A TELA NÃO INVENTOU O SINTOMA. ELA SÓ TROUXE LUZ.
Autor: José Antônio Lucindo da Silva
Projeto: Mais Perto da Ignorância — A Loka do Rolê
Palavras-chave: tecnologia, infância, sintoma, materialidade, discurso alarmista, capitalismo de atenção, historicidade.
Resumo
Toda época descobre um vilão pedagógico. Já foi o romance barato, já foi o rádio, já foi a televisão, já foi o videogame. Agora é a tela. O discurso corre mais rápido que o método. Manchetes falam em “destruição cerebral”, “burnout digital aos oito anos”, “infância sequestrada”. A Loka do Rolê observa. Não para defender tecnologia. Nem para demonizar. Mas para lembrar que o sintoma nunca nasce do discurso — ele nasce do atravessamento material que reorganiza o corpo. A escrita reorganizou a memória. A prensa reorganizou a verdade. A fábrica reorganizou o tempo. A plataforma reorganiza a atenção. E a gente finge que o problema é o objeto. Não é. É a estrutura. E estrutura não cabe em vídeo de 30 segundos.
Introdução — Convocação do impasse
Eu adoro quando a internet descobre o novo apocalipse da semana.
“Cérebro destruído.” “Infância perdida.” “Tablet como vilão da Pixar.” “Burnout digital aos oito anos.”
Tudo muito cinematográfico.
Tudo muito compartilhável.
Mas me diz uma coisa: desde quando civilização atravessa transformação técnica sem produzir sintoma?
Desde quando a humanidade passa ilesa por mudança de infraestrutura?
A Loka do Rolê não tá aqui pra defender tela.
Nem pra abraçar algoritmo.
Ela tá aqui pra perguntar: por que a gente sempre começa pelo discurso e nunca pela materialidade?
Corpo crítico-ensaístico
Quando a escrita surgiu, tinha faraó dizendo que aquilo ia destruir a memória humana.
Destruir.
A memória.
A escrita era ameaça.
Não porque era imoral.
Mas porque reorganizava poder.
Memória saiu do corpo e virou arquivo.
Arquivo virou administração.
Administração virou controle.
A imprensa? Outro escândalo.
Multiplicação de livros.
Fragmentação da verdade.
Guerra religiosa.
Desordem moral.
A máquina industrial?
“Vai destruir o trabalhador.”
E destruiu mesmo.
Mas não porque era máquina.
Foi porque reorganizou o modo de produção.
Reorganizou tempo.
Reorganizou corpo.
Reorganizou cidade.
Marx não demonizou o ferro.
Ele analisou a estrutura.
Freud não demonizou a modernidade.
Ele descreveu o mal-estar.
E agora?
Agora a tela virou o demônio portátil.
Mas vamos com calma.
Estudo correlacional vira sentença moral.
Associação estatística vira manchete catastrófica.
“Afinamento do córtex.”
Palavra técnica usada como granada emocional.
A Loka do Rolê pergunta:
Qual é o método?
Qual é o desenho do estudo?
É causalidade ou correlação?
Tem variável socioeconômica controlada?
Tem mediação parental analisada?
Tem contexto estrutural incluído?
Ou tem só pânico com filtro dramático?
Porque a tela não caiu do céu.
Ela é infraestrutura.
No Brasil, muitas vezes é o único dispositivo da casa.
É escola.
É lazer.
É vínculo.
É distração enquanto os pais trabalham 10 horas por dia.
Mas isso não cabe na legenda.
É mais fácil dizer: “tela destrói cérebro”.
Destrói mesmo?
Ou reorganiza?
Porque reorganizar não é destruir.
É mudar regime de funcionamento.
A escrita reorganizou a memória.
A prensa reorganizou autoridade.
A fábrica reorganizou tempo.
A plataforma reorganiza atenção.
E atenção é fisiologia.
A criança não acorda querendo vício.
Ela acorda num ambiente onde a arquitetura foi desenhada para capturar permanência.
Permanência gera dado.
Dado gera lucro.
Lucro organiza design.
Design reorganiza comportamento.
Mas o discurso prefere personalizar o problema.
