O FUTURO EM BETA E O HUMANO EM DÉBITO
Autor: José Antônio Lucindo da Silva
Projeto: Mais Perto da Ignorância (MPI)
Palavras-chave: inteligência artificial; trabalho; sofrimento psíquico; escuta simulada; desempenho; tecnologia; subjetividade; precarização; discurso.
Resumo:
Dizem que a revolução tecnológica não é sobre máquinas, é sobre você. Dizem que a inteligência artificial está moldando o cérebro, reinventando o trabalho, anunciando um “momento ChatGPT” da robótica. Dizem muita coisa. Este texto não desmente com dados nem confirma com entusiasmo. Ele faz outra coisa: encosta o discurso no corpo. A Loka do Rolê atravessa o hype da IA, o mantra do upskilling, a promessa dos robôs humanoides e o alerta neurocientífico para mostrar um ponto comum: a tecnologia aparece sempre como solução limpa para um mundo sujo, enquanto o humano fica responsável por absorver o impacto. Quando a máquina falha, o indivíduo se adapta. Quando o robô tropeça, o trabalhador aprende mais. Quando o cérebro cansa, o problema vira uso inadequado. O resultado não é progresso nem colapso, é repetição. Repetição de um discurso que higieniza o sofrimento, simula escuta e transforma exaustão estrutural em déficit pessoal. Este texto não oferece saída. Apenas sustenta o incômodo: talvez o problema nunca tenha sido a tecnologia, mas a insistência em chamá-la de futuro enquanto o presente segue inabitável.
Introdução:
Toda vez que o futuro é anunciado, alguém fica para trás.
E quase nunca é o algoritmo.
A Loka do Rolê olha para esse amontoado de manchetes, relatórios e palestras motivacionais e vê um padrão: promessa alta, chão baixo. O discurso corre. O corpo manca. E no meio disso tudo, alguém pergunta se você já se atualizou o suficiente.
O MIT mede cérebro. A McKinsey mede competência. As big techs medem expectativa.
Ninguém mede cansaço.
Quando o estudo diz que a IA reduz esforço cognitivo, o alerta não é sobre a máquina. É sobre o ideal implícito de sujeito: alguém sempre disponível para pensar, produzir, aprender e se reinventar. Como se atenção não custasse energia. Como se pensar não exigisse tempo. Como se o corpo fosse detalhe técnico.
Aí entra o discurso do upskilling e do reskilling como redenção moderna. Não é exploração, é oportunidade. Não é instabilidade, é aprendizado contínuo. Se você não acompanha, o problema não é o sistema — é sua falta de atualização. Freud chamaria isso de deslocamento da culpa: o mal-estar deixa de ser estrutural e vira falha individual.
Quando a robótica falha no mundo real, o roteiro se repete. Robôs prometem revolução, mas não dobram toalha. Não cuidam de idosos. Não sustentam autonomia fora do vídeo promocional. Só que isso não freia o discurso. Ele apenas muda de alvo. Enquanto o robô não funciona, você precisa funcionar melhor.
Byung-Chul Han já avisou: o sujeito do desempenho não é explorado por outro, explora a si mesmo — com entusiasmo. A tecnologia entra como mediadora elegante dessa autoexploração. Não manda, sugere. Não obriga, otimiza. Não silencia, responde. Só que resposta não é escuta. É eco.
Bauman ajuda a entender o resto: vínculos frágeis, promessas líquidas, futuro sempre adiado. A empresa promete reinvenção, o trabalhador assume o risco. O algoritmo promete eficiência, o corpo paga o preço. A inovação segue intacta; o humano, descartável.
E assim a narrativa se fecha:
— se o cérebro cansa, use melhor a IA;
— se o robô falha, aprenda mais;
— se o trabalho adoece, adapte-se.
Não há escuta aqui. Há gestão do sofrimento com linguagem tecnológica.
Notas do Autor — MPI:
Este texto não critica a tecnologia em si. Critica o uso discursivo da tecnologia como álibi para manter tudo igual, deslocando o custo sempre para o sujeito. Não é um chamado à recusa nem à adesão. É um exercício de fricção. Onde não há fricção, só há marketing.
Referências:
ÉPOCA NEGÓCIOS. Ainda falta muito: robôs prometem revolução, mas ainda patinam no mundo real. 2026.
https://epocanegocios.globo.com/tecnologia/noticia/2026/01/ainda-falta-muito-robos-prometem-revolucao-mas-ainda-patinam-no-mundo-real.ghtml
OLHAR DIGITAL. A revolução tecnológica não é sobre máquinas. É sobre você. 2026.
https://olhardigital.com.br/2026/01/17/colunistas/a-revolucao-tecnologica-nao-e-sobre-maquinas-e-sobre-voce/
FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização. Rio de Janeiro: Imago, 1997.
HAN, Byung-Chul. Sociedade do cansaço. Petrópolis: Vozes, 2017.
BAUMAN, Zygmunt. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Zahar, 2001.
Projeto Mais Perto da Ignorância.
http://maispertodaignorancia.blogspot.com
Mini bio:
José Antônio Lucindo da Silva é psicólogo clínico (CRP 06/172551), autor do projeto Mais Perto da Ignorância e criador da Loka do Rolê — uma instância discursiva dedicada a tensionar tecnologia, trabalho e sofrimento psíquico sem pedagogia, sem promessa e sem consolo.
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@alokanorole
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