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Ninguém sonha com celulares porque eles já colonizaram a vigília

Ninguém sonha com celulares porque eles já colonizaram a vigília



Autor
José Antônio Lucindo da Silva

Projeto
Mais Perto da Ignorância (MPI)

Palavras-chave


👉 SEGUE O LINK DA MATERIAL TRAZIDO; 

https://revistagalileu.globo.com/sociedade/curiosidade/noticia/2026/02/por-que-seu-celular-nao-costuma-aparecer-nos-seus-sonhos.ghtml 


Por que quase ninguém sonha com celulares se passa o dia inteiro grudado neles? A pergunta parece curiosa, mas esconde um problema mais incômodo: talvez não sonhemos com celulares porque eles já ocupam o lugar onde o sonho deveria operar. Este artigo, escrito na voz da Loka do Rolê, tensiona a ideia de que a ausência do celular no sonho indicaria sua irrelevância psíquica. Pelo contrário: a tecnologia contemporânea não aparece no sonho porque deixou de ser objeto e se tornou ambiente. A partir de Freud, André Green, Byung-Chul Han e da crítica à cultura da performance, o texto sustenta que o empobrecimento onírico não se deve à falta de estímulos, mas ao colapso do desejo enquanto força anterior ao objeto. Onde só há demanda, desempenho e positividade, o inconsciente não elabora — ele se retira. O sonho permanece como estrutura basal da constituição humana, mas encontra cada vez menos material simbólico para trabalhar. O resultado não é neurose clássica, mas exaustão, silêncio e sofrimento sem narrativa. Este texto não oferece saída. Apenas aponta o estrago.


Tem gente realmente intrigada com isso:
“Por que não sonhamos com celulares?”

A pergunta costuma vir acompanhada de gráficos, porcentagens e aquele espanto meio ingênuo de quem acredita que o inconsciente funciona por estatística. Se usamos o celular o dia inteiro, ele deveria aparecer no sonho. Lógico. Racional. Limpinho.

A Loka do Rolê olha pra isso e ri.
Não de deboche fácil.
Ri daquele riso seco de quem percebe que a pergunta já nasce errada.

Talvez não sonhemos com celulares porque eles já venceram.
Talvez o celular não apareça no sonho porque o sonho é o último território que ainda não foi totalmente colonizado — e mesmo assim, anda por um fio.


Enquanto isso, o discurso corre solto: dopamina, vício, atenção, autocontrole, saúde mental digital. Tudo muito organizado. Tudo muito funcional. Tudo muito longe do desejo.

Aqui não se trata de demonizar tecnologia nem de romantizar o inconsciente. Trata-se de sustentar um ponto simples e desconfortável: onde só existe demanda, não há desejo; onde não há desejo, o sonho empobrece; onde o sonho empobrece, o mal-estar muda de forma.

E não, isso não vira diagnóstico.
Vira ruído. E ruído também é dado clínico.


1. O desejo não quer sentido — e isso já é um problema para a cultura

Em A Interpretação dos Sonhos, Freud não estava interessado em ensinar ninguém a “realizar sonhos”. O sonho não é projeto de vida. É resto. É falha. É trabalho forçado do inconsciente diante de um excesso que não encontrou destino na vigília.

O desejo, em Freud, não nasce do objeto.
Ele é anterior ao objeto.
Anterior histórica, material e logicamente.

O objeto vem depois, como tentativa desesperada de dar forma ao excesso pulsional. Por isso o desejo não busca sentido. Quem busca sentido é o Eu — esse funcionário cansado da civilização.

A cultura contemporânea odeia isso. Ela precisa que tudo faça sentido, gere resultado, produza valor. O desejo, do jeito freudiano, é um péssimo colaborador. Ele atrapalha planilhas, desorganiza narrativas e não respeita metas.

Então a cultura faz o quê?
Substitui desejo por demanda.


2. Demanda não sonha

A demanda pede resposta.
Pede reconhecimento.
Pede desempenho.

Ela é social, adaptativa e discursiva. Não tem nada de inconsciente nisso. A demanda é o idioma oficial do Eu performático.

