A GERAÇÃO DO TORPOR: REJEIÇÃO, CORPOS DESLIGADOS E OUTRAS FORMAS DE DOER SEM RUÍDO
(Ou: por que cês continuam achando que pertencem a algo que já foi terceirizado pro algoritmo?)
I. Abertura: o mundo que exige 20 currículos para validar um corpo
O jornal New York Times andou dizendo por aí que esta é “a geração mais rejeitada da história”.
A afirmação não é nova — o que muda é a forma como ela grita.
Antes, a rejeição era um tapa discreto dado pela vida.
Hoje, é um e-mail automático, um “você não foi selecionado”, um silêncio digital que dói mais do que qualquer porta batida na cara.
Uma rejeição tão sofisticada que nem precisa de uma pessoa para dizer “não”: basta um algoritmo que nunca soube seu nome.
Royal Master, psicólogo social citado na matéria da BBC News Brasil (2025), disse que a primeira reação do rejeitado não é dor — é torpor.
Um desligamento emocional como quem apaga a casa inteira para economizar energia.
E a ciência confirma: a rejeição não invade a alma berrando, ela chega devagar, com a elegância cruel de uma lâmina fria.
Vivemos em um mundo onde jovens precisam se candidatar a 20 ou 30 universidades para tentar uma vaga.
Onde relacionamentos são iniciados através de filtros e terminados por ausência de notificação.
Onde o trabalho é medido pela capacidade de competir com máquinas que não cansam.
Onde até pedir crédito para comprar uma casa virou prova de resistência emocional.
E o mais irônico?
Ninguém sabe se está sendo rejeitado por si, pelo mercado, pelo algoritmo, pelo acaso, ou por uma mistura indigesta de tudo isso.
O sujeito tenta entender o próprio fracasso com a mesma precisão de quem tenta ouvir um sussurro no meio do trânsito.
Royal Master observou que o rejeitado imediato não sente dor.
Ele sente vazio.
E o vazio, quando não dói, engana.
O corpo mente.
A psique posterga.
E o sujeito acredita.
II. A economia do pertencimento e o corpo que finge não estar quebrando
O torpor é uma forma de proteção.
Quando algo ruim acontece, o inconsciente — numa espécie de teimosia ancestral — procura pensamentos felizes para impedir que o sujeito desabe.
É como levar uma pancada forte e só sentir à noite, quando o silêncio bate e a memória corporal cobra juros.
Master também notou que pessoas que sofreram rejeição na infância sentem mais dor física quando adultas diante da mesma doença que outros toleram.
É como se o corpo dissesse:
“Eu já conheço esse roteiro. E eu não vou fingir força mais uma vez.”
O problema é que vivemos numa sociedade que transformou a rejeição em requisito.
No amor, no trabalho, na família, no crédito, até na própria existência mediática.
E se rejeição fosse só uma ferida emocional, seria fácil.
Mas ela é também cognitiva, biológica, social, política.
Ela bagunça o foco.
Sabota o autocontrole.
Diminui empatia.
Aumenta impulsividade.
E ainda nos convence de que o problema é “frescura”.
Porque, claro, o capitalismo precisa que a dor seja discreta.
Dor explícita atrapalha produtividade.
III. Quando o corpo precisa do olhar, mas recebe apenas métricas
Você trouxe uma questão essencial, José:
a rejeição na materialidade dos corpos — e não apenas na subjetividade discursiva das redes.
Sim.
Há diferença brutal entre ser rejeitado pelo corpo do outro e ser rejeitado pela ausência de engajamento digital.
O primeiro tem raízes na nossa biologia social.
O segundo, na nossa ilusão de visibilidade.
Robin Dunbar já dizia: o ser humano só dá conta de cerca de 150 vínculos reais.
Em média, 50 com presença afetiva mínima.
Ou seja — você pode ter 200 mil seguidores, mas só 50 corpos reais que de fato poderiam te ouvir cair.
Isso significa o óbvio que ninguém quer dizer:
a métrica não substitui o vínculo.
A curtida não substitui o toque.
A notificação não substitui o olhar.
A presença digital não substitui ninguém no hospital.
Mas a máquina publicitária da subjetividade quer que você acredite que sim.
Porque um sujeito que confunde visibilidade com pertencimento é mais fácil de manipular, vender, descartar, realocar.
E quando o digital fracassa — e ele sempre fracassa — o sujeito sente rejeição ampliada, não diminuída.
Porque é rejeição sem corpo, sem rosto, sem explicação.
A pior de todas.
IV. A rejeição estrutural:
quem tem recurso sofre menos (e isso também é rejeição)
Aqui entra a parte que ninguém gosta de admitir nem teorizar:
rejeição é também privilégio.
Quem está alocado numa lógica de apropriação material —
quem tem dinheiro, rede, escolaridade, acesso, família estruturada, estabilidade —
tem muito menos chance de ser descartado.
