Interrupção, Escuta e o Restante: Suicídio Assistido, Materialidade e Sentido no Crepúsculo da Razão
Interrupção, Escuta e o Restante: Suicídio Assistido, Materialidade e Sentido no Crepúsculo da Razão
José Antônio Lucindo da Silva — Psicólogo (CRP 06/172551)
Resumo
Este artigo apresenta uma análise clínica, ética e filosófica sobre o suicídio assistido a partir de uma leitura existencial e simbólica ancorada no filme Encontro Marcado (1998) e nas obras de Søren Kierkegaard e Baruch de Spinoza. A reflexão segue as diretrizes do Código de Ética Profissional do Psicólogo (CFP, 2005) e enfatiza o dever de cuidado, a promoção da vida e a escuta ética diante do sofrimento. A narrativa da “Loka do Rolê” — voz simbólica da escuta como resto — propõe uma abordagem lúcida e crítica sobre o desejo de morrer, sem sensacionalismo, articulando filosofia, psicologia e literatura. A ironia persiste: viver é um ato de morrer em parcelas, e a consciência da finitude é o que dá densidade à vida.
Palavras-chave: suicídio assistido; psicologia clínica; ética profissional; Kierkegaard; Spinoza; niilismo; escuta.
Introdução
O tema do suicídio assistido exige da psicologia uma postura dupla: a lucidez filosófica diante da morte e a responsabilidade ética diante da vida. A psicologia não é tribunal da existência, mas espaço de escuta e cuidado.
Ao escrever este artigo, num fim de semana silencioso, entre o descanso e o desassossego, constato: a vida é ironicamente um preparo para a interrupção. Viver é interromper-se aos poucos, em trabalho, em amor, em tempo. Ainda assim, não cabe à psicologia decidir quem deve ou não continuar — cabe escutar o que ainda quer viver dentro de quem pensa em morrer.
A obra Encontro Marcado (1998, dir. Martin Brest) simboliza esse limiar: a morte assume corpo e escuta o humano. Diferente da pressa do suicídio, ela chega como interlocutora — escuta, ironiza, mas respeita.
Este texto não busca glamourizar a morte, tampouco endossar práticas de suicídio assistido. Ele busca compreender o sentido ético, clínico e filosófico de um fenômeno contemporâneo, à luz da escuta como resto e da responsabilidade ética do psicólogo.
1. Ética, legislação e responsabilidade do psicólogo
O Código de Ética Profissional do Psicólogo (CFP, 2005) é explícito: o psicólogo deve “zelar pela promoção da saúde e pela qualidade de vida das pessoas” (Art. 1º) e “atuar com responsabilidade social e científica” (Art. 2º).
Dessa forma, qualquer menção, estudo ou atendimento relacionado ao suicídio deve ser conduzido com cuidado clínico, avaliação técnica e encaminhamento apropriado. O psicólogo jamais deve estimular, legitimar ou facilitar o ato — mas acolher, avaliar e escutar a dor que o antecede.
No Brasil, o auxílio ao suicídio é crime (Art. 122 do Código Penal). Diferentemente de países como a Suíça, onde o Artigo 115 do Código Penal permite assistência sem “motivo egoísta”, aqui o ordenamento jurídico e ético exige proteção integral à vida.
Entretanto, a ética não se confunde com moralismo. A escuta psicológica não julga, mas compreende o sofrimento como linguagem. O suicídio assistido, ainda que não permitido, revela um sintoma social: a saturação da dor diante de um mundo que perdeu sentido.
2. O suicídio assistido como sintoma de falha de escuta
Pesquisas recentes sobre suicídio assistido (BRAGA, 2022; DEDIVITIS et al., 2023) mostram que a maioria das pessoas que o solicitam o fazem não apenas por dor física, mas por solidão e perda de sentido. A dor existencial é, muitas vezes, mais insuportável que a dor somática.
