QUANDO O CORPO ANDA, O DISCURSO CHEGA ATRASADO
Autor: José Antônio Lucindo da Silva
Projeto: Mais Perto da Ignorância
Mini bio:
Psicólogo e pesquisador independente. Este texto constitui uma elaboração ensaística entre muitas possíveis, sem pretensão de consenso, verdade final ou orientação normativa.
Palavras-chave: corpo; sobrevivência; discurso midiático; ética; materialidade; confiança; limite.
RESUMO
Esta crônica articula, de forma ensaística e crítica, os depoimentos públicos relacionados ao caso do jovem Roberto Farias Tomaz, desaparecido por cinco dias no Pico Paraná, a partir de uma leitura centrada na materialidade do corpo e na posterior produção discursiva. Sem emitir juízo jurídico, moral ou clínico, o texto tensiona a distância entre o acontecimento corporal extremo e a tentativa civilizatória de reorganizá-lo por meio de valores como confiança, erro, abandono e aprendizado. Sustenta-se que, quando o corpo entra em modo de sobrevivência, o discurso perde precedência, chegando apenas depois, como legenda tardia. O texto respeita o Código de Ética do Psicólogo, não prescreve condutas e não produz orientações, limitando-se à análise crítica dos discursos veiculados em meios de comunicação e redes sociais.
INTRODUÇÃO
Primeiro veio o corpo.
Depois, a montanha.
Depois, a fome.
Depois, o ruído.
O discurso veio depois.
Sempre depois.
Nada do que foi dito publicamente existia no momento em que o corpo começou a falhar.
Nada do que foi explicado organizava a caminhada quando não havia mapa, celular ou promessa.
O que veio depois foi esforço de costura: tentativa de transformar colapso em narrativa.
Disseram que havia base.
Disseram que havia acampamento.
Disseram que havia regra.
Disseram que “vai junto, volta junto”.
Disseram depois.
Antes, havia peso.
Peso real, distribuído de forma desigual entre dois corpos que não se conheciam o suficiente para sustentar um pacto corporal. Dois meses de encontros. Conversas. Troca de mensagens. Confiança discursiva.
A montanha não reconhece confiança discursiva.
Ele passou mal. Isso aparece em praticamente todos os depoimentos. Mas sempre como detalhe. Nunca como eixo. O mal-estar é tratado como incidente, não como marco. No entanto, é ali que o acontecimento começa.
Ela diz que correu. Diz que esse é seu estilo de vida. Diz que gosta de ir sozinha. Diz que estava preparada. Barraca. Lençol. Mochilas. Peso administrável. Ele, não. Ele estava pesado. Exausto. Fragilizado.
O corpo não falha de forma simbólica. Ele falha de forma concreta.
Eles deixaram coisas pelo caminho. Casas abandonadas. Fazenda. Documentos. Celular. Comida. Cada gesto depois se torna prova, indício, suspeita. Mas no momento eram apenas tentativas desorganizadas de lidar com excesso de peso e ameaça de chuva.
O corpo não faz estratégia. Ele reage.
Ele diz que achou que estava sozinho. Cinco dias. Achou que tinham encerrado as buscas. Ouviu um helicóptero uma única vez. Depois, nada. A selva fazia muito barulho. Isso não é metáfora. É dado sensorial.
Sem celular, sem comunicação, sem saber se alguém o procurava. O outro desaparece não por abandono moral, mas por ausência perceptiva. O mundo encolhe. Resta o passo seguinte.
Ele caminhou mais de vinte quilômetros. Desceu rio. Pulou cachoeira. Dormiu em gruta. Cobriu-se de folhas. Alimentou-se de uma ameixa e um pedaço de panetone. Hidratou-se onde pôde. Cinco dias em jejum.
Isso não é narrativa. É fisiologia.
O hospital fala baixo. Desidratação moderada. Jejum prolongado. Hidratação de resgate. Observação clínica. Dieta líquida posterior. Nenhuma palavra sobre abandono. Nenhuma sobre confiança. Nenhuma sobre aprendizado.
A medicina mede. Não moraliza.
A mídia precisa de outra coisa.
