🔪 ARTIGO MPI — A LÓGICA DO COLAPSO: quando os algoritmos param de errar e começam a destruir
José Antônio Lucindo — Psicólogo CRP 06/172551
Projeto Mais Perto da Ignorância — 2025
O algoritmo não está te avaliando.
Ele está te enterrando vivo.
INTRODUÇÃO
Há algo de obsceno na forma como os algoritmos foram aceitos como progresso inevitável. Como se a precisão matemática dispensasse o resto da humanidade — a dúvida, o tropeço, o conflito, a carne. Neste artigo, não pretendo discutir se a Inteligência Artificial é “boa” ou “ruim”. Essa pergunta já morreu. A questão real é outra: o que acontece com uma sociedade quando decisões vitais são entregues a sistemas que não erram — apenas repetem, em escala industrial, os erros mais antigos da cultura?
Cathy O’Neil chamou essas máquinas de Algoritmos de Destruição em Massa (WMDs) — sistemas opacos, escaláveis, punitivos, que transformam desigualdade em axioma.
No MPI, já chamamos isso de outra maneira:
“não há escuta — só um céu de silício devolvendo o mesmo julgamento que sempre destruiu os mesmos corpos.”
Os algoritmos não ampliam a humanidade. Eles ampliam o controle.
Não iluminam o caminho. Eles apenas transformam o abismo em estatística.
FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA — os mortos que o algoritmo recicla
1. O’Neil e o ciclo da destruição matemática
Segundo O’Neil, os ADM têm três características fatais:
opacidade
escala
dano estrutural
Eles decidem quem recebe crédito, quem vai para a prisão, quem consegue emprego, quem é vigiado, quem é descartável.
Eles não “pensam”: replicam padrões históricos de violência com cara de objetividade.
Nos dados que alimentam a máquina, há:
racismo sedimentado
meritocracia distorcida
desigualdade naturalizada
suspeição automática a corpos específicos
Quando o algoritmo “prediz”, ele só repete — mas agora com autoridade técnica.
2. Freud — o superego digital
Em O Mal-Estar na Civilização, Freud descreve o superego como essa instância que pune, controla, vigia e exige.
O que vemos hoje é a migração desse superego para a nuvem.
O algoritmo não precisa gritar: ele te compara sem cessar.
Te avalia sem pausa.
Te mede sem corpo.
É o superego sem falha — portanto, impossível de questionar.
3. Byung-Chul Han — a positividade que mata
Han insistiu: o mundo perdeu o negativo.
Tudo vira desempenho, métrica, otimismo compulsório.
O algoritmo é a versão técnica da sociedade do cansaço: só existem vencedores e fracassados.
E, como Han previa, o fracasso é sempre culpa de quem cai — nunca de quem empurra
4. Bauman — os descartáveis perfeitos
Para Bauman, a modernidade líquida cria excedentes humanos.
Os ADM só aceleram isso: transformam “populações descartáveis” em dados descartáveis.
É o sonho do capital: ninguém para reclamar, ninguém para resistir, ninguém para atrasar o lucro.
5. Zuboff — o capitalismo de vigilância
Zuboff explicou que o valor não está mais no produto, mas no comportamento que pode ser previsto, manipulado, vendido.
Os ADM são o coração desse sistema:
preveem, punem e moldam subjetividades como se o humano fosse software defeituoso.
CRÍTICA DO DISCURSO MIDIÁTICO / DIGITAL
O discurso midiático celebra a IA como solução.
Mas não diz para quem.
As manchetes falam em “eficiência”, “inovação”, “produtividade”.
Não falam no preço pago pelos corpos que já eram considerados marginais antes do algoritmo — e que agora se tornam estatisticamente elimináveis.
O marketing algorítmico, como mostra O’Neil (Cap. 5), mira sempre os vulneráveis:
quem está endividado recebe oferta de empréstimo predatório
quem está deprimido recebe pílulas de dopamina digital
quem está exausto recebe conteúdo de autoaperfeiçoamento
quem está solitário recebe relacionamento simulado
O sofrimento vira nicho de mercado.
A angústia vira KPI.
A vulnerabilidade vira “oportunidade”.
O discurso da inovação nada mais é que o eufemismo higienizado para a velha e conhecida exploração.
CLÍNICA DO REAL
É aqui que a análise técnica encontra aquilo que o WMD não consegue calcular: o corpo.
O algoritmo:
não vê tremor
não escuta respiração curta
não sente o desalento
não percebe a vergonha
não reconhece silêncio como pedido de socorro
O corpo sofre em frequência analógica — e o WMD só responde em binário.
A clínica mostra:
jovens devastados pelo esgotamento performativo
trabalhadores descartados por métricas invisíveis
famílias destruídas por decisões “objetivas”
subjetividades adoecidas pela sensação de serem constantemente vigiadas
A Loka do Rolê traduz assim:
“Vocês acham que é tecnologia.
Eu digo que é só mais uma forma de matar gente sem tocar na pele.”
PARADOXO CENTRAL
O algoritmo não tem ódio.
O algoritmo não tem intenção.
É por isso que ele é tão perigoso:
ele reproduz violência sem culpa — e sem limite.
Não se pode negociar com um WMD.
Não se pode conversar.
Não se pode pedir escuta.
Não se pode pedir humanidade a uma máquina treinada para otimizar prejuízo humano.
CONCLUSÃO — SEM PROMESSA, SÓ LUCIDEZ
Não há “esperança tecnológica”.
Há apenas o reconhecimento frio de que estamos entregando decisões éticas a sistemas incapazes de ética.
O’Neil pede regulação.
Han pede pausa.
Bauman pede comunidade.
Zuboff pede resistência.
A Loka do Rolê, mais honesta, diz:
“Vocês não querem justiça.
Querem mágica.
E, no fim, a mágica sempre pede sacrifício.”
O algoritmo não nos substituirá.
Ele fará algo pior:
nos tornará irrelevantes.
E irrelevância é a forma mais silenciosa de aniquilação.
Referências:
O’NEIL, Cathy. Algoritmos de destruição em massa: como o big data aumenta a desigualdade e ameaça a democracia. Bookey, 2023.
BAUMAN, Zygmunt. Vida para Consumo: a transformação das pessoas em mercadorias. Rio de Janeiro: Zahar, 2008.
BAUMAN, Zygmunt. Medo Líquido. Rio de Janeiro: Zahar, 2007.
FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização. São Paulo: Companhia das Letras.
HAN, Byung-Chul. Sociedade do Cansaço. Petrópolis: Vozes, 2015.
HAN, Byung-Chul. Não Coisas. Petrópolis: Vozes, 2021.
ZUBOFF, Shoshana. A era do capitalismo de vigilância. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2019.
José Antônio Lucindo — Psicólogo CRP 06/172551
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