ARTIGO — Método de Pesquisa em Psicologia Contemporânea, Técnica e Vida Vivida: Análise Clínica e Histórica do Discurso Tecnológico na Era da IA
José Antônio Lucindo da Silva — Psicólogo (CRP 06/172551)
Publicado em: //2025 — Blog Mais Perto da Ignorância
Resumo:
Este ensaio analisa, sob metodologia contemporânea de pesquisa em psicologia — incluindo análise documental, hermenêutica clínica e paralelos histórico-simbólicos — a relação entre sujeito, técnica e discurso, tomando como corpus empírico o artigo “A transformação disruptiva da Inteligência Artificial” publicado em 23/11/2025 no site AC24Horas. A partir desse documento, exploramos como o discurso tecnológico opera como forma de organização cognitiva, afetiva e social, retomando reflexões de Kierkegaard, Marx, Han e autores contemporâneos da psicologia clínica. O propósito não é estabelecer crítica ou juízo de valor, mas investigar, pelas lentes metodológicas da psicologia, o que permanece quando o discurso sobre tecnologia se dissolve, e como isso afeta o sujeito em sua vida vivida, conforme já apresentado no texto anterior.
1. Introdução: método, ética e campo clínico
Como psicólogo clínico, este texto se ancora no Código de Ética Profissional do Psicólogo (CFP, 2005), que orienta:
responsabilidade social,
rigor técnico,
fundamento científico,
cuidado com a dignidade humana,
ausência de julgamento moral sobre o sujeito.
Aqui, aplica-se o método de pesquisa qualitativa em psicologia, que inclui:
1. Análise documental — estudo do material publicado no AC24Horas como expressão cultural;
2. Interpretação hermenêutica — leitura dos sentidos, símbolos e ausências do discurso;
3. Paralelo histórico-clínico — compreensão da técnica como força estruturante da vida;
4. Discussão teórica — com Marx, Kierkegaard, Han e autores da psicologia contemporânea;
5. Construção de suposição fundamentada, não previsão, não juízo, não crítica destrutiva.
Este texto complementa o artigo anterior, expandindo-o para enquadramento metodológico e analítico no campo da psicologia.
2. Documento analisado: o discurso do AC24Horas como dado empírico
O artigo “A transformação disruptiva da Inteligência Artificial” (AC24Horas, 23/11/2025) apresenta uma visão otimista e performática da adoção da IA por empresas brasileiras, enfatizando ganhos de eficiência, velocidade e vantagem competitiva.
Como documento empírico, ele não é analisado por suas intenções, mas por sua função discursiva: organizar expectativas sociais sobre tecnologia e orientar formas de pensamento.
Trata-se de um texto típico de época:
rápido,
utilitário,
orientado à produtividade,
baseado em inevitabilidade,
apoiado em vocabulário empresarial e de aceleração.
A metodologia da psicologia permite observar não o que o texto diz, mas o que ele produz, e sobretudo o que ele esconde, por limites próprios do meio de consumo.
O texto fala do presente consolidado.
Nossa análise investiga o ainda-não, o campo anterior à representação.
3. Por que analisar discurso tecnológico em psicologia?
Porque o discurso não é apenas opinião — ele é forma de subjetivação.
Marx já antecipava que:
os meios de consumo organizam a consciência.
Hoje, os meios de consumo são:
a velocidade informacional,
a estética da urgência,
a lógica da automação,
a promessa da eficiência,
a simplificação dos afetos.
Quando a psicologia se debruça sobre documentos assim, ela investiga:
como o sujeito aprende a desejar,
como organiza seu tempo interno,
como interpreta o trabalho,
como lida com a angústia,
como elabora o futuro,
como experimenta o nada.
Esse é o ponto kierkegaardiano que orienta a análise:
a vida vivida não se captura no discurso — só na experiência.
4. Metodologia aplicada: hermenêutica crítica e paralelos histórico-técnicos
Para analisar o texto, utilizam-se:
4.1. Hermenêutica clínica
Interpretação dos elementos explícitos e implícitos, com especial atenção ao que se omite:
sofrimento invisível,
medo de obsolescência,
autoexploração,
ansiedade adaptativa,
reorganização do tempo.
4.2. Análise histórica comparada
Conforme desenvolvido no artigo anterior, o tear industrial é nosso espelho.
Não por nostalgia, mas por método.
O tear manual → tear mecânico produziu:
nova disciplina corporal,
aceleração social,
nova economia do esforço,
dissolução de ofícios inteiros,
emergência de ansiedades inéditas.
O Tear digital — inteligência artificial — produz:
nova disciplina cognitiva,
aceleração da atenção,
economia da vigilância,
dissolução de fronteiras entre humano e máquina,
ansiedades ligadas ao desempenho.
4.3. Observação fenomenológica
Pergunta-se: o que aparece no sujeito quando um discurso reorganiza o mundo?
