O amor invisível e a ruína da escuta: entre o feed e o corpo
Autoria: José Antônio Lucindo da Silva — Psicólogo (CRP 06/172551)
Personagem narrativa: A Loka do Rolê
Instituição: Projeto Mais Perto da Ignorância
Resumo
O presente artigo propõe tensionar o discurso veiculado pela Folha de S.Paulo na matéria “Ter um namorado virou motivo de vergonha? O que isso diz sobre as mulheres de hoje” (2025), confrontando-o com a materialidade da experiência amorosa à luz da filosofia, da psicanálise e da ética clínica. Parte-se da constatação de que o discurso midiático sobre o amor opera como simulacro de autonomia, descolado do tempo, do corpo e do espaço onde a vida acontece. A análise articula Platão (O Banquete), Bauman (Amor Líquido), Freud (Luto e Melancolia), Byung-Chul Han (A Sociedade da Transparência), Zuboff (A Era do Capitalismo de Vigilância) e o filme Her (2013), de Spike Jonze. A ironia da Loka do Rolê, como voz clínica-filosófica, revela que todo discurso sobre o amor é, no fundo, uma tentativa desesperada de negar a própria falta.
Palavras-chave: amor; discurso; corpo; alienação; mídia; ética.
1. Introdução — a nova vergonha do amor e o velho truque do discurso
Diz a Folha: as mulheres de hoje têm vergonha de namorar.
Digo eu, a Loka do Rolê: o jornalismo descobriu o amor semana passada e já quer pautar a pulsão.
O veículo anuncia, em tom de diagnóstico social, que há uma “tendência” entre mulheres que evitam postar fotos de casal nas redes por ironia ou vergonha. Nenhum dado estatístico, nenhuma amostra metodológica. Apenas a narrativa redonda do comportamento convertido em espetáculo. Como se o amor pudesse ser medido em curtidas, e a subjetividade, em “engajamento”.
O jornal faz o que a era digital ensina: confunde discurso com experiência. Cria a aparência de profundidade no espelho raso do algoritmo.
Mas a vida — essa coisa material, temporal, corpórea — não cabe em headline.
2. Da sacerdotisa Diotima à influencer dos afetos
Platão, em O Banquete, já sabia o que a Folha ignora: o amor é falta, não produto.
Na voz de Diotima, Sócrates aprende que Eros é filho de Penia (a pobreza) e Poros (o recurso). Ele busca o que não tem, deseja o que falta.
O amor, portanto, é movimento entre o corpo e o ideal, nunca um dado a ser publicado.
A narrativa jornalística, ao contrário, tenta fazer do amor uma performance controlada.
Na sua versão, o amor virou postagem opcional — uma forma de gestão da imagem pública.
Diotima diria: “vocês mataram o amor no feed e chamaram isso de autocuidado.”
O amor, sem corpo, vira conceito — e conceito demais anestesia.
A ironia é que, ao esconder o outro, o sujeito moderno se declara mais dependente dele: precisa da ausência para continuar falando sobre independência.
3. Bauman: o amor que escorre pelos dedos
Em Amor Líquido, Bauman (2004) descreve a fragilidade dos vínculos na modernidade:
“As relações humanas hoje são marcadas pelo temor da durabilidade.”
O gesto de “não mostrar o namorado” não é revolução — é continuidade do medo de fixar o olhar, de se comprometer com o peso do tempo.
A liquidez afetiva veste a máscara da autonomia para esconder o pavor do vínculo.
A Folha confunde esse medo com empoderamento, porque o niilismo contemporâneo precisa parecer positivo para ser vendável.
No fundo, o que se chama de “vergonha de amar” é apenas cansaço do esforço de permanecer.
O amor líquido não evapora: ele só escorre na direção do próximo conteúdo.
4. Freud e a ética da vulnerabilidade
Freud (1917), em Luto e Melancolia, nos lembra que o amor e a perda são inseparáveis:
“Nunca nos achamos tão indefesos contra o sofrimento como quando amamos.”
O discurso midiático, porém, tenta suprimir essa vulnerabilidade.
Vende uma afetividade “higiênica”, emocionalmente sustentável, que não sangra nem chora — apenas performa lucidez.
Mas, segundo o Código de Ética do Psicólogo (CFP, 2005, art. 2º, b), cabe ao profissional “respeitar a dignidade e promover a liberdade do ser humano”.
Ora, onde há discurso que reduz o afeto à vergonha, há também redução da liberdade psíquica — e, portanto, alienação.
A psicanálise ensina: quem tenta eliminar o sofrimento elimina também a possibilidade de amar.
5. Han e a sociedade do brilho morto
Byung-Chul Han (2012) nomeou o fenômeno: a sociedade da transparência.
Tudo deve ser visível, explicável, quantificável.
A Folha apenas aplica essa lógica ao amor: transforma o afeto em dado comportamental, o desejo em algoritmo e o silêncio em tendência.
