"QUANDO TUDO VIRA PERFORMANCE, O CORPO VIRA RUÍDO:INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL, TRABALHO E O EQUÍVOCO DA ANTECIPAÇÃO TOTAL"
"QUANDO TUDO VIRA PERFORMANCE, O CORPO VIRA RUÍDO:
INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL, TRABALHO E O EQUÍVOCO DA ANTECIPAÇÃO TOTAL"
Autor: José Antônio Lucindo da Silva
Instituição/Projeto: Mais Perto da Ignorância (MPI)
Titulação: Psicólogo Clínico (CRP 06/172551)
RESUMO
Este artigo analisa criticamente o discurso contemporâneo que apresenta a inteligência artificial como destino inevitável do trabalho e da formação subjetiva, tomando como objeto de análise enunciados tecnocráticos que defendem a antecipação total das habilidades futuras desde a adolescência. Fundamentado nos princípios metodológicos da Psicologia enquanto ciência histórica, social e material, o texto problematiza a noção de adaptação contínua como valor moral e examina os efeitos subjetivos e éticos da conversão da experiência humana em dados, desempenho e otimização. Articula-se, ainda, uma leitura crítica à luz do Código de Ética Profissional do Psicólogo e das Cartilhas do Conselho Federal de Psicologia sobre Inteligência Artificial e Chatbots, destacando os riscos da redução da escuta, do corpo e da linguagem simbólica a processos algorítmicos. O artigo não propõe intervenções nem prescreve condutas, limitando-se a registrar o impasse em que o discurso tecnológico se torna eficiente demais e, por isso, perde o humano como referência.
Palavras-chave: Inteligência Artificial; Trabalho; Subjetividade; Ética Profissional; Psicologia Social; Materialidade.
ABSTRACT
This article critically analyzes contemporary discourse that tframes artificial intelligence as an inevitable destiny for work and subject formation, focusing on technocratic narratives that advocate for the total anticipation of future skills from adolescence onward. Grounded in methodological principles of Psychology as a historical, social, and material science, the paper questions continuous adaptation as a moral value and examines the subjective and ethical consequences of reducing human experience to data, performance, and optimization. It further articulates a critical reading informed by the Brazilian Psychologist’s Code of Ethics and official guidelines on Artificial Intelligence and Chatbots, emphasizing the risks associated with the erosion of listening, embodiment, and symbolic language under algorithmic mediation. This study does not prescribe interventions or offer solutions; it registers the impasse produced when technological discourse becomes excessively efficient and thereby loses sight of the human condition.
Keywords: Artificial Intelligence; Work; Subjectivity; Professional Ethics; Psychology; Material Conditions.
1 INTRODUÇÃO
A Metodologia de Pesquisa em Psicologia estabelece que nenhum fenômeno psíquico pode ser compreendido fora de seu contexto histórico, social e material. O método, nesse sentido, não se reduz a um conjunto de técnicas, mas expressa uma posição epistemológica que reconhece o pesquisador como parte do campo investigado. Tal orientação implica recusar abordagens que tratem fenômenos humanos como variáveis isoladas ou previsíveis fora das condições concretas de existência.
No debate contemporâneo sobre inteligência artificial e trabalho, essa premissa impõe um deslocamento crítico: discursos que anunciam o futuro do trabalho como destino técnico inevitável devem ser analisados não como descrições neutras da realidade, mas como produções simbólicas situadas, atravessadas por interesses econômicos, infraestruturais e ideológicos. Recomendações que prescrevem antecipação total das habilidades tecnológicas desde a infância constituem, portanto, um objeto legítimo de problematização psicológica e ética.
2 A FANTASIA DA ANTECIPAÇÃO TOTAL E A MORAL DA ADAPTAÇÃO
A ideia de que o futuro do trabalho pode ser garantido pela aquisição precoce de habilidades relacionadas à inteligência artificial parte da suposição de que o futuro é previsível e tecnicamente controlável. Essa suposição desloca o foco das condições materiais do presente para uma lógica performativa de antecipação permanente, na qual o valor do sujeito é medido por sua capacidade de adaptação contínua.
