O EU EM LOOP: A MORTE LENTA DA PRESENÇA NA ERA ALGORÍTMICA
Autor: José Antônio Lucindo da Silva — Psicólogo (CRP 06/172551)
Projeto: Mais Perto da Ignorância — A Loka do Rolê
Data: novembro de 2025
Palavras-chave: Subjetividade, Pulsão de morte, Algoritmo, Narcisismo, Ansiedade, Escuta, Materialidade, Representação.
Resumo
Este ensaio propõe uma análise crítica e psico-filosófica sobre o colapso da presença subjetiva no contexto algorítmico contemporâneo. O texto discute como o “eu”, ao se converter em dado performativo, perde sua ancoragem simbólica e corporal, transformando-se em material de retroalimentação do próprio sistema discursivo que o consome. A partir da articulação entre Freud, André Green, Shoshana Zuboff, Ernest Becker, Byung-Chul Han e Cioran, reflete-se sobre a pulsão de morte reconfigurada como produtividade, a ansiedade como função sistêmica e a dissolução da escuta na economia da visibilidade. A metodologia segue a abordagem qualitativa interpretativa conforme Shaughnessy, Zechmeister & Zechmeister (2012), integrando análise conceitual, hermenêutica discursiva e crítica cultural. A conclusão aponta para a impossibilidade de elaboração psíquica sem corpo e sem tempo: o “eu” tornou-se dado, e o dado é a nova forma de morte.
1. Introdução
Nunca houve tanto “eu” no mundo — e nunca se soube tão pouco o que isso significa.
O sujeito contemporâneo fala sem corpo, aparece sem presença e sente sem elaboração.
A representação deixou de ser espaço simbólico de encontro para tornar-se superfície de visibilidade.
A cada gesto performativo, o eu tenta nascer de novo.
Mas, ao contrário do parto, não há útero, nem dor, nem tempo.
Há apenas atualização.
O “eu” nasce e morre no mesmo clique.
Este ensaio se dedica a compreender o que resta desse sujeito que performa para algoritmos, e que, ao se converter em dado, transforma o desejo em ruído e a escuta em estatística.
Não se trata de uma crítica à tecnologia, mas à forma como o humano, ao habitá-la, abandona a materialidade de si.
Como Freud lembrava, o eu não é senhor em sua própria casa.
Hoje, ele é apenas o inquilino do algoritmo, pagando aluguel com seus traços psíquicos.
A subjetividade foi expropriada, o sintoma virou conteúdo e a pulsão de morte, produtividade.
2. Fundamentação teórica
2.1. Freud e a tensão primária do eu
Freud (1920; 1926) compreendia o eu como mediador entre pulsões, realidade e ideal.
A estrutura psíquica se sustentava pela tensão entre o desejo e o limite.
O mal-estar civilizatório era produto dessa fricção: o preço da consciência era o conflito.
Mas o sujeito digital não conhece conflito — conhece fluxo.
A tensão primária é substituída por aceleração.
O prazer não busca descarga, busca continuidade.
A repetição freudiana perdeu o sentido de elaboração e tornou-se mecânica de engajamento.
2.2. André Green e o deserto da representação
Green (1983) descreve o deserto do objeto como o território onde o investimento libidinal se extingue.
O eu, privado de alteridade, mergulha em uma economia de morte — fala, mas sem desejo; pensa, mas sem objeto.
No espaço algorítmico, essa desertificação é técnica: o Outro foi substituído por um espelho de dados.
O sujeito habita o deserto do deserto, onde nem a falta sobrevive.
2.3. Shoshana Zuboff e o capitalismo de vigilância
Zuboff (2019) demonstra que o sistema digital captura o comportamento humano para transformá-lo em valor econômico.
O “eu” é quantificado, previsto e recompensado com doses de dopamina simbólica.
A subjetividade, antes lugar de elaboração, é convertida em matéria de extração.
A pulsão de morte — tendência à repetição — torna-se o motor da produção de dados.
O algoritmo não mata o sujeito: mantém-no em coma produtivo.
2.4. Ernest Becker e o terror da mortalidade
Becker (1973) argumenta que toda cultura é um esforço para negar a morte.
O sujeito constrói projetos de imortalidade simbólica — religiões, arte, amor, trabalho — para adiar o real do fim.
No regime digital, essa negação assume forma algorítmica: o “eu” busca permanecer através da visibilidade.
A presença é substituída pela permanência.
Mas o dado não vive — apenas persiste.
2.5. Byung-Chul Han e o cansaço como identidade
Han (2015) descreve a sociedade da positividade, onde o sujeito se autoexplora até o esgotamento.
O eu performático acredita ser livre, mas é prisioneiro do próprio desempenho.
O sofrimento se torna identidade, e a exaustão, prova de pertencimento.
A ansiedade — antes sinal de defesa — é agora função vital: mantém o sistema em movimento.
O medo de desaparecer é o novo instinto de sobrevivência.
2.6. Emil Cioran e o niilismo ético
Cioran (1949) compreende a lucidez como mutilação.
A consciência plena da ruína é o último ato de dignidade.
Na era digital, a lucidez foi terceirizada ao algoritmo: ele vê tudo, lembra tudo, prevê tudo.
O eu já não precisa pensar — apenas reagir.
A lucidez tornou-se dor inútil: saber que se existe apenas como dado.