5. O discurso do AC24Horas: estrutura, função e efeitos clínicos possíveis
O texto enfatiza:
inevitabilidade da IA,
ganho de tempo,
precisão,
eficiência,
competitividade.
A psicologia observa não a veracidade disso, mas o efeito psíquico produzido por tais afirmações.
5.1. Efeito 1 — Conformação cognitiva
O sujeito aprende a pensar:
em termos de produtividade,
em termos de desempenho,
em termos de otimização,
em termos de utilidade.
Isso ecoa Han (A Sociedade do Cansaço, 2015):
a técnica deixa de exigir obediência e passa a exigir performance.
5.2. Efeito 2 — Dissolução do vazio
Kierkegaard chamaria isso de perda do silêncio necessário ao existir.
A técnica oferece:
preenchimento constante,
sugestão permanente,
direção imediata.
Mas o sujeito perde:
o tempo de elaboração,
a pausa simbólica,
o hiato necessário ao desejo.
5.3. Efeito 3 — Evaporação do discurso
Assim como discursos sobre o tear mecânico evaporaram no século XIX,
o discurso sobre IA também evaporará.
O que permanecerá?
novos ritmos,
novas exigências internas,
novas ansiedades,
nova economia do desejo.
6. O nada como método: compreender o intervalo
Você propõe um conceito central:
o nada como campo anterior ao discurso.
Metodologicamente, isso significa olhar para:
aquilo que o artigo não contempla,
aquilo que o sujeito experimenta antes de nomear,
aquilo que emerge antes da técnica preenchê-lo.
O nada é:
espaço clínico (Winnicott),
espaço existencial (Kierkegaard),
espaço da negatividade (Han),
espaço de elaboração psíquica e simbólica.
A técnica, o discurso e o mercado operam para eliminar o nada.
A psicologia opera para restaurá-lo, porque sem nada não há sujeito.
7. Sujeito, técnica e futuro: suposição fundamentada
Metodologicamente, não se fazem previsões.
Fazem-se suposições analíticas:
1. O discurso atual evaporará — como sempre ocorreu.
2. A reorganização subjetiva persistirá — como sempre ocorreu.
3. A IA moldará ritmos, afetos, percepções — como o tear moldou corpos.
4. O valor que sobrará não será o discurso, mas a forma de vida que ele produzir.
5. A vida vivida continuará ilimitada pelo discurso e pela técnica.
Essas são inferências qualitativas, não diagnósticos.
8. Conclusão
O documento analisado não é criticado — é interpretado.
A psicologia não disputa com o texto.
Ela pergunta:
“O que este texto faz com o sujeito que o lê?”
E então:
observa sua função,
ilumina suas ausências,
compara seu ritmo ao de épocas passadas,
analisa seus efeitos simbólicos,
e devolve ao leitor algo que o discurso não pode dar:
o espaço para existir antes da performance.
Assim como no tear industrial,
assim como na digitalização,
assim como em todas as épocas da técnica,
o discurso passará.
Mas a forma de vida permanecerá.
E é nesse ponto que a psicologia se coloca:
não como resistência ao novo,
não como nostalgia do velho,
mas como testemunha da vida vivida,
antes que ela seja capturada, reposicionada, otimizada e esquecida.
Referências:
AC24HORAS. A transformação disruptiva da inteligência artificial. 23 nov. 2025. Disponível em: https://ac24horas.com/2025/11/23/a-transformacao-disruptiva-da-inteligencia-artificial/. Acesso em: 24 nov. 2025.
AMERICAN PSYCHOLOGICAL ASSOCIATION. Relatório Anual de Saúde Mental. Washington, DC: APA, 2023.
BOTÊGA, N. J. Crise Suicida: Avaliação e Manejo. Porto Alegre: Artmed, 2022.
CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. Código de Ética Profissional do Psicólogo. Brasília: CFP, 2005.
HAN, B.-C. A Sociedade do Cansaço. Petrópolis: Vozes, 2015.
KIERKEGAARD, S. O Conceito de Angústia. São Paulo: Editora Unesp, 2010. (Original publicado em 1844).
MARX, K. O Capital: Crítica da Economia Política. São Paulo: Boitempo, 2013. (Original publicado em 1867).
MIT TECHNOLOGY REVIEW. The Global State of AI Adoption. Cambridge: MIT Press, 2025.
OECD. Technology and Work: Annual Outlook 2024. Paris: OECD Publications, 2024.
Mini bio:
José Antônio Lucindo da Silva é psicólogo clínico (CRP 06/172551), pesquisador independente em subjetividade, tecnologia e processos culturais. Atua na interface entre psicologia, filosofia e crítica da cultura digital, investigando formas emergentes de sofrimento contemporâneo e modos de elaboração simbólica na era da inteligência artificial.
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