CRÔNICAS DE UMA MORTE ANUNCIADA (EM GRÁFICOS)
Dados, Catástrofes Climáticas e a Administração do “Menos Pior” na Era da Previsibilidade
Palavras-chave: desastres climáticos, vulnerabilidade social, previsibilidade, escolhas impossíveis, niilismo institucional, risco, catástrofe, estatística, políticas públicas.
Introdução — quando o dado já sabe
Não estamos mais diante da ignorância climática.
Estamos diante de um cenário em que os dados sabem antes, os alertas chegam antes, os mapas existem antes — e, ainda assim, as vítimas continuam vindo depois.
Essa constatação não é retórica, tampouco performática. Ela é empírica, histórica e estatística. O Brasil dispõe hoje de uma das maiores redes de monitoramento hidrometeorológico do Sul Global. Órgãos federais como o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (CEMADEN), a Defesa Civil Nacional (S2ID), o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) produzem dados sistemáticos, contínuos e públicos sobre riscos, vulnerabilidades e eventos extremos.
E, no entanto, os gráficos seguem exibindo mortos, desalojados, prejuízos materiais e repetição territorial.
É aqui que se instala o paradoxo central deste texto: quanto maior a capacidade de previsão, menor parece ser a capacidade de transformação estrutural.
A Loka do Rolê não entra aqui para anunciar o futuro. Ela entra para ler o presente que insiste em se repetir, com a frieza que os números exigem e com a ironia que o cenário impõe.
Metodologia e critérios de legitimidade
Este artigo foi elaborado a partir de:
dados oficiais de órgãos federais brasileiros (CEMADEN, S2ID/Defesa Civil Nacional, IBGE, ANA, MCTI);
relatórios técnico-científicos reconhecidos por seus pares;
literatura acadêmica sobre risco, vulnerabilidade e complexidade;
cobertura de agências jornalísticas reconhecidas internacionalmente (BBC News, Reuters, Associated Press, Agência Brasil).
Foram excluídos:
deliberadamente conteúdos de caráter opinativo, fontes não institucionais, materiais de senso comum e projeções futuras. O foco do texto é retrospectivo, estrutural e material, respeitando os princípios éticos do exercício profissional da Psicologia, especialmente no que se refere à não espetacularização do sofrimento humano.
O crescimento da informação e a permanência da vítima
Desde 2011, o CEMADEN registra crescimento contínuo no número de alertas emitidos para riscos hidrológicos e geológicos. Esse aumento decorre, em parte, da ampliação da rede de monitoramento e do aprimoramento das técnicas estatísticas e preditivas. O S2ID, por sua vez, revela que os mesmos municípios decretam situação de emergência repetidamente ao longo dos anos, sobretudo por inundações, enxurradas e alagamentos urbanos.
O IBGE demonstra que milhões de brasileiros vivem de forma permanente em áreas classificadas como suscetíveis a enchentes e deslizamentos. A ANA, por meio de seus atlas e estudos de bacias hidrográficas, evidencia a recorrência de cheias nos mesmos sistemas fluviais, frequentemente agravadas pela ocupação urbana desordenada.
Esses dados, quando observados em conjunto, produzem uma constatação incômoda: o avanço informacional não se converteu em redução proporcional de danos humanos.
O dado cresce.
A vítima permanece.
A falácia da surpresa e a normalização da recorrência
A cobertura mediática dos eventos climáticos extremos costuma recorrer a expressões como “tragédia histórica”, “chuvas acima da média” ou “evento excepcional”. Entretanto, a análise longitudinal das séries históricas desmonta a narrativa da exceção. O extremo tornou-se frequente. O histórico tornou-se anual.
A mídia, nesse contexto, atua como cronista da repetição. Ela registra aquilo que já estava previsto nos mapas, anunciado nos alertas e documentado nos relatórios técnicos. Não se trata de falha jornalística, mas de um limite estrutural: o noticiário entra sempre depois que a catástrofe já atravessou os corpos.