Na Psicologia social e do trabalho, tal lógica é amplamente reconhecida como mecanismo de individualização de problemas estruturais. Ao exigir adaptação infinita, o discurso tecnológico transforma precariedade em falha pessoal, deslocando responsabilidades coletivas para o indivíduo. O corpo, nesse regime, deixa de ser condição de existência e passa a ser tratado como obstáculo à eficiência.
3 LINGUAGEM, DADOS E PERDA DE SENTIDO
As Cartilhas do Conselho Federal de Psicologia sobre Inteligência Artificial e Chatbots alertam para o risco de confundir processamento de linguagem com produção de sentido. Sistemas algorítmicos operam por correlação estatística, não por escuta simbólica. Respondem a padrões, mas não sustentam o conflito, a ambiguidade e o silêncio constitutivos da experiência humana.
Quando essa lógica é incorporada aos discursos sobre formação subjetiva e trabalho, a linguagem tende a ser reduzida a insumo operacional. O sujeito passa a narrar-se para sistemas que não demandam narrativa, apenas desempenho mensurável. Esse processo é culturalmente situado e tende a reproduzir vieses, apagando diferenças sociais, regionais e históricas, especialmente em contextos periféricos como o brasileiro.
4 DELIMITAÇÃO ÉTICA E POSIÇÃO PROFISSIONAL
O Código de Ética Profissional do Psicólogo estabelece como princípio fundamental a preservação da dignidade, da autonomia e da singularidade do sujeito, bem como a recusa de práticas que promovam normalização, controle ou instrumentalização da experiência humana. Ainda que este artigo não configure intervenção clínica, ele se ancora nesse mesmo princípio ao rejeitar qualquer forma de prescrição normativa sobre o futuro do trabalho ou da formação juvenil.
Dizer o que adolescentes “deveriam estar fazendo o tempo todo” não constitui orientação neutra, mas imposição simbólica que ignora desigualdades estruturais de acesso à educação, tecnologia, tempo e condições materiais de vida. Do ponto de vista ético, tal discurso produz efeitos subjetivos que não podem ser ignorados.
5 DISCUSSÃO: EFICIÊNCIA, IGNORÂNCIA E EMPRECIMENTO DO HUMANO
O apelo do discurso tecnocrático reside em sua eficiência: é curto, afirmativo e aparentemente objetivo. Contudo, como já demonstrado por abordagens críticas na Psicologia e nas ciências sociais, discursos excessivamente eficientes tendem a eliminar aquilo que não controlam. A ignorância, longe de ser mero déficit, constitui condição estrutural da experiência humana.
A tentativa de erradicá-la em nome da antecipação total não produz esclarecimento, mas empobrecimento simbólico. Um sujeito que acredita poder antecipar tudo torna-se incapaz de lidar com a irrupção do real, revelando-se frágil tanto para si quanto para o próprio sistema que pretende servir.
6 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Este artigo não oferece respostas para o futuro do trabalho, tampouco propõe soluções técnicas ou educativas. Limita-se a registrar um impasse: quando a tecnologia passa a organizar a vida antes que a vida possa ser vivida, algo fundamental se perde. Do ponto de vista metodológico, ético e material, discursos de antecipação total revelam mais sobre as posições de poder de onde são emitidos do que sobre a realidade concreta que pretendem descrever.
Quando tudo funciona, ninguém escuta.
E quando ninguém escuta, o humano torna-se ruído.
REFERÊNCIAS:
BAPTISTA, Makilim Nunes; CAMPOS, Dina Cristina. Metodologia de pesquisa em Psicologia. São Paulo: Editora XYZ.
CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. Código de Ética Profissional do Psicólogo. Brasília: CFP.
CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. Cartilha de Inteligência Artificial. Brasília: CFP.
CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. Chatbots, Inteligência Artificial e Saúde Mental. Brasília: CFP.
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