Quando o fora muda e o dentro não cabe mais: a farsa da transição sem chão
#alokadorole, @alokanorole, #maispertodaignorancia
O texto publicado na VEJA retoma uma ideia confortável: a vida muda por fora, mas o sujeito não acompanha por dentro. A solução? Trabalhar a tal “transição interna”. Parece elegante. Parece humano. Parece suficiente. Não é.
O que está em jogo não é um “dentro” preguiçoso que resiste ao novo. É um corpo tentando sobreviver a um fora que perdeu forma. O discurso muda rápido, o mundo acelera, a tecnologia promete atalhos — mas a materialidade da vida continua a mesma: trabalhar para comer, produzir para existir, responder para não cair fora do circuito. Darwin já sabia disso antes do algoritmo. O corpo continua caçando. Só trocaram a floresta pelo feed.
A depressão, aqui, não entra como diagnóstico nem como etiqueta clínica. Entra como estado — no sentido preciso de Pierre Fédida. Não é falha do eu, nem déficit de resiliência. É retração do espaço. O mundo deixa de oferecer lugar, o corpo recolhe. Silêncio não é desistência. É limite.
O discurso da transição interna costuma ignorar isso. Ele pressupõe tempo, dinheiro, estabilidade mínima. Pressupõe que o sujeito possa parar, perder, atravessar. Mas quem pode pagar por essa travessia? A própria existência deste debate já denuncia o recorte: quem tem acesso à linguagem, à reflexão, à elaboração. O resto adoece sem legenda. Vira estatística. Vira afastamento. Vira “caso”.
E aqui o Narciso contemporâneo tropeça. Ele não quer mais admirar a própria imagem. Ele quer habitar a imagem. Quer morar no reflexo, viver na interface, existir no discurso. Só que a água não sustenta corpo. A imagem não vira casa. O eu que observa tenta ocupar um fora que é só superfície. A confusão está armada.
Chamar isso de “medo de mudar” é reduzir o problema. Não se trata de apego ao conhecido. Trata-se de ausência de condições materiais para que o novo seja vivido, e não apenas narrado. Sem reorganização do fora — tempo, trabalho, renda, ritmo — a tal transição interna vira mais uma tarefa de desempenho. Mais uma cobrança. Mais um peso.
Este texto não prescreve, não orienta, não promete saída. Nomeia um impasse. E lembra, com algum deboche necessário, que não há saúde mental possível quando o discurso corre solto e o corpo paga a conta.
O texto completo está no link. Leia se quiser sustentar o desconforto.
👉 Leitura completa:
https://veja.abril.com.br/coluna/viver-com-ousadia/o-que-acontece-quando-a-vida-muda-por-fora-mas-nao-por-dentro/
REFERÊNCIAS:
FÉDIDA, P. O afeto de depressão. São Paulo: Escuta, 1999.
DARWIN, C. A origem das espécies. São Paulo: Martin Claret, 2004.
HAN, B.-C. Sociedade do cansaço. Petrópolis: Vozes, 2017.
CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. Código de Ética Profissional do Psicólogo. Brasília: CFP, 2005.
CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. Guia para prática responsável: Inteligência Artificial na Psicologia. Brasília: CFP, 2023.
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