Quando tudo vira performance, o corpo vira ruído
Autor: José Antônio Lucindo da Silva
Projeto: Mais Perto da Ignorância (MPI)
Palavras-chave:
Resumo:
Este texto não trata de tecnologia como causa, nem de inteligência artificial como vilã. O que se examina é uma mutação mais profunda: a reorganização da experiência humana sob um regime de funcionamento contínuo, no qual eficiência, desempenho e adaptação deixam de ser meios e passam a operar como critérios morais. A IA, os algoritmos e os discursos de produtividade não inauguram esse cenário; apenas o tornam operacionalmente estável e socialmente aceitável. Nesse contexto, o sujeito é convocado a funcionar, ajustar-se, narrar-se e otimizar-se como se fosse um sistema. O corpo aparece apenas como falha, custo ou obstáculo. A escuta se converte em simulação, o vínculo em gestão e a solidão deixa de ser exceção para tornar-se efeito ambiental tolerável. Esta crônica ensaística, narrada no tom da Loka do Rolê, não orienta, não prescreve e não oferece saída. Limita-se a registrar, de forma crítica e corrosiva, o ponto em que o discurso funciona bem demais — e, exatamente por isso, ninguém escuta mais ninguém.
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Introdução:
Chamaram de avanço porque tudo começou a funcionar.
Responder rápido virou virtude.
Silenciar virou falha.
Parar virou suspeita.
O problema nunca foi a tecnologia em si.
O problema foi a fantasia de que, finalmente, não precisaríamos mais sustentar aquilo que não funciona, não responde ou não se resolve.
A Loka do Rolê observa esse cenário sem oferecer correção. Ela não entra no debate técnico, não propõe regulação, não promete cuidado. Apenas registra o desconforto quando o sujeito tenta se explicar para um sistema que não pede explicação — apenas desempenho.
O trabalhador contemporâneo já não é explorado apenas pela força. Ele é ativado integralmente. Não se exige só trabalho, mas presença contínua, disponibilidade afetiva, coerência narrativa e adaptação constante. Se algo falha, a causa não é estrutural. É atribuída à gestão individual.
O discurso dominante insiste em aprendizado contínuo, requalificação permanente e flexibilidade infinita. Não porque haja tempo, condições materiais ou sustentação psíquica, mas porque o ritmo já foi definido. A máquina aprende sozinha, os sistemas se ajustam, o mercado se reorganiza — e o humano corre atrás tentando não se tornar descartável.
Chamam isso de futuro do trabalho.
A Loka do Rolê chama de administração da substituibilidade.
Lo
Quando uma parcela expressiva de influenciadores cogita abandonar a própria atividade, não se trata de fragilidade individual. Trata-se do desgaste de um modelo no qual o sujeito vira vitrine permanente: trabalha enquanto dorme, acorda já trabalhando e transforma o próprio adoecimento em conteúdo — tudo mediado por métricas opacas, mas obedecidas.
No mesmo movimento, surgem alertas tardios sobre riscos da inteligência artificial, colapsos sistêmicos e ameaças éticas. O padrão se repete: primeiro se implementa, depois se questiona. O pensamento crítico nunca antecede o funcionamento.
Quando, por exceção, a tecnologia recua — como em experiências educacionais que suspendem o uso de dispositivos — algo elementar reaparece: o corpo, o conflito, o silêncio, a atenção dispersa. Nada disso precisou ser ensinado. Bastou retirar a mediação.
Ainda assim, nada se aprende. O sistema segue.
Para fechar o circuito, entra o discurso da inteligência emocional. O estresse deixa de ser limite e vira recurso. O sofrimento não denuncia a estrutura; aponta suposta falha individual. A engrenagem permanece intacta, limpa, eficiente.
Freud retorna aqui não como teoria aplicada, mas como ruído incômodo: o mal-estar não é erro de gestão, é condição. Marx também reaparece, lembrando que antes de qualquer discurso é preciso existir materialmente — comer, dormir, trabalhar, sobreviver. Sem isso, não há elaboração; há apenas retórica funcional.
A solidão, então, deixa de ser vivida como exceção subjetiva e passa a operar como efeito ambiental. Não falta gente. Falta disponibilidade psíquica. Falta tempo improdutivo. Falta espaço para não funcionar.
Quando tudo funciona, ninguém escuta.
A Loka do Rolê não denuncia, não convoca, não salva. Ela apenas registra o instante exato em que o discurso se torna tão eficiente que o humano vira ruído operacional perfeitamente administrado.
Notas do Autor — MPI:
Este texto integra o projeto Mais Perto da Ignorância como ensaio crítico de circulação pública, sem finalidade clínica, diagnóstica ou interventiva. Não oferece aconselhamento psicológico, não prescreve condutas, não substitui atendimento profissional nem propõe soluções individuais ou coletivas. Seu objetivo é registrar e tensionar discursivamente aspectos do mal-estar contemporâneo, em consonância com o Código de Ética Profissional do Psicólogo, preservando a dignidade do sujeito, recusando sensacionalismo e evitando qualquer indução ou promessa de resultado. Trata-se de arquivo crítico, não de orientação prática.
Referências:
https://maispertodaignorancia.blogspot.com/2025/07/dominado-logo-substituivel.html
https://maispertodaignorancia.blogspot.com/2025/07/a-ditadura-do-eu-ideal-quando-perfeicao.html
https://maispertodaignorancia.blogspot.com/2025/07/solidao-epidemia-silenciosa-no-mundo.html
https://www.msn.com/pt-br/dinheiro/outro/n%C3%A3o-%C3%A9-s%C3%B3-glamour-estudo-explica-por-que-metade-dos-influenciadores-j%C3%A1-cogitou-abandonar-carreira/ar-AA1UbosP
https://www.msn.com/pt-br/noticias/brasil/bill-gates-alerta-que-ia-exige-regulamenta%C3%A7%C3%B5es-rigorosas-e-pode-ser-usada-para-bioterrorismo/ar-AA1U833n
https://www.msn.com/pt-br/noticias/educacao/um-ano-sem-celular-em-sala-de-aula-o-que-mudou-no-cotidiano-escolar/ar-AA1U8Y2u
Mini bio:
José Antônio Lucindo da Silva é psicólogo clínico (CRP 06/172551), com atuação em análise do discurso, sofrimento psíquico contemporâneo e mal-estar civilizacional. Idealizador do projeto Mais Perto da Ignorância, escreve a partir do choque entre materialidade, corpo e discursividade, recusando pedagogia, autoajuda e soluções instrumentais.
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