Na clínica, essa dor manifesta-se como pedido paradoxal: o desejo de morrer é, muitas vezes, um pedido desesperado para que alguém finalmente escute.
A “Loka do Rolê” — essa figura discursiva que atravessa o projeto Mais Perto da Ignorância — entende isso. Sua voz diz: “O suicídio é um atalho, e o atalho é uma falha na narrativa. Eu não coleto desistências, coleto histórias.”
A morte assistida, sob esse prisma, simboliza a renúncia à escuta. Quando não há mais quem escute, o sujeito tenta encerrar o diálogo. O papel ético da psicologia é reabrir essa escuta, reconstituir o vínculo, restaurar o sentido da linguagem antes da ruptura.
3. Kierkegaard, Spinoza e o paradoxo da existência
Kierkegaard já havia escrito: “Só a vida vivida é a que ficou atrás de mim.”
A morte, portanto, não anula a vida — apenas a assina.
Spinoza, por outro lado, ensinou que ser é perseverar na existência. O corpo é campo de forças, e a consciência é apenas o reflexo dessas forças em movimento. O suicídio, nesse contexto, não é pecado, mas contradição ontológica — a força que se volta contra si.
E Cioran, no Breviário da Decomposição, acrescenta: “Toda lucidez é uma mutilação.” Ser lúcido é reconhecer o paradoxo: viver é morrer devagar, e morrer é o único gesto que confirma que se viveu.
O suicídio assistido, quando visto por essa lente, não é libertação — é a forma mais burocrática da rendição. É a racionalização do inominável. E ainda assim, é um espelho ético: nos obriga a perguntar por que alguns querem cessar, e por que outros insistem em continuar.
4. A materialidade da existência e o simbolismo de “Encontro Marcado”
A cena do hospital, onde a Morte visita uma mulher e ouve dela “a dor atravessa de lado a lado”, sintetiza o ponto: o sofrimento não quer apenas alívio, quer testemunho.
A escuta da dor é o único antídoto possível à pressa da morte.
No filme, Bill Parrish aceita o fim porque compreende que o amor — e não o medo — é o laço que permite morrer em paz. A morte ali não é castigo, é retorno.
Na clínica psicológica, cada fim simbólico — o luto, o trauma, a falência — é uma prévia do morrer. Trabalhar o luto é trabalhar a materialidade da finitude, sem anestesia.
O suicida, no entanto, interrompe o processo simbólico: ele se antecipa à significação. O suicídio é a morte sem epílogo — e sem história, não há sujeito.
5. O suicídio como interrupção sem símbolo
A “Loka do Rolê” define o suicídio como “um atraso para mim, um atalho que me obriga a arquivar o nada”.
Clinicamente, essa frase traduz a percepção de que o suicídio — assistido ou não — anula a narrativa. É o colapso da linguagem antes do encontro.
Do ponto de vista psicológico, a função terapêutica é justamente restituir o símbolo. Fazer o sujeito voltar a narrar o que sente, mesmo que continue sem querer viver. A fala, aqui, é o fio que segura a existência no tempo.
— “A morte é inexorável, mas o suicídio é indeciso.”
— Loka do Rolê
O suicídio assistido, legalizado em países como Suíça, Holanda e Canadá, não elimina a dimensão simbólica da morte: apenas a transfere para o campo jurídico. O risco é transformar a morte em prestação de serviço, e o sofrimento, em protocolo.
6. Ironia, arrependimento e o fim-de-semana
O fim de semana é uma pequena morte social: pausa, silêncio, suspensão. Foi nesse intervalo que este texto foi escrito — um lembrete de que a pausa é a prévia do fim.
Viver é administrar intervalos.
A ironia maior é esta: o arrependimento não é fracasso, é confirmação. Só se arrepende quem quis viver mais do que conseguiu. E isso, paradoxalmente, é sinal de vitalidade.