A mídia pede erro. Pede culpa. Pede arrependimento público. Pede fechamento. Pede lição. A mídia transforma colapso em drama pedagógico. Cada detalhe vira cena. Cada gesto vira prova. Até uma cócega vira explicação causal.
Ela diz que errou. Diz que se arrepende. Diz que quebrou a regra. Diz que aprendeu. Diz porque precisa dizer. Porque o espaço público exige essa moeda simbólica para encerrar o espetáculo.
Ela diz também que teve medo. Medo real. Ameaças. Família ameaçada. Saída de casa. Falta de comunicação. Exposição. O corpo sai da montanha e entra na vitrine.
O segundo acontecimento começa aí: o linchamento discursivo.
Ele, por outro lado, fala pouco. Diz que não entende por que ela desceu sozinha. Diz que isso quebrou a confiança. Diz que está em paz. Diz que não julga. Quer devolver a mochila. Quer conversar depois.
Não há ódio. Não há acusação. Há nomeação mínima de uma fratura relacional, não jurídica.
A polícia investiga porque precisa investigar. O delegado fala de versões condizentes. De ausência de indícios de crime. De procedimento. De escuta. A investigação aqui responde mais à pressão social do que à materialidade do fato.
Mais de cem bombeiros. Trezentos voluntários. Área complexa. Trabalho exaustivo. Ele chega sozinho.
Essa frase desmonta tudo de novo.
Ele não é resgatado inconsciente. Não é carregado como vítima passiva. Ele chega. Andando. O corpo fez o que podia.
A confiança, aqui, não se quebrou como pacto moral. Ela nunca existiu como pacto corporal testado sob limite. Existia como expectativa discursiva. A montanha não negocia expectativa.
Chamaram de abandono. Porque abandono organiza culpa. Chamaram de erro. Porque erro permite aprendizado. Chamaram de lição. Porque lição acalma quem observa de fora.
O que houve foi perda de sincronia. Dois corpos em ritmos diferentes. Um entrando em colapso antes do outro. Decisões fragmentadas. Ambiente hostil.
Nada épico. Nada exemplar.
Quando o corpo decide, o valor atrapalha. O discurso vem depois tentando reorganizar o caos, distribuindo culpa, produzindo sentido, fingindo controle.
NOTAS DO AUTOR — MPI
Este texto não constitui avaliação clínica, parecer técnico, laudo psicológico ou orientação de conduta. Trata-se de uma elaboração ensaística crítica sobre discursos públicos, respeitando o Código de Ética do Psicólogo (CFP). Nenhuma das pessoas citadas é objeto de diagnóstico, julgamento moral ou imputação de responsabilidade jurídica. O objetivo é tensionar a distância entre materialidade corporal e produção discursiva na cultura contemporânea.
REFERÊNCIAS:
GLOBO. Jovem desaparecido no Pico Paraná é encontrado vivo após cinco dias. G1 Paraná, jan. 2026. Disponível em: https://g1.globo.com/pr/. Acesso em: jan. 2026.
ESTADÃO. Jovem que ficou dias perdido critica amiga e fala em confiança quebrada. O Estado de S. Paulo, jan. 2026. Disponível em: https://www.estadao.com.br/. Acesso em: jan. 2026.
CNN BRASIL. Buscas por jovem no Pico Paraná mobilizam bombeiros e voluntários. CNN Brasil, jan. 2026. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/. Acesso em: jan. 2026.
METRÓPOLES. Resgate no Pico Paraná mobiliza mais de 300 voluntários. Metrópoles, jan. 2026. Disponível em: https://www.metropoles.com/. Acesso em: jan. 2026.
TRIBUNA DA MASSA. Depoimento da amiga do jovem resgatado no Pico Paraná. Instagram, jan. 2026.
METROPOLITANA FM. Jovem relata dias perdido na mata e fala sobre isolamento. Instagram, jan. 2026.
TANAHOTA NEWS. Entrevista com trilheira envolvida no caso do Pico Paraná. Instagram, jan. 2026.
NOTÍCIAS DE JOINVILLE. Delegado fala sobre investigação e estado de saúde do jovem resgatado. Jan. 2026.
CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. Código de Ética Profissional do Psicólogo. Brasília: CFP, 2005.
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