TERAPIA WI-FI: CONECTA, RESPONDE, CIRCULA — NÃO ESCUTA
Autor: José Antônio Lucindo da Silva
Projeto: Mais Perto da Ignorância
Persona discursiva: A Loka do Rolê
Palavras-chave: terapia digital; escuta simulada; capitalismo de vigilância; sofrimento psíquico; clínica; tecnologia.
Resumo:
Não falta cuidado. Falta escuta. Não falta resposta. Falta encontro. O que se convencionou chamar de “terapia Wi-Fi” não é um erro de implementação, nem um desvio ético ocasional: é um arranjo coerente entre tecnologia, mercado e gestão do sofrimento. Funciona enquanto o corpo não pesa, enquanto o silêncio não aparece, enquanto o real não exige pausa. Este texto não orienta, não prescreve, não promete saída. Ele nomeia um impasse: quando a clínica é convertida em interface, a escuta vira sinal, o cuidado vira fluxo e o sujeito vira variável. A promessa de acesso esconde uma economia da atenção; a promessa de acolhimento encobre a captura de dados. O que se apresenta como inovação terapêutica opera, na prática, como manutenção da circulação. Aqui, a Loka do Rolê não propõe alternativas. Ela sustenta a pergunta incômoda: quem escuta quando tudo responde?
Introdução:
Voltar do trabalho, sentar, abrir o celular. O mundo responde. Sempre responde. Notificação, mensagem automática, feedback empático pré-programado. “Entendo o que você está sentindo.” A frase aparece rápido demais para ser escutada. Escuta não chega assim. Escuta tropeça. Demora. Hesita. A resposta instantânea alivia, mas não encontra. Aí começa o truque: confundiram presença com conectividade. Chamaram de cuidado aquilo que só garante continuidade.
A terapia Wi-Fi não surge por acidente. Ela é filha legítima de um tempo que não suporta silêncio, que trata pausa como falha e transforma sofrimento em tráfego. Não é um desvio da clínica; é sua neutralização técnica. Não falha — funciona exatamente como foi desenhada.
A escuta, na clínica, nunca foi eficiente. Freud já havia apontado que o sintoma fala, mas não fala para ser resolvido rapidamente. Ele insiste, retorna, resiste. A escuta exige tempo improdutivo, presença não mensurável, risco ético. Nada disso escala. Nada disso vira métrica.
Quando plataformas prometem “acesso ampliado à saúde mental”, o que oferecem, na prática, é gestão da fala. A fala entra como input, passa por filtros, sai como resposta calibrada. Não há erro aí. Há coerência. O sofrimento não entra como encontrar porque encontro atrapalha o fluxo. O corpo pesa. Silêncio trava. Impasse não converte.
Byung-Chul Han descreveu com precisão esse deslocamento: comunicação sem alteridade, positividade contínua, eliminação da negatividade. A escuta verdadeira inclui o não saber, o não responder, o sustentar a falta. Interface não tolera isso. Interface precisa devolver algo. Sempre.
Sherry Turkle chamou isso de “sozinhos juntos”. Fala-se o tempo todo, sem ninguém realmente ali. A terapia Wi-Fi herda essa lógica: simula relação, mas elimina o risco do vínculo. A resposta parece empática, mas não compromete. Não há responsabilidade porque não há encontro.
É aqui que o capitalismo de vigilância entra sem pedir licença. Zuboff mostrou: emoções, hábitos, discursos viram matéria-prima. O sofrimento é precioso porque gera dado. Dado gera previsão. Previsão gera lucro. A promessa de cuidado é a isca; a captura é o negócio. Não se trata de curar o humano, mas de mantê-lo funcional, previsível, circulando.
Mark Fisher já havia alertado: a psicologização do mal-estar serve para despolitizar o sofrimento. A dor vira falha individual, ajustável por técnica, protocolo, app. O sistema permanece intacto. O sujeito se adapta ou se culpa. A terapia Wi-Fi é a forma mais elegante dessa adaptação: barata, rápida, disponível, sem fricção.
David Smail foi ainda mais direto: a infelicidade não nasce no indivíduo, mas nas condições materiais de existência. Plataformas ignoram isso por definição. Elas não lidam com trabalho precarizado, tempo exaurido, corpo cansado. Lidam com discurso. E o discurso, quando separado da materialidade, vira ruído administrável.
Na clínica, escutar é responsabilidade. Na interface, escuta é função simulada. André Green chamaria isso de apagamento do negativo: tudo precisa circular, nada pode faltar. Mas sem falta, não há sujeito. Há repetição.
Cioran riria dessa esperança tecnificada. Camus reconheceria o absurdo: empurramos o feed como Sísifo empurra a pedra, acreditando que o próximo conteúdo talvez resolva. Kierkegaard perceberia a angústia deslocada: não se enfrenta o salto; terceiriza-se para o algoritmo.
A terapia Wi-Fi não cai quando falta rede. Cai quando aparece o real. Quando o corpo adoece. Quando o silêncio não passa. Quando a dor não quer circular. Aí a interface responde, mas não sustenta. Porque nunca foi feita para isso.
Não é que falte ética individual. O problema é estrutural. Não é mau terapeuta. É modelo. Não é falha técnica. É desenho. Chamam de cuidado o que é escala. Chamam de clínica o que é interface.
E quem aponta isso vira cético, antiquado, resistente à inovação. Como se defender a escuta fosse nostalgia. Não é. É constatação material: escuta não se automatiza sem deixar de ser escutada.
Notas do Autor — A Loka do Rolê:
Não escrevo para salvar a clínica. Nem para demonizar tecnologia. Escrevo para nomear um deslocamento: quando tudo responde, ninguém escuta. Quando tudo funciona, o sujeito some. Não há proposta aqui. Há ruído. Se incomoda, está funcionando.
Mini Bio:
José Antônio Lucindo da Silva é psicólogo clínico (CRP 06/172551), com atuação em escuta clínica, análise do discurso e crítica das relações entre tecnologia, sofrimento psíquico e condições materiais de existência. Autor do projeto Mais Perto da Ignorância.
Referências:
BAUMAN, Zygmunt. O mal-estar da pós-modernidade. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.
CAMUS, Albert. O mito de Sísifo. Rio de Janeiro: Record, 2019.
CIORAN, Emil. Breviário da decomposição. Rio de Janeiro: Rocco, 2009.
FISHER, Mark. Realismo capitalista. São Paulo: Autonomia Literária, 2020.
FREUD, Sigmund. Luto e melancolia. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.
GREEN, André. O trabalho do negativo. Porto Alegre: Artmed, 2008.
HAN, Byung-Chul. No enxame. Petrópolis: Vozes, 2018.
HAN, Byung-Chul. Psicopolítica. Belo Horizonte: Âyiné, 2018.
KIERKEGAARD, Søren. O conceito de angústia. Petrópolis: Vozes, 2017.
SMail, David. The origins of unhappiness. Londres: HarperCollins, 1993.
TURKLE, Sherry. Alone together. New York: Basic Books, 2011.
ZUBOFF, Shoshana. A era do capitalismo de vigilância. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2021.
LUCINDO DA SILVA, José Antônio.
Cuidado com os “terapeutas” picaretas nas redes sociais. Mais Perto da Ignorância, 2026.
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