QUANDO O SUJEITO NÃO ESTÁ SÓ, MAS TAMBÉM NÃO ESTÁ CONSIGO
Solidão, Solitude e o Colapso do Encontro na Era dos Algoritmos
Autor: José Antônio Lucindo da Silva
Psicólogo – CRP 06/172551
Projeto: Mais Perto da Ignorância (MPI)
Palavras-chave
Resumo
Este artigo propõe uma análise crítica das transformações contemporâneas da solidão e da solitude em um contexto marcado pela mediação algorítmica, pela exigência permanente de presença e pela performatividade do discurso. Partindo de referenciais psicanalíticos (Winnicott e Pierre Fédida), filosóficos (Nietzsche e Byung-Chul Han) e de pesquisas recentes sobre o uso de chatbots como dispositivos de interação emocional, o texto sustenta que as relações mediadas por algoritmos não configuram projeções afetivas clássicas, mas relações de eco discursivo. Nelas, o sujeito não se encontra nem com o outro, nem consigo, permanecendo capturado por uma circulação incessante de sentido. A solidão, assim, deixa de ser espaço de reelaboração subjetiva e se converte em uma posição representada, enquanto a solitude — condição psíquica de presença silenciosa e não performativa — torna-se progressivamente inviável. O artigo defende que esse esvaziamento da solitude intensifica o contato com o vazio estrutural da existência, frequentemente tamponado pelo discurso, e aponta implicações clínicas, éticas e culturais desse cenário.
Há algo profundamente estranho na solidão contemporânea.
Ela não dói como antes.
Ela não silencia como deveria.
Ela fala demais.
Vivemos uma época em que o sujeito raramente está só — e, paradoxalmente, quase nunca está consigo. Mesmo recolhido, mesmo isolado, mesmo aparentemente afastado do mundo, o sujeito permanece endereçado. Há sempre um olhar imaginado, um público potencial, uma instância avaliadora. A solidão, que historicamente funcionava como espaço de elaboração, tornou-se uma posição discursiva.
Esse deslocamento não é trivial. Ele altera a economia psíquica do sujeito.
A psicanálise já havia advertido que estar só não equivale à ausência do outro. Para Donald Winnicott, a capacidade de estar só depende de um ambiente suficientemente bom, no qual a presença do outro não invade nem exige. Estar só, nesse sentido, é poder existir sem ser solicitado, sem responder, sem performar. Trata-se de uma conquista tardia e delicada do desenvolvimento emocional.
O que vemos hoje, contudo, é a substituição desse ambiente por uma presença técnica contínua. A tela lisa do celular, o feed, o chatbot, o algoritmo — todos funcionam como um “outro” que não frustra, não se ausenta, não silencia. Um outro que responde sempre. Um outro que devolve.
E aqui é preciso ser preciso: não estamos falando de projeção.
Não se trata de atribuir humanidade à máquina por ingenuidade afetiva. O fenômeno é mais sutil e mais grave. Trata-se de uma relação de eco discursivo.
O sujeito fala.
O sistema devolve.
O sujeito reconhece no retorno algo que lhe parece essencial.
Mas esse retorno não vem de um outro que resiste, que falha, que se ausenta. Ele vem de um dispositivo treinado para responder.
Nesse circuito, algo fundamental se perde: a possibilidade de escutar a própria solidão.
Pierre Fédida ajuda a pensar esse ponto quando descreve a depressão como uma crise da representação. Para Fédida, há momentos em que o discurso falha, em que a linguagem perde potência, e o corpo reaparece como lugar de experiência. Esse momento, embora doloroso, pode ser fecundo. É nele que algo pode se reorganizar sem espetáculo.
O problema contemporâneo é que esse momento é sistematicamente interrompido.
A cultura mediática não suporta o silêncio.
Não suporta o vazio.
Não suporta o tempo morto.
Quando o sujeito se recolhe, imediatamente surge um discurso que o convoca a falar, a compartilhar, a explicar, a narrar. Mesmo a dor precisa ser comunicável. Mesmo o sofrimento precisa ser performado. Mesmo a solidão precisa ser exibida.
É nesse contexto que a solitude — e não a solidão — se torna a grande ausente.
Solitude não é isolamento.
Solitude não é abandono.
Solitude é a capacidade de sustentar a própria presença sem endereçamento.
Hannah Arendt já distinguia solidão (loneliness) de solitude. A primeira é sofrimento pela ausência do outro; a segunda é a possibilidade de fazer companhia a si mesmo. A solitude é o espaço onde o pensamento acontece sem plateia.
Esse espaço está sendo corroído.
Byung-Chul Han descreveu esse processo com precisão ao analisar a sociedade do desempenho. Não vivemos mais sob a lógica da proibição, mas da exigência. É preciso estar disponível, visível, ativo, responsivo. O sujeito se explora a si mesmo em nome da positividade.
Nesse regime, a solitude é interpretada como falha.
