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AGENTES, TÉCNICA E O DESAPARECIMENTO DA MATERIALIDADE:

"AGENTES, TÉCNICA E O DESAPARECIMENTO DA MATERIALIDADE:



uma crítica psicossocial à automação da resposta"

Autor: José Antônio Lucindo da Silva
CRP: 06/172551

Projeto: Mais Perto da Ignorância (MPI)


Resumo

Este artigo propõe uma análise crítica e ensaística da figura do agente técnico no contexto contemporâneo, articulando contribuições da Psicologia Social, da crítica sociológica da técnica e da economia política dos dados. Partindo de obras como Modernidade e Holocausto (Bauman), IBM e o Holocausto (Black), A Era do Capitalismo de Vigilância (Zuboff), Algoritmos de Destruição em Massa (O’Neil) e os diagnósticos psíquicos de Byung-Chul Han, o texto sustenta que os agentes não devem ser compreendidos apenas como ferramentas tecnológicas, mas como operadores estruturais de condicionamento subjetivo e reorganização do comportamento humano. A análise é conduzida no registro discursivo da Loka do Rolê, recusando a neutralidade técnica, a psicologização adaptativa do sofrimento e a exclusão sistemática da materialidade concreta. O artigo segue os princípios éticos da Psicologia, conforme o Código de Ética Profissional do Psicólogo, e respeita as diretrizes de uso responsável da inteligência artificial, sem prescrição de conduta ou indução normativa.

Palavras-chave: agentes técnicos; psicologização social; subjetividade; materialidade; capitalismo de vigilância; ética profissional.


1. Introdução

Não se trata aqui de perguntar o que um agente faz.
Essa pergunta já nasce reduzida.

A pergunta que sustenta este texto é outra:
o que um agente representa enquanto forma histórica de organização da vida?

A proliferação contemporânea de agentes técnicos — automatizados, responsivos, orientados por objetivos — não ocorre no vazio. Ela emerge num contexto em que o sofrimento foi traduzido em variável, a subjetividade em desempenho e o tempo humano em custo operacional. Este artigo parte da recusa em tratar tais dispositivos como neutros ou meramente instrumentais. A técnica, como já advertia Bauman (1998), não opera fora da moralidade; ela a reorganiza.

A Psicologia, enquanto campo científico e profissional, encontra-se implicada nesse cenário. Não como vítima passiva, mas como parte de um ecossistema que frequentemente converte o mal-estar em linguagem funcional e o sofrimento em gestão de comportamento. O agente técnico aparece, então, como um espelho ampliado dessa lógica.


2. Metodologia

Este trabalho caracteriza-se como um estudo teórico-crítico de natureza ensaística, conforme os parâmetros apresentados na Metodologia de Pesquisa em Psicologia (Gil; Sampieri; Minayo). Não se trata de pesquisa empírica, nem de revisão sistemática, mas de uma análise conceitual articulada, sustentada por obras clássicas e contemporâneas, com diálogo interdisciplinar entre Psicologia, Sociologia, Filosofia e Estudos Críticos da Tecnologia.

O método adotado é o da análise discursiva crítica, com ênfase na historicização dos conceitos, na identificação de estruturas de poder e na recusa de generalizações prescritivas. O tom narrativo da Loka do Rolê não invalida o rigor metodológico; ao contrário, opera como dispositivo de fricção contra a naturalização do discurso técnico.

Do ponto de vista ético, o artigo respeita integralmente o Código de Ética Profissional do Psicólogo (CFP, 2005), abstendo-se de orientações clínicas, diagnósticos, previsões de resultado ou induções ideológicas, bem como as recomendações da Cartilha de IA quanto à não automação de decisões humanas sensíveis.


3. Técnica, obediência e fragmentação da responsabilidade

Bauman (1998) demonstrou que o Holocausto não foi um colapso da modernidade, mas uma de suas expressões possíveis. O horror não emergiu da ausência de racionalidade, mas de sua aplicação extrema. A técnica fragmenta ações, distribui tarefas e dissolve responsabilidades. Ninguém decide o todo; cada um apenas executa sua parte corretamente.

