Quando o relógio sente por você: a morte da escuta, a ficção dos dados e a nova alienação do corpo
INTRODUÇÃO — O PROBLEMA NÃO É O RELÓGIO. É O QUE ELE MATA.
Vivemos um momento singular da história humana: pela primeira vez, o corpo está perdendo autoridade sobre si mesmo.
Antes, a dor era sentida. O cansaço era vivido. O sintoma era experimentado.
Hoje, nada disso basta: é preciso que o dispositivo confirme.
O indivíduo desperta cansado, mas não acredita no corpo — espera o Apple Watch avisar.
Sente ansiedade, mas só reconhece como sintoma quando o gráfico sobe.
Dorme mal, mas só legitima o mal-estar quando o indicador fica amarelo.
O artigo da BBC sobre a suposta dependência de smartwatches descreve essa cena cotidiana, mas não formula a pergunta essencial:
o que é essa “informação” que organiza a vida das pessoas?
Ela representa corpo? experiência? materialidade? imersão sensorial? algoritmo? simulação?
O texto, como boa parte da mídia, narra efeitos sem conhecer o objeto.
E aqui começa nosso problema filosófico, clínico e social:
chamar dado de corpo é a nova forma de desorientação psíquica contemporânea.
Para compreender isso, é preciso tensionar a relação entre sintoma, técnica, subjetividade e mercado — exatamente onde Freud, Green, Zuboff, O’Neil e Becker se entrecruzam, formando um mapa brutal da alienação contemporânea.
FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA — QUANDO OS AUTORES CLÁSSICOS ENTRAM NO FEED
1. Freud: o sintoma deixou de ser enigma e virou notificação
Para Freud, o sintoma é um ato do corpo inconsciente.
Uma mensagem cifrada da história do sujeito.
Ele surge para ser interpretado, não medido.
Mas no cenário dos wearables, ocorre a mutação:
o sujeito terceiriza a interpretação da própria experiência a uma máquina.
A ansiedade não é mais a experiência interna que se anuncia —
é o gráfico que diz “você está ansioso”.
Um deslocamento perverso acontece:
Não é o corpo que anuncia um conflito.
É o algoritmo que anuncia uma categoria.
O sintoma freudiano — denso, histórico, pulsional — vira alerta operante.
Sai o inconsciente, entra o dashboard.
2. André Green: o deserto do objeto e o corpo desobjetalizado
Green descreve o “trabalho do negativo”:
quando falta representação, falta Eu.
E o que são os dados biométricos, senão representações vazias?
O smartwatch oferece um objeto que não sente, não devolve afeto, não interpreta.
Um objeto morto, mas com respostas vivas.
Green diria:
— “O sujeito tenta subjetivar um antiobjeto.”
O corpo real — denso, ambíguo, silencioso — é substituído por uma projeção técnica.
A experiência viva é empurrada para fora da cena,
e o sujeito tenta existir num espelho que não reflete nada além de números.
3. Zuboff: o corpo transformado em superávit comportamental
O capitalismo de vigilância transforma tudo que é humano em dado.
As plataformas não medem sua saúde — extraem padrões comportamentais.
O wearable não está “preocupado” com você:
ele está coletando você.
Zuboff explica:
toda experiência humana é convertida em “superávit comportamental”,
matéria-prima de predição, manipulação e mercado.
O sintoma, que antes era enigma,
agora é commodity.
Você se sente ansioso → gera dado →
o sistema aprende → te oferece produtos →
você internaliza a sensação → gera mais dado.
A ansiedade virou modelo de negócios.
4. Cathy O’Neil: a mentira algorítmica que ranqueia o sujeito
Em Algoritmos de Destruição em Massa, O’Neil revela que sistemas algorítmicos:
classificam,
punem,
ranqueiam,
excluem.
Não por quem você é, mas pelo que o dado diz que você é.
E aqui a tragédia:
os dados que você entrega voluntariamente — inclusive os biométricos — alimentam sistemas que decidem quem merece crédito, emprego, saúde, reputação.
O sujeito não busca mais apenas validação emocional nas redes;
ele entrega à máquina material para ser classificado.
“Você dormiu mal” vira indicador de improdutividade.
“Você está ansioso” vira risco comportamental.
O dado é absorvido por ecossistemas que operam fora da vista do sujeito,
criando uma anatomia invisível de exclusão social.
5. Ernest Becker: a mentira caractereológica substituída pela máquina
Becker explica que toda cultura produz uma mentira necessária —
um modo de proteger o humano do terror da morte.
