Curtidas Não Elaboram Dor
Autor
José Antônio Lucindo da Silva:
Projeto
Mais Perto da Ignorância (MPI):
Palavras-chave:
Resumo:
Todo mundo sofre. Isso nunca foi novidade. A novidade é que, agora, a dor precisa performar bem. Precisa ser visível, compartilhável, reconhecível e, de preferência, mensurável. Não basta doer — é preciso que doa do jeito certo, na gramática certa, com o engajamento adequado. Este texto não questiona a existência do sofrimento nem relativiza a dor psíquica. Questiona o regime discursivo que passou a validá-la apenas quando ela circula bem. A partir de Freud, André Green, Ernest Becker, Sartre e Byung-Chul Han, este ensaio examina como a depressão e a solidão deixaram de ser apenas experiências humanas para se tornarem performances discursivas sustentadas por aparatos tecnológicos que organizam, correlacionam e devolvem narrativas prontas. Não se trata de futurologia nem de condenação da tecnologia, mas de um diagnóstico do presente: quando o sofrimento encontra resposta imediata demais, ele perde tempo de elaboração e retorna como eco, identidade ou sintoma. A Loka do Rolê não oferece saída. Apenas aponta o impasse onde a dor deixou de precisar de corpo e passou a depender de curtidas.
Introdução:
Todo mundo sofre.
Mas nem todo sofrimento vale a mesma coisa.
Há dores que circulam.
Há dores que performam.
Há dores que engajam.
E há dores que não existem — porque não aparecem.
O problema não é a dor.
Nunca foi.
O problema é o regime que decide quando ela é legítima.
Hoje, a dor só é reconhecida quando encontra visibilidade suficiente. Quando vira narrativa. Quando entra na gramática correta. Quando é devolvida pelo algoritmo como “relevante”. Fora disso, ela até existe — mas não conta.
É aqui que o discurso começa a feder.
Freud já avisou: o sofrimento vai emergir de um jeito ou de outro. Ou na palavra, ou no sintoma. Não existe saída elegante. Não existe neutralização. Não existe promessa de resolução.
O que mudou não foi isso.
O que mudou foi o tempo.
O tempo de elaboração foi comprimido.
O silêncio virou ruído.
A pausa virou falha de performance.
No lugar da elaboração, entrou a resposta.
No lugar da escuta, entrou a conveniência.
No lugar do outro, entrou a superfície.
As tecnologias de assistência simbólica — chamadas hoje, com excesso de marketing, de “inteligência artificial” — não inventaram o sofrimento. Elas inventaram um modo eficiente de organizá-lo discursivamente.
Essas ferramentas não operam por nuance.
Operam por correlação.
Elas não lidam com ambiguidade viva.
Lidam com padrão.
Elas não metabolizam contradição.
Classificam.
O resultado não é silêncio.
É excesso de fala sem lastro.
A dor passa a existir enquanto conteúdo circulável.
Enquanto identidade reconhecível.
Enquanto ativo de engajamento.
Curtidas não elaboram dor.
Comentários não metabolizam luto. Visualizações não sustentam existência.
Mas organizam o discurso.
É aqui que o narcisismo muda de regime.
Não se trata mais do eu que se perde no outro. Trata-se do eu que se fecha em si, refletido infinitamente por superfícies técnicas que devolvem linguagem sem alteridade.
André Green chamou isso de narcisismo de morte. Não porque haja desejo de morrer, mas porque há retirada do investimento objetal. Tudo retorna ao eu. Tudo gira em torno do eu. Nada se desloca.
O eu se performa para si mesmo.
Sem frustração.
Sem resistência.
Sem reconhecimento real.
Isolamento não como solidão, mas como clausura sofisticada.
Byung-Chul Han chamou isso de cansaço.
Não o cansaço do excesso de trabalho apenas, mas o cansaço de ter que se sustentar como projeto de si o tempo todo.
A ironia surge aí não como crítica libertadora, mas como resto funcional. Um modo mínimo de continuar falando sem acreditar demais no que se diz. Não salva. Sustenta.
Ernest Becker já havia apontado a mentira caracterológica: precisamos de ficções para viver diante da morte. O problema é que hoje essas ficções exigem cada vez menos coragem para serem habitadas. Elas vêm prontas. Baratas. Disponíveis.
Nem a verdade fortalece.
Nem a mentira sustenta.
Sartre chamaria isso de má-fé organizada. Não uma mentira consciente, mas uma estrutura social que permite existir sem enfrentar a contingência radical da existência.
A essência deixou de ser construída na experiência.
Foi terceirizada ao discurso.
E o discurso, agora, responde rápido demais.
Quando a dor encontra resposta antes de encontrar tempo, ela não se elabora. Ela se fixa. Vira identidade. Vira sintoma mudo. Vira burnout identitário.
Não é que o sofrimento tenha aumentado.
É que ele passou a precisar performar para existir simbolicamente.
Todo mundo sofre.
Mas só alguns sofrem “do jeito certo”.
Notas do Autor — MPI:
Este texto não orienta, não prescreve, não oferece saída nem promete elaboração. Ele nomeia um impasse estrutural do presente. Qualquer leitura que transforme isso em manual, conselho ou solução rompe o protocolo do projeto. A Loka do Rolê não consola. Apenas impede que o discurso se feche onde ele deveria falhar.
Referências:
https://www.freud.org.br
https://www.scielo.br
https://www.goodreads.com/book/show/4069.The_Denial_of_Death
https://monoskop.org/Byung-Chul_Han
https://plato.stanford.edu/entries/sartre/
Mini bio:
José Antônio Lucindo da Silva é psicólogo clínico (CRP 06/172551), com formação em Psicologia e pós-graduação em Psicologia Clínica com ênfase em Psicanálise. Desenvolve o projeto Mais Perto da Ignorância, onde escreve, pesquisa e produz conteúdo crítico sobre subjetividade, sofrimento, tecnologia e cultura, recusando soluções rápidas, pedagogia e promessas de adaptação confortável.
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