O agente técnico herda esse princípio estrutural. Ele não precisa compreender o efeito final de sua operação. Basta funcionar. O dano, quando ocorre, aparece sempre fora do sistema: como externalidade, como exceção, como erro humano.

Aqui não há falha moral individual. Há arquitetura funcional.


4. Dados, classificação e a neutralidade que mata

Edwin Black (2001) evidencia, em IBM e o Holocausto, que a tecnologia de processamento de dados não apenas auxiliou o regime nazista, mas estruturou a logística da exclusão. A técnica não matou diretamente; ela organizou. Classificou. Cruzou informações. Tornou o extermínio eficiente.

Os agentes contemporâneos operam sob a mesma lógica formal:
reduzir o humano a traço, perfil, padrão e previsibilidade.

O problema não é a intenção do agente.
É sua indiferença estrutural ao mundo vivido.


5. Capitalismo de vigilância e antecipação do comportamento

Zuboff (2019) radicaliza essa análise ao demonstrar que o comportamento humano tornou-se matéria-prima econômica. O agente técnico não responde ao sujeito; ele antecipa, modela e condiciona. O futuro deixa de ser aberto e passa a ser calculável.

Nesse cenário, o desejo não aparece como potência, mas como demanda. A subjetividade é reorganizada para caber em circuitos de resposta rápida. O agente não apenas executa tarefas; ele treina o humano a ser executável.


6. Algoritmos que não erram, apenas repetem

O’Neil (2016) mostra que os algoritmos mais perigosos não são os que falham, mas os que funcionam perfeitamente dentro de parâmetros injustos. Eles ampliam desigualdades, penalizam vulneráveis e operam sem correção interna.

O agente, aqui, não é burro nem malévolo.
Ele é persistente.

E quanto mais escala, mais dano estrutural produz.


7. Psicologia, cansaço e adesão voluntária

Byung-Chul Han (2015; 2017) fornece o diagnóstico psíquico do terreno onde os agentes prosperam. A sociedade do desempenho não precisa de coerção externa. O sujeito já internalizou a exigência. Já se autoexplora. Já confunde valor com produtividade.

O agente apenas se encaixa.

Ele acelera aquilo que o sujeito já aceita.


8. Psicologização social e exclusão da materialidade

O ponto mais crítico, e talvez mais incômodo, é este:
o agente lida bem com discurso, mas não com materialidade.

Fome, exaustão, risco, trabalho bruto, desigualdade concreta — tudo isso aparece como ruído. A psicologização social opera como tradução adaptativa: transforma sofrimento em narrativa gerenciável.

Não para cuidar.
Para manter o sistema funcionando.


9. Considerações finais (sem fechamento)

Este artigo não propõe soluções.
Não sugere regulação salvadora.
Não idealiza a técnica nem demoniza o humano.

Sustenta apenas isto:

 — O agente técnico é a forma histórica de um mundo que decidiu responder antes de elaborar, funcionar antes de viver e prever antes de escutar.

A Psicologia, se quiser permanecer ética, não pode servir apenas como lubrificante desse circuito. Precisa, ao menos, reconhecer o limite onde o discurso falha e a materialidade insiste.

Nada além disso.


Referências:

BAUMAN, Zygmunt. Modernidade e Holocausto. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.

BLACK, Edwin. IBM e o Holocausto. São Paulo: Universo dos Livros, 2001.

ZUBOFF, Shoshana. A Era do Capitalismo de Vigilância. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2019.

O’NEIL, Cathy. Algoritmos de Destruição em Massa. Rio de Janeiro: Santo André, 2016.

HAN, Byung-Chul. A Sociedade do Cansaço. Petrópolis: Vozes, 2015.

HAN, Byung-Chul. A Crise da Narração. Petrópolis: Vozes, 2017.

CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. Código de Ética Profissional do Psicólogo. Brasília, 2005.
CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. Cartilha sobre Inteligência Artificial. Brasília, 2023.

GIL, Antonio Carlos. Métodos e Técnicas de Pesquisa Social. São Paulo: Atlas, 2008.


#alokadorole
@alokanorole
#maispertodaignorancia

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