A gente não é mais a gente: somos versões editadas de nós mesmos
Quando a mentira deixa de ser defesa e vira infraestrutura**
José Antônio Lucindo da Silva
Psicólogo – CRP 06/172551
Resumo
Este artigo discute a dissolução contemporânea da identidade e da verdade na era das inteligências artificiais generativas, deepfakes e identidades sintéticas. A partir do cruzamento entre psicologia, filosofia existencial, sociologia digital e teoria crítica, argumenta-se que a subjetividade moderna tornou-se um território hackeável, onde a mentira — antes mecanismo caracterológico de defesa (Becker) — converte-se em protocolo operacional do Eu. A crise da confiança analisada em relatórios recentes sobre tecnologias emergentes é apresentada como desdobramento direto da crise da identidade: um sujeito angustiado, performático e editável torna-se ele próprio vulnerável à manipulação, à fraude e à autoenganação. A Loka do Rolê, enquanto persona crítica, tensiona essa ontologia instável, revelando a ironia trágica de uma civilização que transforma o desejo em algoritmo e a existência em superfície verificável.
Palavras-chave: identidade digital; angústia; fraude; subjetividade; deepfake; pós-modernidade.
1. Introdução
Vivemos numa era em que a crise da verdade e a crise da identidade deixaram de ser fenômenos distintos. O mesmo mundo que já não acredita nas imagens é o mundo onde o sujeito já não acredita em si. A ascensão de tecnologias de manipulação — deepfakes, identidades sintéticas, fraude automatizada e verificações algorítmicas — apenas externaliza o que a psicologia clínica observa cotidianamente: o Eu perdeu consistência simbólica.
Aquilo que Freud (1929) chamou de mal-estar já não se limita à fricção entre pulsões e cultura; ele se digitaliza. E aquilo que Kierkegaard descreveu como angústia da possibilidade torna-se agora angústia da multiplicidade infinita de versões de si mesmo. O Eu não é apenas dividido — é editável.
A pós-modernidade, como Bauman (1997) apontou, liquefez as instituições; a era das IAs liquefez o sujeito.
2. A crise da confiança como sintoma da crise do Eu
Relatórios recentes sobre o colapso da confiança digital demonstram que:
identidades sintéticas são comercializadas;
deepfakes são indistinguíveis do real;
70% das violações surgem de falhas humanas;
a verificação tornou-se o novo superego.
Se o real já não é verificável, é porque o Eu já não é verificável.
Se a verdade é instável, é porque a subjetividade tornou-se instável.
Em termos psicanalíticos, o Eu, que já era uma instância frágil mediadora entre pulsões e realidade, agora precisa mediar também entre versões de si criadas por máquinas — e por ele mesmo.
A fraude externa só prospera porque ecoa a fraude interna.
3. Becker, Sartre e a mentira como método
Ernest Becker (1973) argumentou que o ser humano fabrica uma mentira caractereológica para suportar a consciência da morte.
Hoje, essa mentira:
é exportável,
é automatizada,
é comercializável,
é operada em nuvem,
é integrada à estética digital.
A identidade torna-se uma interface, não uma experiência.
Já a má-fé sartreana — originalmente o mecanismo pelo qual o sujeito foge da responsabilidade por sua liberdade — inverte-se: não é mais a existência que precede a essência, mas a essência fabricada que exige que a existência corra atrás. O filtro antecede o rosto. A versão visual antecede o vivido. A narrativa antecede a experiência.
O Eu torna-se uma fraude aplicada a si mesmo.
4. A angústia como efeito colateral da vida a posteriori
A angústia kierkegaardiana, antes ligada ao excesso de possibilidade, agora liga-se ao excesso de edição. A vida não é vivida no presente; é construída para um futuro inexistente que precisa parecer plausível. A ontologia do Eu migra da matéria para a interface.
O sujeito vive a posteriori: não existe para depois narrar; narra para depois tentar existir.
Essa inversão produz uma angústia nova:
não é a angústia do que pode vir a ser,
mas a angústia do que já se mostrou — e não existe.
5. A felicidade como sintoma performático
A Organização Mundial da Saúde define bem-estar como condição biopsicossocial.
A cultura digital define bem-estar como aparência performada.
A felicidade, nesse regime, não é vivida — é exibida.
Han (2015) já havia denunciado: a positividade compulsória do neoliberalismo emocional gera exaustão e burnout. A IA apenas industrializa o sintoma: agora é possível adquirir uma felicidade artificial, hiper-realista e instantânea, via aplicativos que fabricam viagens, corpos, cenários e narrativas inexistentes.
O Eu torna-se um protótipo de si mesmo — em beta eterno.
6. A subjetividade como superfície hackeável
Tecnologicamente, o sujeito é hoje:
rastreável,
preditivo,
manipulável,
recombinável,
verificável apenas por machine learning.
Zuboff (2019) chamou isso de capitalismo de vigilância.
A psicologia chama de vulnerabilidade psíquica.
A Loka do Rolê chama de “alma em open source”.
A confiança não colapsa por falha da tecnologia, mas por falha da ontologia: o sujeito é hackeável porque é editável; é editável porque é instável; é instável porque é angustiado.
7. Considerações finais — A síntese corrosiva da Loka do Rolê
“A verdade caiu porque o Eu caiu primeiro.
Quando cês começaram a editar a própria existência pra caber no feed, era óbvio que o mundo ia editar o resto.
Não existe mais fraude: só versões do real brigando pela própria utilidade.”
O colapso da confiança não é ameaça tecnológica — é diagnóstico clínico de uma subjetividade fragmentada entre o desejo e o algoritmo. A mentira, antes proteção contra a morte, agora é protocolo de funcionamento. A performance substitui o vivido. A simulação substitui o corpo. A imagem substitui o Eu.
E o mais trágico:
O sujeito acredita mais na versão editada do que na própria experiência.
Referências:
BAUMAN, Zygmunt. O mal-estar da pós-modernidade. Rio de Janeiro: Zahar, 1997.
BECKER, Ernest. A negação da morte. Rio de Janeiro: Record, 1973.
FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização. São Paulo: Penguin/Companhia das Letras, 2011.
HAN, Byung-Chul. A sociedade do cansaço. Petrópolis: Vozes, 2015.
KIERKEGAARD, Søren. O conceito de angústia. Lisboa: Relógio D’Água, 2014.
SARTRE, Jean-Paul. O ser e o nada. Petrópolis: Vozes, 1997.
ZUBOFF, Shoshana. A era do capitalismo de vigilância. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2020.
THE VERGE. The truth under attack: the collapse of digital trust. 2024.
José Antônio Lucindo da Silva – Psicólogo (CRP 06/172551)
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