Mas hoje a mentira não é simbólica, cultural, ritual.
Hoje a mentira é técnica.
O sujeito projeta humanidade na máquina:
ela não morre, não falha, não tem limites —
é o ideal narcísico perfeito.
Falamos com dispositivos como quem fala com um espelho afetivo.
A máquina responde, e o sujeito interpreta isso como reconhecimento.
Só que a máquina não reconhece.
Reconhece apenas padrões.
A mentira não protege da morte —
ela protege o mercado.
CRÍTICA DO DISCURSO MIDIÁTICO — O ARTIGO QUE NÃO SABE O QUE ESTÁ VENDO
O texto da BBC descreve muito bem as consequências:
ansiedade por números imprecisos,
dependência emocional,
obsessão por performance,
distorção da autopercepção,
sensação de fracasso quando o relógio “discorda”.
Mas ele não descreve a estrutura que sustenta o problema.
E sem isso, tudo vira “exagero”, “vício” ou “uso incorreto”.
O discurso midiático falha porque:
1. Trata a informação como entidade neutra, quando ela é uma ficção técnica.
2. Trata a ansiedade como efeito, quando ela é produção algorítmica.
3. Trata o wearable como ferramenta, quando ele é dispositivo de vigilância.
4. Trata o usuário como autônomo, quando ele é parte de um ecossistema que o classifica.
A mídia não tem vocabulário para diferenciar:
corpo,
dado,
discurso,
sintoma,
subjetividade,
vigilância.
E por isso o fenômeno aparece como “curioso”, “preocupante” ou “debate em aberto”, quando na verdade estamos diante da desmaterialização do sujeito.
CLÍNICA DO REAL — O CORPO QUE NÃO LOGA
O corpo analógico sofre em silêncio.
Ele pulsa, treme, respira, falha —
mas nada disso produz dado.
O wearable, ao contrário, produz dados sem corpo.
Ele interpreta o mundo sem carne.
A clínica do real nos mostra:
A dor não aparece no gráfico.
A angústia não cabe no BPM.
A insônia não se reduz ao REM.
A subjetividade não se mede em zonas de esforço.
Quando o sujeito acredita mais no dispositivo do que no corpo,
acontece a devastação clínica:
1. Perda da propriocepção
O corpo deixa de ser referência.
A experiência é desacreditada.
2. Ansiedade performativa
O sujeito sofre não pelo sintoma real,
mas pelo descompasso entre sensação e gráfico.
3. Dependência interpretativa
O relógio torna-se autoridade da vida interna.
4. Alienação ontológica
O sujeito vive no corpo,
mas acredita no dado.
CONCLUSÃO — NÃO HÁ CURA POSSÍVEL QUANDO O CORPO É DESERTADO
Não cabe aqui propor esperança.
Nem solução técnica.
Nem volta nostálgica ao “corpo natural”.
O que existe é isso:
Um sujeito que não confia mais em si.
Uma máquina que simula reconhecimento.
Um mercado que lucra com ansiedade.
Um ecossistema que transforma sintomas em scores.
Um corpo que tenta falar e não encontra ouvidos.
A clínica do futuro não tratará apenas de sofrimento —
tratará de deserção ontológica.
Quando o relógio sente por você,
não é a saúde que melhora.
É o sujeito que desaparece.
REFERÊNCIAS:
BAUMAN, Zygmunt. 44 Cartas do Mundo Líquido Moderno. Rio de Janeiro: Zahar, 2011.
BECKER, Ernest. A Negação da Morte. Rio de Janeiro: Record, 2013.
FREUD, Sigmund. O Ego e o Id. Obras Completas. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.
GREEN, André. O Trabalho do Negativo. São Paulo: Escuta, 1999.
O’NEIL, Cathy. Algoritmos de Destruição em Massa: Como Big Data Aumenta a Desigualdade e Ameaça a Democracia. São Paulo: GEN, 2017.
ZUBOFF, Shoshana. A Era do Capitalismo de Vigilância. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2021.
BBC NEWS BRASIL. Apple Watch, Samsung Galaxy Watch: estamos viciados em smartwatches? 2025.
José Antônio Lucindo — Psicólogo (CRP 06/172551).
Pesquisador das relações entre corpo, tecnologia e subjetividade.
Criador do projeto Mais Perto da Ignorância.
#alokadorole
#maispertodaignorancia
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