A eficiência não pergunta se você ainda existe
José Antônio Lucindo da Silva
Projeto
Contos da Loka do Rolê — Mais Perto da Ignorância (MPI)
Palavras-chave: eficiência, algoritmo, envelhecimento, crédito, Estado digital, mal banal, subjetividade, IA, Brodsky
Resumo:
Não há colapso anunciado. Não há ruptura. O que há é funcionamento. Esta crônica parte da constatação de que a contemporaneidade não opera mais pelo conflito explícito, mas pela integração silenciosa entre tecnologia, mercado e Estado. A partir de discursos sobre inteligência artificial, crédito hiperpersonalizado, envelhecimento produtivo, digitalização dos serviços públicos e adaptação permanente do trabalhador, o texto retroage às estruturas já diagnosticadas por Joseph Brodsky, Zygmunt Bauman, Edwin Black, Shoshana Zuboff e Cathy O’Neil. Não se trata de prever futuros distópicos, mas de reconhecer a continuidade histórica de uma racionalidade que substitui julgamento por procedimento e relação por processamento. A Loka do Rolê não denuncia, não propõe saídas e não moraliza. Apenas sustenta o impasse: quando tudo funciona, o humano deixa de ser necessário inteiro.
Resta o dado. Resta o score. Resta a eficiência.
Introdução :
Quando tudo começa a funcionar bem demais:
Não foi o excesso de maldade que nos trouxe até aqui.
Foi o excesso de competência.
Nada falhou.
Nada saiu do controle.
Nada deu errado.
O crédito funciona.
O Estado funciona.
A inteligência artificial funciona.
O mercado funciona.
O envelhecimento agora
também funciona — desde que dentro do prazo permitido.
E quando tudo funciona, a pergunta já não é mais “o que acontece?”
É “quem sobra?”
Corpo crítico-ensaístico:
Joseph Brodsky avisou, ainda em 1984, que o mal do mundo moderno não pisaria na soleira anunciando a própria chegada. Ele viria bem-vestido, bem-falado, com argumentos razoáveis e linguagem limpa. Não viria para destruir, mas para organizar. O perigo não estaria na barbárie escancarada, mas na normalização daquilo que dispensa consciência.
Décadas depois, nada do que chamamos de novidade contradiz Brodsky. Apenas o confirma.
A inteligência artificial que decide crédito não odeia ninguém. Ela calcula.
O sistema financeiro que impõe idade máxima para financiamento não exclui por crueldade. Ele ajusta risco.
O Estado digital que concentra a cidadania em um login não retira direitos. Ele otimiza acesso.
O discurso do envelhecimento ativo não promete imortalidade. Ele prolonga utilidade.
Tudo é razoável. Tudo é defensável. Tudo é tecnicamente impecável.
Bauman já havia deixado claro: a modernidade não produz monstros — produz gestores. Pessoas que cumprem funções fragmentadas sem jamais se confrontarem com o todo. Ninguém mata ninguém. Cada um apenas executa sua parte. A responsabilidade evapora na cadeia de procedimentos.
O Holocausto, como mostrou Edwin Black ao revelar o papel da IBM, não exigiu ódio explícito. Exigiu infraestrutura. Cartões perfurados, classificação, cruzamento de dados, eficiência logística. A máquina não perguntava por quê. O operador não precisava saber para quê. Bastava que funcionasse.
Hoje, o algoritmo não cataloga corpos para campos. Ele cataloga vidas para scores.
Não define quem deve morrer. Define quem não merece crédito, quem não sustenta projeção, quem não justifica investimento.
É uma exclusão limpa. Silenciosa. Estatística.
Shoshana Zuboff chama isso de capitalismo de vigilância, mas o termo engana quem ainda procura vilões. Não se trata de espionagem por sadismo, mas de extração sistemática da experiência humana. O sujeito não é observado; é minerado. Emoções viram dados. Hábitos viram ativos. A vida vira matéria-prima.
E Cathy O’Neil completa o quadro: quando os modelos erram — e erram — ninguém responde. O erro já está precificado. O dano já está absorvido. O algoritmo não explica. Não escuta. Não se responsabiliza.
Aqui, a ironia que atravessou todas as matérias que você trouxe se fecha:
O idoso busca garantia.
O mercado só vê tempo
restante.
Um ainda fala a linguagem da promessa.
O outro já opera na linguagem da obsolescência.
Não há má-fé.
Há coerência estrutural.
O sistema não promete sentido.
Promete funcionamento.
E cumpre.
Por isso, talvez, já não exista mais o “outro” nem o “eu”. Existem perfis, probabilidades, curvas de risco. A relação foi substituída pelo processamento. A escuta, pela inferência. O cuidado, pela governança.
A Loka do Rolê não grita contra isso. Não denuncia. Não convoca resistência. Ela apenas sustenta o incômodo fundamental: quando tudo funciona, o humano só importa enquanto variável útil. Depois disso, ele se torna ruído.
Notas do Autor — MPI:
Este texto não é um alerta, nem um manifesto, nem um manual de sobrevivência. Não há aqui orientação, prescrição ou promessa de saída. O compromisso ético do MPI não é salvar, mas nomear impasses. A crítica aqui não é contra indivíduos, tecnologias ou instituições específicas, mas contra uma racionalidade que transforma a vida em procedimento e a existência em custo. Se há desconforto na leitura, ele não pede ação imediata. Pede lucidez sustentada.
Referências:
https://www.nobelprize.org/prizes/literature/1987/brodsky/lecture/
https://www.amazon.com/IBM-Holocaust-Strategic-Alliance-Corporation/dp/0914153277
https://zahar.com.br/produto/o-mal-estar-da-pos-modernidade
https://www.publicaffairsbooks.com/titles/shoshana-
zuboff/the-age-of-surveillance-capitalism/9781610395694/
https://weaponsofmathdestructionbook.com/
https://valor.globo.com/
https://istoedinheiro.com.br/
https://noticias.r7.com/
Mini bio:
José Antônio Lucindo da Silva é psicólogo (CRP 06/172551), escritor e criador do projeto Mais Perto da Ignorância.
Desenvolve textos, ensaios e crônicas que articulam clínica, filosofia, tecnologia e crítica cultural, a partir da persona discursiva Loka do Rolê.
#alokadorole
@alokanorole
#maispertodaignorancia
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