Quando o medo vira notificação
Palavras-gírias: alerta, bug, scroll, vício, ansiedade, hype, algoritmo, colapso, ruído.
Interlúdio da Loka
Vocês chamam de tecnologia.
Eu chamo de afeto mal distribuído.
Vocês chamam de conexão.
Eu vejo corpo tremendo por vibração fantasma.
Não é progresso.
É reorganização da ansiedade.
Este capítulo examina a reorganização afetiva da infância e da adolescência na era das notificações digitais. A hipótese central é que o regime de alerta intermitente produz instabilidade afetiva estrutural, com impactos psicodinâmicos, neurobiológicos e políticos.
A análise articula:
— Espinosa (afetos e variação de potência)
— Freud (economia pulsional e mal-estar civilizatório)
— Han (erosão da duração)
— Bauman (insegurança estrutural)
— Zuboff (capitalismo de vigilância)
— Twenge e Haidt (dados epidemiológicos contemporâneos)
— DSM-5-TR e CID-11 (classificações diagnósticas)
— Shaughnessy (metodologia científica)
Não há condenação moral da tecnologia.
Há investigação das condições materiais que atravessam o corpo.
Espinosa (2009) define medo como tristeza inconstante ligada à incerteza de um mal futuro. Para Rizk (2010), o afeto é variação da potência corporal. A instabilidade contínua impede consolidação de encontros que aumentem potência.
O regime digital opera exatamente pela imprevisibilidade: notificações, curtidas, recompensas intermitentes. A expectativa constante impede estabilização afetiva.
Freud (2010), em O mal-estar na civilização, argumenta que a cultura exige intervalo simbólico entre desejo e satisfação. A compressão temporal promovida pelas plataformas reduz esse intervalo.
O DSM-5-TR (APA, 2022) descreve o Transtorno do Jogo pela Internet com critérios como:
— perda de controle
— tolerância
— abstinência
— prejuízo funcional
A CID-11 (OMS, 2019) reconhece o Gaming Disorder como padrão persistente de comportamento digital com comprometimento significativo.
Trata-se de classificação diagnóstica formal, não de juízo moral.
Shaughnessy, Zechmeister e Zechmeister (2012) alertam que estudos correlacionais não implicam causalidade. Assim, dados sobre aumento de sofrimento psíquico juvenil devem ser interpretados com cautela metodológica.
O celular vibra.
O corpo responde antes da consciência.
A vibração torna-se reflexo condicionado.
Twenge (2017) observa aumento de sintomas depressivos e ideação suicida entre adolescentes após 2012, período de consolidação dos smartphones. Haidt (2024) descreve substituição da infância baseada em interação física por infância mediada por tela.
Não se afirma causalidade linear.
Observa-se coincidência temporal significativa.
Han (2021) afirma que a digitalização substitui coisas por fluxos de informação. A experiência perde sedimentação. O afeto não amadurece.
Sem duração, não há consolidação de vínculo.
Bauman (2000) descreve a modernidade líquida como regime de insegurança permanente. Zuboff (2019) demonstra que a antecipação constante é funcional ao modelo de negócios das plataformas.
O medo torna-se útil.
A incerteza vira produto.
Não é que as crianças “não aguentem frustração”.
É que o ambiente reorganiza o tempo da frustração.
Recompensa imediata reduz tolerância ao atraso.
Kandel (2014) descreve circuitos dopaminérgicos ativados por reforço intermitente. A retirada abrupta do estímulo pode produzir irritabilidade.
Neurobiologia não é destino.
Mas descreve mecanismo.
Quando o corpo se habitua ao alerta constante, o silêncio se torna desconfortável.
A ausência de notificação vira ameaça.
Espinosa chamaria isso de diminuição da potência.
Freud chamaria de falha na elaboração.
Han chamaria de erosão da duração.
Eu chamo de reorganização afetiva mediada por infraestrutura.
Este texto não estabelece diagnóstico coletivo.
Não prescreve intervenção.
Não oferece orientação parental.
Conforme o Código de Ética Profissional do Psicólogo (CFP, Res. 010/05), a análise distingue descrição teórica de aconselhamento clínico.
O fenômeno descrito envolve:
— arquitetura técnico
— economia política
— organização afetiva
— variações neurobiológicas
A infância digital não é patologia em si.
Mas o regime de alerta permanente pode interferir na capacidade de sustentar frustração, silêncio e duração.
Sem duração afetiva, vínculos fragilizam.
Sem vínculos, a política fragmenta.
Primeiro existe o corpo.
Depois a infraestrutura.
Depois o discurso.
O debate permanece aberto.
Não há síntese redentora.
Referências:
AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. DSM-5-TR. Washington: APA Publishing, 2022.
BAUMAN, Zygmunt. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Zahar, 2000.
ESPINOSA, Baruch de. Ética. São Paulo: Martins Fontes, 2009.
FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
HAIDT, Jonathan. A geração ansiosa. São Paulo: Companhia das Letras, 2024.
HAN, Byung-Chul. Não-coisas. Petrópolis: Vozes, 2021.
KANDEL, Eric R. et al. Princípios de neurociências. Porto Alegre: AMGH, 2014.
OMS. Classificação Internacional de Doenças – CID-11. Genebra: OMS, 2019.
RIZK, Hadi. Compreender Spinoza. Petrópolis: Vozes, 2010.
SHAUGHNESSY, John J.; ZECHMEISTER, Eugene B.; ZECHMEISTER, Jeanne S. Metodologia de pesquisa em psicologia. 9. ed. Porto Alegre: AMGH, 2012.
TWENGE, Jean M. iGen. New York: Atria Books, 2017.
ZUBOFF, Shoshana. A era do capitalismo de vigilância. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2019.
Mini Biografia:
José Antônio Lucindo da Silva é psicólogo clínico (CRP 06/172551), formado em Psicologia pela UNIARA, com pós-graduação em Psicologia Clínica com ênfase em Psicanálise. Atua no atendimento clínico de adultos, presencial e online, com foco em escuta, análise do discurso e sofrimento psíquico contemporâneo.
É autor do projeto Mais Perto da Ignorância (MPI), onde desenvolve ensaios, crônicas e podcasts sob a persona A Loka do Rolê, articulando psicanálise, filosofia e crítica da técnica.
Notas do Autor:
Este texto não oferece orientação clínica, nem aconselhamento individual.
Não prescreve condutas, não promete transformação e não sugere soluções.
A análise respeita o Código de Ética Profissional do Psicólogo (Resolução CFP nº 010/05) e distingue descrição, interpretação e opinião.
A inteligência artificial, quando utilizada na elaboração textual, é ferramenta instrumental, sem escuta e sem responsabilidade clínica.
O texto não encerra debate.
Ele interrompe simplificações.
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