução
O enunciado “uma vez adicto, sempre adicto”, presente na literatura de Narcóticos Anônimos (NA, 2013), consolidou-se como fórmula preventiva e identitária no campo da recuperação. Sua função declarada é impedir a negação da vulnerabilidade e manter o sujeito atento ao risco de recaída.
Entretanto, quando essa formulação deixa de ser instrumento clínico e passa a operar como definição permanente do sujeito, surgem implicações conceituais e éticas relevantes. O problema não está na ideia de vulnerabilidade persistente, mas na conversão dessa vulnerabilidade em identidade essencial.
O presente texto analisa criticamente essa formulação a partir de três eixos:
(1) identidade e definição permanente do sujeito;
(2) materialidade neurobiológica;
(3) temporalidade e reconstrução narrativa.
O objetivo não é negar a gravidade da adicção, mas neutralizar sua leitura punitiva e essencializante.
2. O problema da identidade permanente
Historicamente, o termo addictus designava aquele entregue como escravo por dívida. A herança simbólica remete à subordinação estrutural. Quando o enunciado “sempre adicto” é interpretado como essência fixa, há o risco de transformar uma condição clínica em marca identitária definitiva.
Nesse caso, o sujeito deixa de estar em vulnerabilidade e passa a ser definido por ela.
Contudo, o próprio Livro Azul (NA, 2013) afirma a possibilidade de reconstrução de vida, reorganização de vínculos e mudança de forma de viver. Surge então um paradoxo:
A vulnerabilidade é contínua.
A vida pode ser transformada.
Se a identidade fosse essencialmente imutável, não haveria transformação real possível — apenas contenção do impulso.
Logo, o enunciado precisa ser compreendido como advertência prática e não como definição permanente do ser.
3. Eixo neurobiológico: vulnerabilidade não é essência
A adicção envolve reorganização de circuitos dopaminérgicos ligados à saliência e à motivação (VOLKOW; KOOB; MCLELLAN, 2016). A repetição do uso altera padrões de aprendizagem e automatiza comportamentos.
Entretanto, a neurociência contemporânea demonstra que o cérebro mantém plasticidade ao longo da vida (KALIVAS; O’BRIEN, 2008). Mudanças estruturais e funcionais podem ocorrer com interrupção do uso, reorganização ambiental e reestruturação comportamental.
A sensibilização pode persistir como risco aumentado. Contudo, risco não equivale a definição permanente do sujeito.
A biologia sustenta a noção de vulnerabilidade prolongada, mas não sustenta a ideia de identidade imutável.
Transformar vulnerabilidade em essência é extrapolação discursiva.
4. Eixo temporal: reconstrução posterior do vivido
Durante o uso ativo, estados alterados de consciência comprometem julgamento, previsão de consequências e simbolização da experiência. A compreensão posterior do sofrimento ocorre sob outra condição psíquica.
Kierkegaard (2010) sustenta que a vida só pode ser compreendida retrospectivamente. No contexto da adicção, isso significa que o relato atual do sofrimento é reconstrução narrativa.
O sujeito que nomeia a dor hoje não está na mesma condição daquele que a vivenciou sob entorpecimento.
Portanto, a identidade construída após a interrupção do uso é elaboração temporal, não essência eterna.
A fixação identitária ignora a constituição temporal do eu.
5. Eixo psicanalítico: repetição e posição subjetiva
Freud (1920) descreve a compulsão à repetição como tendência a reencontrar traços psíquicos não simbolizados. A adicção pode ser compreendida como forma de repetição estruturada.
Contudo, repetição não é destino inevitável. É tendência que pode ser elaborada.
O traço pode permanecer como possibilidade, mas a posição subjetiva diante do traço pode mudar. A clínica psicanalítica parte da premissa de que a elaboração modifica a relação com aquilo que insiste.
Assim, manter a identidade como definição essencial ignora a diferença entre traço persistente e posição subjetiva atual.
6. Responsabilidade e neutralização moral (#nsdp)
O enunciado “sempre adicto” pode ser apropriado moralmente de duas formas:
1. Como culpa permanente.
2. Como justificativa identitária.
A proposta #nsdp busca neutralizar ambos os extremos.
A responsabilidade deve ser analisada em camadas:
decisão inicial de experimentar;
redução progressiva do controle com reorganização neuroadaptativa;
retomada gradual da capacidade executiva na recuperação.
Misturar essas camadas gera simplificação moral. Separá-las permite análise estrutural sem punição discursiva.
A vulnerabilidade não absolve nem condena; ela delimita risco.
7. A tensão com a ideia de liberdade
Se o programa de recuperação afirma liberdade, mas a identidade permanece fixada como escravidão permanente, instala-se contradição lógica.
Liberdade não pode coexistir com definição essencial de servidão.
Uma formulação conceitualmente mais precisa seria:
“Uma vez exposto à lógica adictiva, permanece a vulnerabilidade.”
Essa reformulação preserva a função preventiva sem transformar condição em essência.
8. Considerações finais
O enunciado “uma vez adicto, sempre adicto” cumpre papel relevante no contexto grupal como instrumento de vigilância contra a negação.
Entretanto, quando convertido em definição permanente do sujeito, produz efeitos discursivos que:
confundem risco com essência;
convertem vulnerabilidade em identidade fixa;
reforçam marcas simbólicas de exclusão.
A análise neurobiológica, psicanalítica e temporal indica que a adicção envolve traços persistentes, mas não definição imutável do ser.
Neutralizar a leitura punitiva do enunciado não significa negar vulnerabilidade. Significa impedir que a vulnerabilidade seja transformada em condenação identitária.
Referências
FREUD, Sigmund. Além do princípio do prazer. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
KALIVAS, Peter W.; O’BRIEN, Charles. Drug addiction as a pathology of staged neuroplasticity. Neuropsychopharmacology, v. 33, n. 1, p. 166–180, 2008.
KIERKEGAARD, Søren. O conceito de angústia. Petrópolis: Vozes, 2010.
NARCÓTICOS ANÔNIMOS. Narcóticos Anônimos (Livro Azul). 6. ed. Chatsworth: NA World Services, 2013.
VOLKOW, Nora D.; KOOB, George F.; MCLELLAN, A. Thomas. Neurobiologic advances from the brain disease model of addiction. New England Journal of Medicine, v. 374, p. 363–371, 2016.
#nsdp
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