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O 31 de dezembro, sem cerimônia

O 31 de dezembro, sem cerimônia



Final de ano é um nome bonito pra uma coisa pequena: um dia passando pro outro.

A diferença é logística. Dorme tarde. Come tarde. Finge que “marca”.

E ainda chama isso de travessia, como se tivesse ponte. Não tem.


Ritual não era isso.

Ritual não era “meta com glitter”.

Ritual não era reunião de gente cansada fazendo selfie de sobrevivência.


Ritual marcava. Só.

Até aqui.

Depois, silêncio.

E o silêncio não exige legenda.


Mas silêncio virou falha de produtividade.


Silêncio não engaja.


Silêncio não vira carrossel.


Silêncio não dá pra monetizar.


Então o que fizeram?

Trocaram ritual por evento.

Evento por performance.

Performance por dívida.


E dívida é o verdadeiro calendário.

Dívida não sabe que o ano virou.

Dívida não respeita fogos.

Dívida só muda de planilha.




Aí aparece a frase pronta, a mais barata: “ano que vem melhora”.


Melhora pra quem?


Com qual tempo?


Com qual corpo?


O corpo não entende “recomeço”.


O corpo entende exigência contínua.


Entende “mais um pouco”.


Entende “só hoje”.


Entende “fecha isso antes de virar”.


E quando não fecha, ele fecha por você — sem aviso, sem poesia, sem lição.




Querem fazer o dia 31 funcionar como absolvição.


Só que absolvição é coisa de ritual.


E ritual vocês desmontaram, peça por peça, pra caber na agenda.


No lugar, botaram “planejamento”.

Planejamento é a religião mais triste: promete controle e entrega cobrança.


A noite de hoje é isso:

um culto de manutenção.

Um mutirão simbólico pra sustentar a farsa de que a vida tem capítulos.

Capítulo é coisa de livro.

Vida é uma sequência de contas. E não estou falando só de dinheiro.


Tem o resto:


— a conta de atenção, sugada por notificação;


— a conta de comparação, alimentada por feed;


— a conta de presença, sempre atrasada;


— a conta de “ser alguém”, como se alguém fosse um projeto com entrega trimestral.


Não é que “o ritual sumiu”.

Ele foi substituído por um mecanismo.

E mecanismo não celebra: opera.


Aí vem o discurso otimista, aquele com voz de propaganda:


“gratidão”.


“propósito”.


“foco”.


“nova versão de você”.




A versão antiga, então, era o quê? Um beta com defeito?

Vocês falam de si como produto porque aprenderam o idioma do mercado: tudo precisa justificar existência.


A Loka não compra isso.

Não porque seja “contra o Ano Novo” — isso é discussão de gente com tempo sobrando.

Mas porque o truque é óbvio: quando não há rito, o símbolo vira cobrança.

E cobrança não é passagem. É auditoria.


Ano novo, do jeito que virou, é isso:


um relatório emocional que ninguém pediu, mas todo mundo entrega.


E entrega mal.


Com sono.


Com fome.


Com uma culpa pronta pra janeiro.


E ainda tem o detalhe mais ridículo:




a promessa de “ser melhor” costuma ser feita em cima do mesmo cenário material que esmagou você o ano inteiro.



O cenário não muda porque você escreveu uma meta num papel.


O mundo não se comove com sua lista.


A precariedade não lê resoluções.


O algoritmo até lê. Pra te vender mais coisa.


Não tem “virada”.


Tem continuidade maquiada.

A maquiagem é social. 

É coletiva. É quase obrigatória.

Porque admitir que é só um dia pro outro soa “pessimista”.


E pessimismo, hoje, é tratado como falta de educação.


Então sorri.


Brinda.


Abraça.


Posta.


E volta pra casa com a mesma cabeça.


Com o mesmo corpo.

Com a mesma conta.




Ritual, quando existia de verdade, tinha uma função mínima: dar forma ao limite.

Dar forma ao fim.


Dar forma ao que não tem explicação.

Sem pedagogia, sem mensagem, sem “lição aprendida”.


Agora vocês querem “fechar o ano”.


Fechar com o quê?


Com postagem de retrospectiva?


Com thread de gratidão?


Com textão de superação?


Com foto de roupa nova?


Roupa nova não troca pele.


E como a ausência de sentido não elimina a necessidade de forma, vocês inventam uma forma falsa.

Uma forma que parece rito, mas funciona como cobrança.

Um rito que não suspende; acelera.

Um rito que não cala; obriga a falar.

Um rito que não marca; mede.




No fundo, é o medo — não do “fim do ano”, mas do vazio sem marca.


Um vazio sem data.


Um silêncio sem legenda.


E aí cada um corre pra preencher com qualquer coisa: barulho, festa, “projetos”, promessas.

Tudo pra não encarar a realidade simples: a vida não se organiza em ciclos; ela só continua.


E quando continua sem pausa simbólica, o corpo vira o único lugar onde a pausa acontece.


Na marra.


No cansaço.


No apagão de foco.


No sono que não repara.


Na irritação que não tem motivo “psicológico” bonito — tem motivo material: excesso.


Se isso é “mensagem de final de ano”, aqui vai a única que presta:


não tem final.


Tem dia.


Tem noite.


Tem fome.


Tem sono.


Tem gente tentando dar sentido pra uma logística.

E tá todo mundo chamando isso de esperança.


A Loka não deseja “feliz ano”.

Desejo é luxo, e luxo é sempre socialmente distribuído.


Só deixa anotado, seco:

sem ritual, todo símbolo vira dívida.

E dívida não fecha.

Dívida só empurra.


(interrompe aqui, porque quando começa a fazer sentido demais, já virou mentira elegante)




Referências:


— HAN, Byung-Chul. O desaparecimento dos rituais. Petrópolis: Vozes, s.d.



— HAN, Byung-Chul. Sociedade do cansaço. Petrópolis: Vozes, s.d.



— HAN, Byung-Chul. Não-coisas: reviravoltas do mundo da vida. Petrópolis: Vozes, 2022.



— FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização. Rio de Janeiro: Imago, s.d.



— CIORAN, Emil. Breviário de decomposição. São Paulo: Rocco, s.d.



— BECKER, Ernest. A negação da morte. Rio de Janeiro: Record, 1973.



— BENJAMIN, Walter. O narrador: considerações sobre a obra de Nikolai Leskov. In: Magia e técnica, arte e política. São Paulo: Brasiliense, 1985.



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