Edgar Morin e as escolhas impossíveis
Edgar Morin, ao discutir o pensamento complexo, descreve sistemas nos quais as decisões são tomadas sob incerteza, risco e interdependência. No entanto, o cenário das catástrofes climáticas no Brasil apresenta uma torção específica: a incerteza diminuiu, mas a decisão transformadora não ocorreu.
Não se escolhe mais entre evitar ou não evitar o desastre. Escolhe-se entre níveis aceitáveis de dano. A racionalidade que emerge não é preventiva, mas administradora. Gerencia-se o impacto, mitiga-se o prejuízo, responde-se à emergência — sem alterar de forma significativa as bases que produzem a repetição.
Essa é a escolha impossível: sabendo, opta-se por conviver.
O niilismo institucional como método de gestão
O niilismo que atravessa este texto não é existencial nem abstrato. Ele é institucional e operacional. Manifesta-se quando a morte vira indicador, o desalojamento vira estatística e o prejuízo material vira linha de orçamento.
Não se trabalha com a hipótese de zero vítimas. Trabalha-se com redução de impactos. A pergunta “quantos serão afetados este ano?” não é mórbida; ela é a pergunta que o sistema já responde implicitamente ao aceitar, ano após ano, faixas historicamente toleradas de perda humana.
A ironia não está em prever números. Está em perceber que qualquer número que não interrompa o sistema é considerado aceitável.
Classes sociais, território e repetição do dano
Os dados convergem para um ponto inequívoco: os impactos não são distribuídos aleatoriamente. São mais atingidos:
populações de baixa renda em periferias urbanas;
moradores de áreas informais, encostas e várzeas;
comunidades ribeirinhas e tradicionais;
pequenos produtores rurais com baixa capacidade adaptativa.
A catástrofe climática não é democrática. Ela respeita a hierarquia social e territorial. O risco acompanha a desigualdade.
Considerações finais — quando o gráfico acusa
Este texto não acusa a natureza.
Ele acusa a normalização institucional da perda humana previsível.
Os dados não falham. Eles expõem. O que expõem é um sistema altamente informado, tecnicamente competente e estruturalmente imobilizado. A previsibilidade cresceu mais rápido do que a responsabilidade política e ética de transformar o território e proteger vidas.
A Loka do Rolê não anuncia o fim. Ela apenas lê os gráficos e lembra que, quando a morte deixa de interromper o sistema, ela passa a ser administrada.
Referências:
AGÊNCIA NACIONAL DE ÁGUAS E SANEAMENTO BÁSICO. Atlas de vulnerabilidade a inundações. Brasília: ANA, diversos anos.
BRASIL. Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação.
Caderno de sínteses técnico-científicas sobre impactos, vulnerabilidades e adaptação às mudanças climáticas.
Brasília: MCTI, 2025.
BRASIL. Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais. Relatórios anuais de alertas e ocorrências. São José dos Campos: CEMADEN, diversos anos.
BRASIL. Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional. Sistema Integrado de Informações sobre Desastres – S2ID. Brasília: SEDEC, diversos anos.
INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. População em áreas de risco no Brasil. Rio de Janeiro: IBGE, 2018.
MORIN, Edgar. Introdução ao pensamento complexo. Porto Alegre: Sulina, 2011.
BECK, Ulrich. Sociedade de risco. São Paulo: Editora 34, 2010.
BAUMAN, Zygmunt. Vidas desperdiçadas. Rio de Janeiro: Zahar, 2005.
Notas do autor
Este texto não tem como finalidade prever eventos futuros nem estabelecer prognósticos quantitativos. Seu objetivo é analisar criticamente a repetição histórica de catástrofes climáticas a partir de dados oficiais e reconhecidos, respeitando os limites éticos da atuação profissional do psicólogo e evitando qualquer forma de espetacularização do sofrimento humano.
Mini Bio
José Antônio Lucindo da Silva é psicólogo (CRP 06/172551), pesquisador e autor do projeto Mais Perto da Ignorância. Atua na interface entre Psicologia, Filosofia, crítica social e tecnologia, com ênfase em sofrimento psíquico, risco, subjetividade contemporânea e limites éticos da racionalidade técnica.
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