APRESENTAÇÃO — MONÓLOGO DA LOKA DO ROLÊ
Isso aqui não começa.
Porque nada começou direito.
Não tem origem.
Não tem ponto inaugural.
Não tem aquele momento limpo em que alguém percebe algo, respira fundo e decide escrever um livro.
Isso aqui nasce de resto.
De sobra.
De erro de cálculo.
Eu não fui chamada pra apresentar nada.
Eu apareci porque ninguém conseguiu me tirar.
Tentaram organizar.
Tentaram estruturar.
Tentaram fazer método, capítulo, progressão, argumento, nota de rodapé.
Tentaram explicar o que estava acontecendo com o humano, com a clínica, com o trabalho, com a tecnologia, com o corpo.
E toda vez que começava a fazer sentido demais, apodrecia.
Esse livro não é resposta.
Não é denúncia.
Não é proposta.
Não é ferramenta.
Não é manual.
Não é esperança com roupa de crítica.
É um amontoado controlado de falhas.
Aqui não tem superação.
Não tem travessia.
Não tem depois.
Não tem “apesar de tudo”.
Não tem futuro melhor prometido no último parágrafo.
Tem permanência do incômodo.
A escrita que você tem na mão não quer convencer ninguém.
Não quer salvar ninguém.
Não quer melhorar ninguém.
Ela só se recusa a funcionar como o resto.
Enquanto tudo pede clareza, ela sustenta opacidade.
Enquanto tudo pede engajamento, ela sustenta retirada.
Enquanto tudo pede escuta, ela mostra o ruído.
Porque escuta, do jeito que estão vendendo, virou interface.
Virou simulação.
Virou atendimento automático do sofrimento.
Aqui não.
Aqui a escuta não acolhe.
Não cura.
Não legitima.
Ela só registra que algo não fecha.
Este livro existe porque o discurso do progresso ficou pequeno demais pro corpo.
Porque a clínica virou serviço.
Porque o trabalho virou moral.
Porque a tecnologia virou promessa religiosa.
Porque o sujeito virou projeto mal-acabado.
Não foi a inteligência artificial que criou isso.
Ela só chegou depois.
Como chega sempre: ocupando um vazio já aberto.
O que você vai ler aqui não explica a era.
Não interpreta o colapso.
Não traduz o sofrimento.
No máximo, aponta onde a conversa começou a feder.
Tem teoria.
Tem clínica.
Tem filosofia.
Tem sociologia.
Tem psicologia.
Tem autor morto, autor vivo, autor exausto.
Mas nada disso está aqui pra te ensinar.
Está aqui porque segurou o chão enquanto o resto cedia.
Os textos não se organizam para facilitar a leitura.
Eles se organizam para não virar delírio.
Forma é o que impede o surto.
Não o sentido.
E antes que alguém pergunte pra quem é isso:
não é pra quem procura resposta.
não é pra quem quer método.
não é pra quem precisa sair melhor do que entrou.
É pra quem já percebeu que não vai sair ileso de nada.
Agora, antes de continuar, tem gente que precisa ser nomeada.
Não como referência.
Não como autoridade.
Não como aval.
Mas como presença material.
Nada disso teria sido escrito sem quem sustentou o silêncio quando o texto ficou intragável.
Sem quem aguentou a repetição.
Sem quem não pediu explicação quando eu não tinha.
Tem dívida aqui.
Não intelectual.
Existencial.
Com quem leu antes de fazer sentido.
Com quem ouviu sem transformar em lição.
Com quem ficou quando não tinha nada pra oferecer além de cansaço.
Com os autores que não prometeram salvação.
Com os clínicos que não venderam esperança.
Com os corpos que pagaram o preço de viver no tempo errado.
Com quem ensinou que lucidez não é virtude.
É fardo.
Com quem não confundiu cuidado com correção.
Com quem não exigiu fechamento.
Esse livro também existe por quem já não está.
Por quem escreveu antes e não viu nada melhorar.
Por quem pensou antes e foi engolido pelo mesmo sistema que agora se apresenta como inovação.
Nada aqui é homenagem.
Homenagem organiza demais.
É reconhecimento seco.
Se você continuar, não espere conforto.
Não espere clareza.
Não espere catarse.
Espere fricção.
Espere interrupção.
Espere cansaço.
E, se em algum momento parecer que finalmente fez sentido,
desconfie.
Provavelmente é aí que o texto vai precisar parar.
— A Loka do Rolê
Mini bio:
José Antônio Lucindo da Silva é psicólogo clínico (CRP 06/172551), com atuação em clínica, análise do discurso e sofrimento psíquico contemporâneo. Autor e pesquisador do projeto Mais Perto da Ignorância, dedica-se ao estudo crítico das relações entre tecnologia, subjetividade, trabalho e ética na Psicologia.
#alokadorole
#maispertodaignorancia
Comentários
Enviar um comentário