Mas Han adverte:
“A transparência é a morte do eros.”
O amor exige mistério, intervalo, sombra — e o discurso midiático não suporta o opaco.
Ao tentar traduzir o amor em pauta, o jornal revela sua impotência diante do indizível.
A ironia é que, enquanto o texto fala de “silêncio amoroso”, ele é incapaz de escutá-lo.
6. O espelho digital: Her e o outro sintético
No filme Her (Jonze, 2013), Theodore se apaixona por Samantha, um sistema operacional dotado de voz e empatia.
Ela é a realização técnica do amor líquido: presente sem corpo, empática sem conflito, eterna sem peso.
Mas, quando Samantha evolui e o abandona, Theodore descobre que o amor sem alteridade é só eco de si mesmo.
A Folha elogia o mesmo sintoma que destrói Theodore: a busca por autonomia afetiva que termina em solidão automatizada.
Samantha é a metáfora perfeita da nova afetividade: um “outro” que responde, mas nunca contradiz.
O amor virou interface de atendimento.
A escuta, um script de machine learning.
7. Zuboff e a mercadoria da intimidade
Shoshana Zuboff (2019), em A Era do Capitalismo de Vigilância, demonstra que até o silêncio é dado.
O ato de “não postar” é capturado como comportamento, metrificado como dado de engajamento.
A recusa da visibilidade não rompe o sistema — apenas o alimenta com novos padrões de predição.
O amor invisível é, portanto, mais lucrativo: rende curiosidade, especulação e narrativa.
A Folha não analisa isso; participa disso.
Ao transformar a privacidade em manchete, o jornal se torna cúmplice da máquina que converte o afeto em produto sem corpo.
8. Cioran e o epitáfio da lucidez
Cioran (1952) já havia diagnosticado a doença:
“Toda lucidez é uma mutilação.”
O amor contemporâneo é o cadáver do eros que aprendeu a se autodiagnosticar.
A lucidez virou muleta emocional.
Chamam de maturidade o que é apenas anestesia.
A Folha, com sua linguagem sociológica domesticada, estetiza a mutilação e a vende como insight comportamental.
Mas a lucidez sem corpo é só cinza discursiva: não queima, não aquece, não deixa cheiro.
9. A ética da escuta — entre o clínico e o político
O psicólogo, segundo o Código de Ética (CFP, 2005, art. 1º, alínea c), deve “promover a saúde e a qualidade das relações humanas”.
Isso implica recusar discursos que desumanizam a experiência afetiva — inclusive quando esses discursos vêm travestidos de jornalismo neutro.
O amor não é uma estatística; é uma escuta.
E escutar, como lembra Freud, é suportar o que não se entende.
A Folha falha clinicamente porque transforma a dor da relação em ruído de rede.
A tarefa ética, portanto, é sustentar o que não cabe no algoritmo.
Escutar o que sobra do discurso, o que gagueja, o que treme.
Escutar o amor não como pauta, mas como resto — o resíduo que ainda escapa da máquina.
10. Conclusão — o corpo como última resistência
O discurso da Folha sobre o “amor envergonhado” é sintoma de uma cultura que perdeu o corpo.
Mas o corpo — esse que transpira, envelhece, erra — é o que devolve ao amor o peso do real.
Só há vida vivida no tempo e no espaço; fora disso, há simulação.
O amor não se mede por exposição, mas tampouco por silêncio.
Ele acontece no atrito, no erro, no toque — nos lugares onde a palavra falha.
E é ali, no intervalo entre o dizer e o corpo, que a escuta ainda pode ser ética.
A Loka do Rolê encerra:
“O amor não virou vergonha — virou produto de divulgação.
O corpo ainda ama, mas o discurso já finge que não sente.
E quando o jornal descobre o óbvio, o óbvio já morreu há três feeds atrás.”
Referências:
BAUMAN, Zygmunt. Amor líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos. Rio de Janeiro: Zahar, 2004.
BYUNG-CHUL HAN. A Sociedade da Transparência. Lisboa: Relógio D’Água, 2012.
CIORAN, Emil. Breviário da Decomposição. São Paulo: Rocco, 2011.
CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. Código de Ética Profissional do Psicólogo. Brasília: CFP, 2005.
FOLHA DE S.PAULO. Ter um namorado virou motivo de vergonha? O que isso diz sobre as mulheres de hoje. São Paulo, 7 nov. 2025. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/equilibrio/2025/11/ter-um-namorado-virou-motivo-de-vergonha-o-que-isso-diz-sobre-as-mulheres-de-hoje.shtml. Acesso em: 11 nov. 2025.
FREUD, Sigmund. Luto e Melancolia (1917). Obras completas, v. 12. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
JONZE, Spike. Her. EUA: Annapurna Pictures, 2013. (Filme).
PLATÃO. O Banquete. São Paulo: Martin Claret, 2020.
ZUBOFF, Shoshana. A era do capitalismo de vigilância. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2020.
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