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“Quando o ritual morre, o desempenho vira religiãoe o cansaço passa a ser exigência de fé”

“Quando o ritual morre, o desempenho vira religião
e o cansaço passa a ser exigência de fé”


AUTOR
José Antônio Lucindo da Silva

PROJETO
Mais Perto da Ignorância (MPI)

PALAVRAS-CHAVE: 
subjetividade, discurso, ritual, desempenho, sofrimento psíquico, laço social


RESUMO

Este artigo analisa o esgotamento contemporâneo não como falha individual nem como mero efeito biológico, mas como consequência de uma materialidade discursiva alinhada ao regime do desempenho. Partindo do desaparecimento dos rituais e da conversão dos símbolos em dispositivos de cobrança, argumenta-se que a sociedade atual substituiu a suspensão simbólica por eventos performáticos, nos quais o sujeito é convocado a provar valor, coerência e progresso contínuos. Em contraste com a positividade exibida nas redes sociais, as condições materiais de existência — precarização do trabalho, aceleração do tempo, captura da atenção e hiperexigência cognitiva — produzem um sofrimento que não encontra escuta. No tom corrosivo e lúcido da Loka do Rolê, o texto não prescreve soluções nem oferece conforto: nomeia o impasse ético de viver sem ritual, onde toda promessa se transforma em dívida.


INTRODUÇÃO


Não é o Ano Novo que pesa.
É a cobrança que chega antes dele.

O corpo não reconhece datas comemorativas. O cérebro não entende promessas simbólicas. Quem entende é o discurso — e o discurso contemporâneo não suspende nada: acelera. Onde antes havia marca, agora há meta. Onde havia passagem, agora há auditoria.

As redes sociais celebram recomeços enquanto as condições materiais seguem intactas. A vida real não vira a página; ela cobra continuidade. O resultado é um sujeito funcional por fora e armado por dentro, sustentando a fantasia de que “aguentar mais um pouco” será recompensado pelo tempo. Não será.

Este texto não defende nem ataca símbolos. Não valoriza nem desvaloriza o Ano Novo. Ele formula uma hipótese: quando o ritual desaparece, o símbolo é capturado pelo desempenho — e passa a exigir manutenção. O sofrimento que daí emerge é coerente com o discurso que o produz.


1. Do ritual ao evento: a perda da suspensão


Rituais não prometem melhora. Eles suspendem. Exigem tempo não produtivo, repetição sem finalidade e aceitação do limite. Por isso, tornaram-se incompatíveis com um mundo que mede valor por performance.

Com a perda do ritual, surge o desejo de simbolizar — desejo legítimo. O problema começa quando a simbolização ocorre sob a lógica do desempenho. O símbolo deixa de marcar e passa a cobrar. Não encerra; avalia. Não absolve; exige coerência futura.

Aqui, Byung-Chul Han é direto: saímos da sociedade da proibição para a sociedade do poder-fazer. A positividade não reprime — ela esgota. O sujeito se explora acreditando que isso é liberdade.


2. A materialidade do discurso


Discurso tem corpo. Produz neuroquímica, regula atenção, modela o sono. Não por perversidade, mas por repetição. A cobrança internalizada transforma o cotidiano em ameaça contínua: prazos, metas, notificações, comparações.

As redes sociais operam como vitrines de positividade. Todo mundo melhora, fecha ciclos, recomeça. O silêncio vira fracasso; a pausa, culpa. O sofrimento que não performa é descartado. A escuta, quando existe, é substituída por slogans.

Não se acusa o indivíduo. Tensiona-se a estrutura. O colapso não é exceção; é efeito.


3. Ano Novo sem ritual: passagem convertida em dívida


Sem ritual, o Ano Novo não passa — cobra. A data funciona como dispositivo de avaliação: “chegue melhor”, “prove que valeu”, “mostre progresso”. O corpo, indiferente ao calendário, responde com exaustão. O cérebro, submetido à antecipação contínua, falha por fadiga funcional.

O símbolo não liberta. Ele exige manutenção. E manter símbolo cansa.


4. Escuta em colapso, clínica em risco


Onde tudo vira desempenho, a escuta perde lugar. O sofrimento precisa caber num post. A clínica é convocada como conserto rápido; a técnica, como promessa. O sujeito aprende a falar de si como projeto, não como limite.

Sem ritual, não há “acabou”. Há apenas “mais um pouco”.


5. Cioran observa; a Loka traduz


Se Emil Cioran desconfiava do entusiasmo como desespero elegante, a Loka do Rolê observa sua versão digital: felicidade performada, cansaço negado, sentido terceirizado. Não há nostalgia aqui — há constatação ética: sem suspensão simbólica, toda promessa vira dívida.


6. Discurso das redes x condições materiais


O discurso diz “você pode”. A realidade pergunta “até onde?”. O discurso promete recomeço; a realidade mantém a conta. O descompasso não é acidente: é método. Enquanto a narrativa anestesia, o corpo registra.



NOTAS DO AUTOR — MPI:


Este texto não é aconselhamento psicológico.
Não substitui acompanhamento clínico.
Integra o arquivo crítico do projeto Mais Perto da Ignorância.

A Loka do Rolê provoca; não orienta.
Nomeia o impasse; não promete saída.
Produz pensamento — não alívio imediato.



REFERÊNCIAS:

Obras teóricas e filosóficas

— HAN, Byung-Chul. Sociedade do Cansaço. Petrópolis: Vozes.

— HAN, Byung-Chul. O Desaparecimento dos Rituais. Petrópolis: Vozes.

— CIORAN, Emil. Breviário da Decomposição. São Paulo: Rocco.

— FREUD, Sigmund. O Mal-Estar na Civilização. Rio de Janeiro: Imago.


Artigos acadêmicos brasileiros:

— FARIAS, L. A.; KÜNSCH, D. A.; AIELLO, T. R. Sociedade do cansaço e ideário neoliberal: a abordagem do tema burnout em mídia de negócios no Brasil. Revista Signos do Consumo (USP).
Link por extenso: https://revistas.usp.br/signosdoconsumo/article/view/205035

— MELLO, B. F. A sociedade do cansaço e as contribuições de Byung-Chul Han. Periódicos UNESP.
Link por extenso: https://www.periodicos.rc.biblioteca.unesp.br

— FERNANDES, E. G.; SILVA, M. A. Sociedade do cansaço e estudantes de pós-graduação: uma análise a partir de Foucault e Han. Simbiótica 

– Revista Eletrônica.
https://oaji.net

Material discursivo analisado (jornalismo de referência):



— O Estado de S. Paulo (Estadão). Reportagens e entrevistas sobre esgotamento mental no fim de ano, utilizadas como objeto de análise discursiva.

https://www.estadao.com.br

Editoras e catálogos utilizados

— Editora Vozes (Brasil).

https://www.vozes.com.br

— Editora Rocco.

https://www.editorarocco.com.br


MINI BIO:

José Antônio Lucindo da Silva é psicólogo (CRP 06/172551), pesquisador e autor do projeto Mais Perto da Ignorância, onde investiga, com ironia e rigor ético, os efeitos dos discursos contemporâneos sobre a subjetividade, a escuta e o sofrimento humano.


#alokadorole #maispertodaignorancia


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