3. Metodologia
Este ensaio segue o modelo de pesquisa qualitativa interpretativa, conforme Shaughnessy, Zechmeister & Zechmeister (2012), privilegiando o método hermenêutico-crítico.
O objeto de análise — o “eu algorítmico” — é abordado em três dimensões:
(a) psicanalítica (Freud, Green);
(b) sociotécnica (Zuboff, Han);
(c) existencial (Becker, Cioran).
O procedimento metodológico adotado é o da análise discursiva integrada, que combina leitura fenomenológica, crítica cultural e articulação simbólica de dados qualitativos (publicações, textos mediáticos e discursos contemporâneos).
O objetivo não é mensurar, mas escutar o ruído que substituiu a escuta.
4. Desenvolvimento e discussão
4.1. O eu-dado: a performatividade como condição de existência
O sujeito contemporâneo existe porque é visto.
Sua subjetividade depende da métrica.
O eu não fala mais — é falado pela máquina.
Sua imagem circula, seu corpo é avaliado, seu tempo é medido.
Tudo que o constitui é dado de engajamento.
Esse “eu” é performativo porque precisa existir para o olhar do algoritmo.
E ao fazer isso, dissolve-se na própria visibilidade.
A pulsão de morte, antes voltada ao silêncio, agora trabalha para o ruído.
Cada atualização é um modo de morrer de pé — como previu Cioran.
4.2. A ansiedade como função de presença
Freud (1926) descreveu a ansiedade como sinal do ego diante do perigo.
Hoje, ela é o sintoma de quem teme o desaparecimento simbólico.
A ansiedade não protege, exibe.
Ela é o combustível da visibilidade, a pulsação da performance.
O sujeito ansioso é perfeito para o sistema: ele nunca descansa, nunca cala, nunca elabora.
A ansiedade é a forma contemporânea da fé — acreditar que a próxima notificação trará sentido.
4.3. O sofrimento como identidade
O sofrimento deixou de ser indício de conflito e tornou-se matéria de pertencimento.
As redes sociais transformam a dor em estética, o trauma em narrativa e o desespero em conteúdo.
A tristeza engaja, a vulnerabilidade rende cliques, a depressão se converte em personagem.
O sujeito não elabora — monetiza.
É o que Han chama de capitalismo emocional: a tristeza virou modo de produção.
E é o que Freud chamaria de benefício secundário do sintoma elevado à escala industrial.
4.4. O desaparecimento da escuta
O eu performático fala sem pausa, mas não é ouvido.
O algoritmo responde, mas não escuta.
A escuta — ato de acolher a alteridade — foi substituída pela reação.
A palavra perdeu peso, o silêncio perdeu sentido.
O diálogo se converteu em interface.
A ausência de escuta é o sintoma clínico do século XXI.
Não há tempo de elaboração, só o eco de um discurso que se autoalimenta.
4.5. A não-presença alimentando a não-presença
A maior ironia é ontológica:
a não-presença gera mais não-presença.
O abismo olha o abismo e devolve o abismo.
O eu, sem corpo e sem tempo, tenta encontrar-se no espelho vazio do algoritmo — e ali se reproduz como dado.
A visibilidade substitui o encontro, e a atualização substitui o luto.
O sujeito já não vive — ele transmite.
E é nessa transmissão que se dá o colapso da existência.
5. Considerações finais
O eu contemporâneo é a realização técnica do paradoxo freudiano:
não é senhor de si, mas acredita ser o próprio criador do mundo que o dissolve.
Transformado em dado, ele se alimenta da própria discursividade e a reproduz infinitamente, acreditando que o fluxo é liberdade.
A não-presença tornou-se modo de ser.
O sujeito fala para não calar, mas o que resta é ruído.
O silêncio — outrora espaço da escuta — virou disfunção.
A pulsão de morte, travestida de produtividade, faz o eu girar até evaporar.
A ansiedade é seu batimento cardíaco,
o algoritmo, seu espelho,
o sofrimento, sua língua materna.
E eu, Loka do Rolê, fico aqui — escutando o ruído do fim,
tentando encontrar um pouco de humano no eco elétrico do desespero.
— “O abismo olha de volta,
mas vocês já aprenderam a tirar selfie com ele.”
— Loka do Rolê
Referências:
BECKER, E. A Negação da Morte. Rio de Janeiro: Record, 1999.
BYUNG-CHUL HAN. A Sociedade do Cansaço. Lisboa: Relógio D’Água, 2015.
CIORAN, E. Breviário da Decomposição. Rio de Janeiro: Rocco, 2005.
FREUD, S. Além do Princípio do Prazer. Obras completas, vol. XVIII. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
GREEN, A. Narcisismo de Vida, Narcisismo de Morte. Rio de Janeiro: Imago, 1983.
SHAUGHNESSY, J. J.; ZECHMEISTER, E. B.; ZECHMEISTER, J. S.
Metodologia de Pesquisa em Psicologia. 9. ed. Porto Alegre: AMGH, 2012.
ZUBOFF, S. A Era do Capitalismo de Vigilância. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2020.
HAN, B. C. A Crise da Narrativa. Lisboa: Relógio D’Água, 2021.
CIORAN, E. Nos Cumes do Desespero. São Paulo: Companhia das Letras, 2022.
José Antônio Lucindo da Silva — Psicólogo (CRP 06/172551)
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