Aqui entra Sociedade do Cansaço com a delicadeza de um soco bem dado: não vivemos mais sob o regime da proibição, mas da positividade. Não somos mais sujeitos obedientes, somos sujeitos de desempenho.

O Supereu contemporâneo não diz “não pode”.
Ele sussurra: “você consegue mais.”

Isso não produz desejo.
Produz exaustão.

E exaustão não vira sonho.
Vira colapso silencioso.


3. Por que o celular não aparece no sonho

Agora a pergunta muda de nível.

O celular não aparece pouco no sonho porque é fraco emocionalmente. Isso é ingenuidade teórica. O celular atravessa términos, humilhações, vigilâncias, trabalhos, comparações, solidões. Ele está no centro do sofrimento contemporâneo.

Então por que ele não sonha?

Porque ele não é mais objeto.
Virou ambiente.

E ambientes não aparecem no sonho.
Assim como o ar não aparece, apesar de ser indispensável.

O sonho trabalha com perda, ameaça, encontro, corpo, outro. O celular opera por presença contínua, resposta imediata, ausência de intervalo. Ele não frustra simbolicamente. Ele regula.

O inconsciente não sonha com reguladores.


4. André Green entra quando o sonho começa a falhar

Freud explica o sonho enquanto há desejo em conflito. Mas o que acontece quando o conflito empobrece?

É aqui que André Green se torna incontornável.

Em Narcisismo de Vida, Narcisismo de Morte e O Trabalho do Negativo, Green mostra que há formas de sofrimento que não se organizam mais pela repressão, mas pelo desinvestimento.

Não é desejo proibido.
É desejo que não chegou a se constituir.

Quando o objeto não se deixa perder, quando não há ausência verdadeira, quando tudo é presença excessiva, o trabalho do negativo falha. E sem negativo, não há simbolização. Sem simbolização, o sonho perde matéria.

Isso não gera neurose clássica.
Gera vazio funcional.


5. O mal-estar mudou de forma, não de intensidade

Em O Mal-Estar na Civilização, Freud é direto: a civilização nasce da renúncia pulsional. O sofrimento é estrutural. Não é bug.

A diferença é que hoje tentamos eliminar a tensão substituindo-a por desempenho. Só que sem tensão não há elaboração. Sem elaboração, o sonho não trabalha. E sem sonho, o mal-estar não some — ele se torna mudo.

A cultura da performance não elimina o sofrimento.
Ela elimina sua narrativa.


6. Por isso não sonhamos com celulares

Não porque eles sejam irrelevantes.
Mas porque eles já organizaram o modo como ficamos acordados.

O sonho ainda existe porque a pulsão não foi domesticada. Mas ele encontra cada vez menos espaço, menos intervalo, menos silêncio para operar.

O celular não invade o sonho.
Ele reduz a possibilidade de sonhar.

E isso não é uma metáfora bonita.
É um diagnóstico cultural sem prescrição.


Notas do Autor — MPI:

Este texto não é aconselhamento psicológico.
Não oferece técnica, nem caminho, nem solução.
Não substitui acompanhamento clínico.
Integra o arquivo crítico do projeto Mais Perto da Ignorância.

A Loka do Rolê não cuida, não orienta, não promete.
Ela nomeia o impasse e sai da sala antes que alguém peça receita.


Referências:

FREUD, Sigmund. A Interpretação dos Sonhos. 1900.

FREUD, Sigmund. O Mal-Estar na Civilização. 1930.

GREEN, André. Narcisismo de Vida, Narcisismo de Morte. 1988.

GREEN, André. O Trabalho do Negativo. 1993.

HAN, Byung-Chul. Sociedade do Cansaço. 2010.

RIBEIRO, Sidarta. O Oráculo da Noite. 2019.


Mini Bio;

José Antônio Lucindo da Silva é psicólogo (CRP 06/172551), pesquisador e autor do projeto Mais Perto da Ignorância, onde investiga, com ironia e rigor ético, os efeitos dos discursos contemporâneos sobre a subjetividade, a escuta e o sofrimento humano.



#alokadorole
@alokdorole_personagem
#maispertodaignorancia



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