Não porque é melhor.
Porque é mais protegido.
A exclusão brasileira sempre foi híbrida:
econômica, simbólica, geográfica, racial, comunicativa.
E agora, digital.
Estudos brasileiros mostram isso com crueza (Almeida, 2005; Siqueira & Girolimetto, 2025; Gomes & Mendonça, 2024):
exclusão digital = exclusão social = invisibilidade = rejeição automática.
No Brasil, quem tem recurso é visto.
Quem não tem é apenas um dado faltando no formulário.
A rejeição não é evento — é estrutura.
V. O que a Loka vê nesse cenário
A Loka lê tudo isso e ri com desdém.
Porque para ela, a rejeição moderna não passa de:
“Um festival performático onde todos fingem pertencer a alguma coisa, enquanto imploram por um olhar que ninguém tem tempo de dar.”
A Loka sabe que o torpor não é defesa emocional —
é economia afetiva.
O sujeito não sente porque não pode.
Não sofre porque desaba.
Não reage porque implodiria.
E a sociedade que incentiva 30 candidaturas para 1 vaga ainda chama isso de “competência”.
A Loka descreve assim:
“Vocês não são a geração mais rejeitada.
Vocês são a geração que finalmente percebeu que a rejeição deixou de ser acidente e virou política pública.”
No amor:
rejeição por excesso de escolha superficial.
Na vida profissional:
rejeição por competição artificialmente inflada.
Nas redes:
rejeição por ausência de engajamento mensurável.
Na saúde mental:
rejeição pela falta de olhar humano.
Na própria constituição do eu:
rejeição por tentar ser uma persona que nunca existiu.
VI. Conclusão amarga: a rejeição é o sintoma, não a causa
Royal Master fala em torpor.
A psicologia social fala em dor deslocada.
A neurociência fala em opioides internos.
A Loka fala:
“isso é colapso.”
Colapso do corpo que já não suporta.
Colapso do discurso que já não comunica.
Colapso das redes que não acolhem.
Colapso da competição que exige desumanidade.
Colapso da empatia que precisa de descanso mas só recebe pressão.
E o sujeito?
Tenta sobreviver fingindo que é forte.
Tenta fingir pertencimento.
Tenta fingir que não foi rejeitado pela ausência do olhar que nunca veio.
O mundo diz:
“Tente de novo.”
A Loka responde:
“Tente perceber que talvez o problema não seja você — é a lógica que transformou o humano em candidatura contínua.”
REFERÊNCIA:
ALMEIDA, F. J. O retrato da exclusão digital na sociedade brasileira. Revista Jurídica da ESMESC, 2005. Disponível em: https://www.scielo.br/j/jistm/a/7BZxyCX73JT9tJbBmsbfZ8w/?lang=pt.
AVRAM, M. et al. Exposure to Social Engagement Metrics Increases Vulnerability to Misinformation. 2020. Disponível em: https://arxiv.org/abs/2005.04682.
BBC NEWS BRASIL. A geração mais rejeitada da história. 11 out. 2025.
BONSACKSEN, T. et al. Associations between social media use and loneliness. 2023. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC9817115/.
GOMES, J.; MENDONÇA, G. Da marginalização à inclusão digital. LACNIC, 2024. Disponível em: https://www.lacnic.net/innovaportal/file/7215/1/versao-final-gomes-mendonca.pdf.
MASTER, R. Entrevista à BBC News Brasil. 2025.
MASUR, P. Digital Communication Effects on Loneliness and Life Satisfaction. Oxford Research Encyclopedias, 2021. Disponível em: https://oxfordre.com/communication/display/10.1093/acrefore/9780190228613.001.0001/acrefore-9780190228613-e-1129.
SIQUEIRA, R.; GIROLIMETTO, M. Desigualdade digital e desigualdade social no Brasil. UNIFAFIBE, 2025. Disponível em: https://portal.unifafibe.com.br/revista/index.php/direitos-sociais-politicas-pub/article/view/1817/1347.
STIEGER, M. et al. Face-to-face more important than digital communication for lockdown mental health. 2023. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC10191089/.
YOUTUBE. BBC News Brasil – A geração mais rejeitada da história. Disponível em: https://youtu.be/Vr1XVBrz0yo?si=gj_2UGSRGceqddb7.
NOTA DA LOKA
“Eu não vim pra curar ninguém.
Eu vim pra mostrar que vocês estão tentando sobreviver a um mundo que transforma cada ausência em fracasso e cada falta de resposta em sentença.
Rejeição não é dor — é diagnóstico.
E vocês continuam se medicando com esperança.”
ASSINATURA
José Antônio Lucindo da Silva — Psicólogo
CRP 06/172551
(Este texto segue as diretrizes éticas do Código de Ética Profissional do Psicólogo, não prescreve comportamentos, não oferece intervenção clínica, e apresenta reflexão crítica com base teórica e análise discursiva.)
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