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A ERA DOS EXAUSTOS NÃO É TEMA — É CHÃO

A ERA DOS EXAUSTOS NÃO É TEMA — É CHÃO



Acordar cansado não é sintoma.
É método.

Dormir cansado não é falha do corpo.
É compatibilidade com o funcionamento.

Chamaram de “era dos exaustos” como quem dá nome técnico para infiltração estrutural.
Não é diagnóstico.
É recibo.

O cansaço virou paisagem.
Ninguém estranha mais.
Só administra.

O sujeito não cai.
Ele continua andando cansado.
Isso é eficiência.

Dizem que é burnout.
Depois dizem que não é bem burnout.
Que é exaustão difusa.
Que é pós-pandemia.
Que é desequilíbrio.

Qualquer nome serve, desde que não encoste na causa.


A causa não é excesso de tarefas.
É a transformação da vida inteira em tarefa.

O trabalho não termina.
O descanso não começa.
O corpo vira interface.
A mente, planilha.

Primeiro existe o corpo.
Depois, a sobrevivência material.
Depois, o discurso.


Quando essa ordem se inverte, o discurso começa a falar alto demais.
E quanto mais ele fala, menos a vida aparece.

Nesse cenário, buscar notícias ruins não é perversão.
É vigilância.
É tentativa de antecipar o golpe seguinte.
É corpo tentando não ser surpreendido.

Não há nada de patológico nisso.
O mundo é instável.
A ameaça é real.


O problema começa quando essa busca não retorna à vida.
Quando não reorganiza o tempo.
Quando não altera o gesto.
Quando não atravessa o corpo.

Aí não é mais informação.
É repetição.

Não se recorda.
Não se elabora.

"Só Rola."


O doomscrolling não é gosto pela negatividade.
É um modo de existência suspensa.
É o discurso girando no lugar da vida.

A informação circula.
O sujeito se exaure.
Nada se transforma.

Freud já tinha avisado: quando não se recorda, repete-se.
E quando não se elabora, repete-se ainda mais.

Aqui, a repetição não é sintoma isolado.
É efeito de um ambiente que não tolera pausa.
Não tolera silêncio.
Não tolera limite.


A economia da atenção não precisa que você compreenda.
Precisa que você permaneça.

A vigilância contínua não protege do real.
Ela adia o encontro com ele.

Forma-se então um mal-estar de segunda ordem.
Não aquele estrutural da civilização,
mas o mal-estar produzido pela tentativa fracassada de dominar o real pelo discurso.

O sujeito vigia o mundo.
Mas abandona o próprio espaço.
O próprio tempo.
O próprio corpo.

Isso não é lucidez.
É suspensão.


É aqui que entram as soluções individuais.

Respire.
Organize.
Seja resiliente.

E também entram as distopias confortáveis.

Tudo vai acabar.
Nada faz sentido.
Aceite o colapso.

Autoajuda e distopia falham do mesmo jeito.
Ambas substituem a existência por narrativa.

Uma promete controle.
A outra promete lucidez total.
As duas poupam o contato com a materialidade:
trabalho, renda, cansaço, tempo curto.


A Loka do Rolê não opera nesses polos.
Ela não vende esperança.
Mas também não faz culto da ruína.

Ela corta.

Onde o discurso começa a explicar demais, ela interrompe.

Onde a crítica vira identidade confortável, ela desmonta.

E onde a negatividade vira espetáculo, ela abandona.

A Loka não pergunta se o mundo está pior.
Ela pergunta onde você está vivendo.


Se a notícia ruim não volta para a vida, ela não protege.
Ela anestesia.

Se a vigilância não vira gesto, ela não cuida.
Ela adia.

Nenhum discurso — nem otimista, nem apocalíptico — substitui a experiência de estar vivo dentro de limites concretos.


E aqui o texto para.
Não porque resolveu.
Mas porque seguir seria repetir.


Notas do Autor:

José Antônio Lucindo da Silva é psicólogo clínico (CRP 06/172551), formado em Psicologia, com pós-graduação em Psicologia Clínica com ênfase em Psicanálise. Atua na clínica com adultos, com foco em escuta, análise do discurso e sofrimento psíquico contemporâneo. É autor e idealizador do projeto Mais Perto da Ignorância, onde a função discursiva A Loka do Rolê opera como dispositivo de corte — sem prescrição, sem consolo e sem promessa.


Referências:

FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização. Rio de Janeiro: Imago, 1997.

FREUD, Sigmund. Recordar, repetir e elaborar (1914). In: FREUD, S. Edição standard brasileira das obras psicológicas completas. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

HAN, Byung-Chul. Sociedade do cansaço. Petrópolis: Vozes, 2015.

MASLACH, Christina; LEITER, Michael. The truth about burnout. San Francisco: Jossey-Bass, 1997.

SCHAFFNER, Anna Katharina. Exhaustion: A history. New York: Columbia University Press, 2016.

SHAUGHNESSY, John J.; ZECHMEISTER, Eugene B.; ZECHMEISTER, Jeanne S. Metodologia de pesquisa em psicologia. 9. ed. Porto Alegre: AMGH, 2012.

ZUBOFF, Shoshana. A era do capitalismo de vigilância. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2021.

CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. Código de Ética Profissional do Psicólogo. Brasília: CFP, 2005.

CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. Inteligência artificial na Psicologia: guia para uma prática ética e responsável. Brasília: CFP, 2023.

REVISTA GALILEU. A era dos exaustos: por que estamos cada vez mais cansados? 2024. Disponível em: https://revistagalileu.globo.com/. Acesso em: 2026.


#alokadorole
@alokdorole_personagem
#maispertodaignorancia

Palavras chaves:

exaustão estrutural, sociedade do cansaço, mal-estar contemporâneo, burnout, doomscrolling, vigilância, repetição, discurso, materialidade, corpo, tempo, limite, sofrimento psíquico, crítica à autoajuda, crítica à distopia, capitalismo de vigilância, escuta, existência, narrativa, subjetividade, vida cotidiana, Loka do Rolê, Mais Perto da Ignorância 



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