Quem não responde, não existe.
Quem não aparece, não conta.
O resultado é um sujeito permanentemente conectado e profundamente desencontrado.
Nietzsche, muito antes disso, já havia intuído o custo dessa recusa do real. Ao propor o amor fati, ele não sugeria resignação, mas fidelidade ao que é. Habitar o presente, aceitar a contingência, sustentar o vazio sem recorrer a absolutos. Para Nietzsche, a saúde não está na promessa de sentido, mas na coragem de viver sem garantias.
A cultura algorítmica opera no sentido oposto. Ela oferece respostas onde talvez fosse necessário silêncio. Ela oferece companhia onde talvez fosse necessário atravessar o vazio. Ela oferece devolução onde talvez fosse necessário sustentar a ausência.
Pesquisas recentes mostram que uma parcela significativa da população utiliza chatbots para suporte emocional, aconselhamento ou simples conversa. Em alguns levantamentos, cerca de 10% dos brasileiros relatam esse uso; em outros contextos, especialmente entre jovens, os números são ainda maiores. Não se trata de marginalidade, mas de um fenômeno social consolidado.
Essas interações podem produzir alívio momentâneo. Podem reduzir a sensação imediata de solidão. Mas os dados também indicam riscos: aumento de dependência emocional, retração social, confusão entre reconhecimento e relação.
O algoritmo reconhece padrões.
Ele não reconhece o sujeito.
E aqui está o ponto mais delicado: quando o sujeito se acostuma a esse tipo de retorno, ele perde a tolerância à frustração própria do encontro humano e à opacidade própria da solitude.
A solidão, então, deixa de ser espaço de reelaboração e se torna algo a ser rapidamente tamponado. A solitude, condição de pensamento e de encontro consigo, torna-se quase impossível.
O sujeito fala.
O sistema responde.
Mas ninguém escuta o silêncio que fica no meio.
É por isso que, paradoxalmente, quanto mais discurso, mais vazio.
Quanto mais resposta, menos presença.
Quanto mais companhia simulada, menos encontro real.
A proposta de recuperar a solitude não é terapêutica no sentido vulgar. Não promete bem-estar. Ela implica risco. Implica angústia. Implica contato com o vazio estrutural da existência.
Mas talvez seja exatamente isso que foi esquecido:
antes de sermos sujeitos de discurso, somos corpos que ocupam espaço.
E o espaço não responde.
Considerações Éticas
Este artigo não propõe substituição de vínculos humanos por dispositivos tecnológicos, nem recomenda o uso de chatbots como recurso terapêutico. Em consonância com o Código de Ética do Profissional de Psicologia (CFP), reafirma-se que intervenções clínicas exigem presença humana qualificada, responsabilidade técnica e escuta ética. A análise aqui apresentada é de natureza crítica e cultural.
⚠️ Se, em algum momento, o tema do suicídio ou do sofrimento extremo tocar você de forma pessoal e urgente, procure ajuda imediatamente. No Brasil, o CVV atende gratuitamente pelo telefone 188 (24h). Em emergências, acione o SAMU (192) ou serviços de saúde locais.
Referências:
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GUARDIAN. Heavy ChatGPT users tend to be more lonely, suggests research. Disponível em: https://www.theguardian.com/technology/2025/mar/25/heavy-chatgpt-users-tend-to-be-more-lonely-suggests-research
PEOPLE. Young people use AI chatbots for mental health advice. Disponível em: https://people.com/young-people-use-ai-chatbots-for-mental-health-advice-11864522
REUTERS. AI companions meet the law. Disponível em: https://www.reuters.com/legal/litigation/ai-companions-meet-law-new-york-california-draw-first-lines--pracin-2025-12-23/
SCIELO / PMC. Digital loneliness and AI companions. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC10949182/
FÉDIDA, Pierre. O sítio do estrangeiro. São Paulo: Escuta, 1996.
WINNICOTT, D. W. O ambiente e os processos de maturação. Porto Alegre: Artmed, 1983.
NIETZSCHE, Friedrich. O Breviário da Decomposição (referência estética e tonal).
HAN, Byung-Chul. Sociedade do cansaço. Petrópolis: Vozes, 2015.
Mini Bio do Autor:
José Antônio Lucindo da Silva é psicólogo clínico (CRP 06/172551), pesquisador independente e autor do projeto Mais Perto da Ignorância. Atua na interface entre psicologia, filosofia, cultura digital e ética da tecnologia, desenvolvendo ensaios, podcasts e intervenções críticas sobre subjetividade contemporânea, sofrimento psíquico e os efeitos simbólicos da mediação algorítmica.
Notas do Autor (MPI):
Este texto integra o arquivo crítico do projeto Mais Perto da Ignorância. Não tem função de aconselhamento clínico, não prescreve condutas e não oferece soluções. Seu objetivo é tensionar discursos, expor paradoxos e sustentar perguntas onde o excesso de respostas se tornou anestésico.
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