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“Não é revolta. É adestramento frustrado.Quando o discurso perde relevância antes de perder a verdade”

“Não é revolta. É adestramento frustrado.Quando o discurso perde relevância antes de perder a verdade”



Autor: José Antônio Lucindo da Silva

Projeto: Mais Perto da Ignorância


Palavras-chave:


Adultização; Plataformas digitais; Infância; Capitalismo de vigilância; Ressentimento; Materialidade; Escuta simulada; Subjetividade.




Resumo:


Não se trata de defender plataformas, nem de atacar influenciadores. Trata-se de localizar um deslocamento estrutural: o momento em que um discurso verdadeiro perde eficácia não porque estava errado, mas porque já não encontra tempo, corpo e condições materiais para operar. A adultização denunciada não cessou; apenas mudou de forma, adaptando-se ao regime de dados, visibilidade e captura. O episódio envolvendo ataques de crianças ao influenciador Felca após mudanças no Roblox não expressa revolta política nem consciência crítica precoce. Expressa o colapso de uma subjetividade treinada a operar sem intervalo, sem limite introjetado e sem simbolização do “não”. O ressentimento não nasce do corte, mas da promessa anterior de fluxo ilimitado. A crítica aqui não é moral. É material.




Introdução:


Há um erro recorrente na leitura desse episódio: imaginar que estamos diante de um conflito entre “liberdade” e “cuidado”.

Não estamos.


O que se vê é outra coisa: a perda de relevância do discurso crítico dentro do próprio ecossistema que ele ajudou a revelar. E isso não invalida a denúncia anterior. Apenas a desloca.


Felca denunciou a adultização.

A denúncia era verdadeira.

Mas verdade, como Marx já alertava, não opera fora das condições materiais que a sustentam.


O problema não é a crítica.

É o tempo histórico em que ela tenta agir.




Crianças ameaçando um adulto que não possui qualquer poder decisório sobre uma plataforma não estão “erradas”.

Estão adestradas.


Adestradas a confundir acesso com direito.

Funcionalidade com liberdade.

Interface com mundo.


Freud já indicava, em O mal-estar na civilização, que a cultura exige renúncia pulsional para existir. O que mudou não foi a exigência, mas o lugar onde ela foi delegada. O limite não é mais transmitido pela linguagem, pela relação ou pela presença do outro. Ele foi terceirizado para sistemas automáticos.


Quando o sistema falha — ou simplesmente muda — não há simbolização do “não”.

Há ataque.




Byung-Chul Han descreve isso como sociedade da positividade: tudo deve fluir, responder, funcionar. O problema é que Han permanece, muitas vezes, no plano da linguagem. Aqui, o que aparece é mais brutal: a falência do tempo psíquico para elaboração.


Não há tempo.

Não há intervalo.

Não há silêncio.


E sem silêncio, não há subjetivação.


A adultização não acabou.

Ela apenas migrou.


Saiu da exposição explícita do corpo e entrou na exigência de performance comunicacional, de visibilidade, de resposta constante. A criança continua sendo convocada a operar como adulto — agora não mais dançando, mas respondendo, interagindo, produzindo presença digital.




Zuboff já havia nomeado isso: não se trata de uso, mas de extração. A infância não é protegida; ela é segmentada. O discurso do cuidado funciona como verniz ético de um sistema que continua operando pela lógica da captura.


E aqui aparece o paradoxo central:

o influenciador que denunciou a adultização torna-se, agora, irrelevante dentro do fluxo que ele mesmo ajudou a expor.


Não porque estava errado.

Mas porque o discurso crítico não compete com a arquitetura do consumo.


Marx chamaria isso de limite do ideólogo quando ignora a base material. Não como acusação moral, mas como constatação estrutural: o pensamento não comanda os meios de produção do sentido.


O ressentimento infantil não nasce contra Felca.

Felca é apenas o nome disponível.




Bauman já alertava: em sociedades líquidas, a frustração não encontra mediação simbólica. Ela precisa de alvo. Se não houver responsável real, cria-se um.


E a mídia, ao suavizar isso como “revolta”, perde o ponto essencial: não há revolta sem projeto. Há descarga.


A introdução de verificação facial, documentos e autorização parental tampouco resolve o problema. Apenas o desloca. A privacidade vira moeda de troca naturalizada. A criança aprende cedo que existir é se mostrar, validar-se, provar quem é. O cuidado vira burocracia técnica. A vigilância vira rotina.

Nada disso interrompe a adultização.

Ela apenas a sofistica.

O discurso público insiste em moralizar: “é para proteger”.

Mas proteção sem tempo, sem relação e sem limite simbólico não protege. Regula.



E regular não é educar.

É administrar fluxo.


Notas do Autor — A LOKA DO ROLÊ:


Chamaram de liberdade aquilo que só funcionava enquanto respondia.

Quando parou, sobrou ataque.


Não houve revolta.

Houve curto-circuito.

Criança não odeia o limite.

Odeia o colapso da promessa.

E promessa nenhuma sobrevive quando o tempo para elaborá-la já foi vendido.


— A Loka do Rolê




Referências:


BAUMAN, Zygmunt. O mal-estar da pós-modernidade. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.


FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.


HAN, Byung-Chul. A sociedade do cansaço. Petrópolis: Vozes, 2017.


HAN, Byung-Chul. A crise da narração. Petrópolis: Vozes, 2023.


ZUBOFF, Shoshana. A era do capitalismo de vigilância. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2021.


ROUDINESCO, Elisabeth. O eu soberano. Rio de Janeiro: Zahar, 2022.


CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. O suicídio e os desafios para a Psicologia. Brasília: CFP, 2013.


O GLOBO. Felca relata ataques de crianças após mudanças no Roblox.


Disponível em:

https://oglobo.globo.com/brasil/noticia/2026/01/15/felca-relata-ataques-de-criancas-apos-mudancas-no-roblox-e-cita-ameacas-nas-redes-vou-te-matar.ghtml 


Mini bio:


José Antônio Lucindo da Silva é psicólogo clínico (CRP 06/172551), autor do projeto Mais Perto da Ignorância, dedicado à análise crítica da subjetividade contemporânea, tecnologia, trabalho e sofrimento psíquico, sem promessas de adaptação.


#alokadorole

@alokanorole

#maispertodaignorancia


Blog:

https://maispertodaignorancia.blogspot.com/



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