“Pais irresponsáveis.”
“Criança fraca.”
“Geração perdida.”
É sempre mais confortável encontrar culpado do que olhar para estrutura.
Freud dizia que cada época produz sua forma específica de sintoma.
O sintoma não é invenção discursiva.
É resposta corporal às condições culturais.
E nossa cultura atual é baseada em captura de atenção.
Não é teoria conspiratória.
É modelo de negócio.
O capitalismo industrial explorava força de trabalho.
O capitalismo de plataforma explora tempo cognitivo.
Isso é estrutura.
E estrutura não se resolve com post indignado.
A Loka do Rolê não tá dizendo que tela é neutra.
Não é.
Mas também não é entidade demoníaca autônoma.
É peça de engrenagem.
E enquanto a gente discute se “tablet é vilão”, a economia segue intacta.
O algoritmo não tem intenção moral.
Tem otimização estatística.
Quem tem intenção é o modelo econômico que sustenta.
E isso não viraliza.
É menos sexy que “burnout digital aos oito anos”.
A palavra burnout, aliás, aplicada a criança de oito anos, é quase poética.
A gente importa categoria adulta e cola na infância.
Fica bonito no feed.
Mas cientificamente?
Cadê critério diagnóstico formal?
Cadê definição operacional?
Cadê delimitação metodológica?
Shaughnessy já avisava:
Sem método explícito, não há autoridade.
Mas autoridade virou estética.
E estética vende mais que metodologia.
A Loka do Rolê observa tudo isso e ri.
Não de deboche infantil.
Mas daquele riso lúcido que aparece quando o discurso corre mais rápido que o dado.
A tela não inventou o sintoma.
Ela apenas iluminou a reorganização que já estava em curso.
Pais exaustos.
Jornadas longas.
Desigualdade estrutural.
Capitalismo de atenção.
Infância comprimida.
Mas é mais fácil culpar o objeto.
Objeto não processa.
Objeto não responde.
Objeto não entra com ação judicial.
Objeto não questiona estrutura.
A tela vira bode expiatório digital.
Enquanto isso, o corpo segue atravessado.
E o sintoma segue histórico.
Notas do Autor — MPI:
Este texto não oferece orientação clínica, nem aconselhamento individual.
Não prescreve condutas, não promete transformação, não sugere saídas.
O objetivo é tensionar discursos midiáticos e institucionais à luz da história, da materialidade e da ética profissional.
A persona A Loka do Rolê funciona como operador crítico — não como personagem terapêutica, nem como instância moral.
A inteligência artificial, quando mencionada, é tratada como ferramenta instrumental, sem escuta, sem desejo e sem responsabilidade clínica.
Toda análise respeita o Código de Ética Profissional do Psicólogo (CFP) e distingue descrição, interpretação e opinião.
O texto não encerra debate.
Ele interrompe a naturalização.
Referências:
FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
GOODY, Jack. The logic of writing and the organization of society. Cambridge: Cambridge University Press, 1986.
MARX, Karl. O capital: crítica da economia política. São Paulo: Boitempo, 2013.
SHaughnessy, John; Zechmeister, Eugene; Zechmeister, Jeanne. Metodologia de pesquisa em psicologia. Porto Alegre: AMGH, 2012.
ZUBOFF, Shoshana. A era do capitalismo de vigilância. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2020.
Mini Bio:
José Antônio Lucindo da Silva é psicólogo clínico (CRP 06/172551), formado em Psicologia pela UNIARA, com pós-graduação em Psicologia Clínica com ênfase em Psicanálise. Atua no atendimento clínico de adultos, presencial e online, com foco em escuta, análise do discurso, angústia existencial e sofrimento psíquico contemporâneo.
É autor do projeto Mais Perto da Ignorância (MPI), onde desenvolve ensaios, crônicas, imagens e podcasts sob a persona A Loka do Rolê, investigando tecnologia, trabalho, subjetividade, poder e materialidade social.
Sua produção articula psicanálise, filosofia e crítica da técnica, recusando autoajuda, prescrição ou soluções consoladoras.
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@alokdorole_personagem
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