A vida ética é a que se sabe finita. O suicídio não é símbolo de coragem, nem de fraqueza: é o eco de uma sociedade que perdeu a escuta.
E se há um pedido ético a se fazer, é este: que a psicologia nunca se esqueça de ouvir até o fim.
Conclusão
A reflexão sobre o suicídio assistido exige da psicologia contemporânea equilíbrio entre ética, filosofia e humanidade.
Entre o direito à autonomia e o dever de proteção, entre o silêncio e a palavra, entre o desejo e o desespero — é nesse intervalo que o psicólogo atua.
O filme Encontro Marcado simboliza o gesto clínico perfeito: a morte se faz humana, escuta, e só leva quando há história.
Que nossa escuta também seja assim: lúcida, ética e sem pressa.
Porque todo arrependimento antes do fim é prova de que houve desejo — e o desejo é a única força que, mesmo morrendo, insiste em viver.
Referências e Linhas de Apoio
Linhas de ajuda (Brasil)
CVV – Centro de Valorização da Vida: 188 (atendimento gratuito 24h) | cvv.org.br
Samu (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência): 192 (emergência nacional)
CAPS – Centros de Atenção Psicossocial: atendimento presencial em todo o território nacional (procure o posto mais próximo)
Hospitais universitários e clínicas-escola de psicologia: atendimento gratuito e sigiloso para crise emocional.
Emergências psiquiátricas: procure o hospital de referência mais próximo.
Referências bibliográficas:
BRANDALISE, V. B. Suicídio assistido e eutanásia na perspectiva de profissionais e acadêmicos de um hospital universitário. Revista Bioética, v. 26, n. 2, p. 186-196, 2018. Disponível em: https://revistabioetica.cfm.org.br/index.php/revista_bioetica/article/view/1649/1868. Acesso em: 1 nov. 2025.
BRAGA, T. M. O suicídio assistido no Brasil: uma análise constitucional e legal. Tese (Doutorado) – PUC-SP, São Paulo, 2022. Disponível em: https://tede2.pucsp.br/handle/30846.
DEDIVITIS, R. A. et al. Medical students’ and residents’ views on euthanasia and assisted suicide in Brazil. BMC Medical Ethics, v. 24, 2023. Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/376362503_Medical_students%27_and_residents%27_views_on_euthanasia.
KOVÁCS, M. J. Conflitos éticos envolvidos na situação de suicídio. Psicologia Clínica, v. 23, n. 3, 2013. Disponível em: https://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?pid=S1516-36872013000300005.
CARDOSO, L. L. S. et al. Brazilian literature on bioethics and suicide: a systematic review. Bioética, 2023. Disponível em: https://www.scielo.br/j/bioet/a/BpjCS4X7wZSw5CR5GSGzkHD/?lang=en.
SHAUHNESSY, J. J.; ZECHMEISTER, E. B.; ZECHMEISTER, J. S. Metodologia de Pesquisa em Psicologia. 9. ed. Porto Alegre: McGraw-Hill, 2012.
CIORAN, E. M. Breviário da Decomposição. Lisboa: Relógio d’Água, 2011.
KIERKEGAARD, S. O Conceito de Angústia. São Paulo: Martins Fontes, 2010.
SPINOZA, B. Ética Demonstrada Segundo a Ordem Geométrica. São Paulo: Autêntica, 2015.
HAN, B.-C. A Sociedade do Cansaço. Lisboa: Relógio d’Água, 2020.
ZUBOFF, S. A Era do Capitalismo de Vigilância. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2020.
Nota do autor:
— A Loka do Rolê
Este texto pertence ao projeto Mais Perto da Ignorância, uma proposta filosófico-clínica que tensiona os limites da escuta na era da saturação.
Não é uma apologia, é um espelho.
Não propõe fim, propõe consciência.
A escuta é o resto — e o resto é o que ainda nos mantém humanos.
#alokadorole
#maispertodaignorancia
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