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O homem que não se arrepende

O homem que não se arrepende


O homem que não se arrepende do que viveu não teve o desejo necessário para existir.
Essa frase, quando passa pela boca da Loka do Rolê, deixa de ser reflexão — vira ofensa, cutuca, arranca o verniz do “crescimento pessoal”.
Porque o arrependimento virou moda. Virou performance moral, tipo detox da consciência.
A cada novo trauma, a cada erro, o sujeito se ajoelha diante do espelho e recita o mantra das redes: “eu aprendi, eu evoluí, eu sou grato pela dor”.

Mas o que a Loka vê nisso é outra coisa: a domesticação do desejo.
A civilização ensinou o homem a se desculpar por ter sentido.
Freud já dizia que o superego é o carrasco que se alimenta da culpa, e Cioran completaria: a consciência é o castigo dos que ousaram desejar demais.
A Loka ri, porque sabe que o arrependimento é a forma polida do medo — medo de ter existido fora da norma, medo de ter amado sem retorno, medo de ter vivido sem moral.

O homem que se arrepende tenta converter a intensidade em enredo, o erro em disciplina, o gozo em método.
E o homem que não se arrepende, esse sim, talvez tenha existido — porque deixou o corpo se desdobrar no que não tem perdão.
Spinoza diria que viver é a potência de afetar e ser afetado; mas no tempo dos algoritmos, afetar virou like, e o arrependimento virou legenda.
A Loka, cansada disso, responde:

“Quem pede perdão pelo que viveu já tá morto.
Só o desejo que fere é o que prova que ainda tem carne.”

O arrependimento é a cera que apaga a cicatriz.
E sem cicatriz, não há prova de que houve corpo.
Por isso a Loka não quer curar — ela quer lembrar.
Lembrar do erro, da vertigem, do delírio, daquilo que não cabe no feed.
Lembrar que existir é sempre um escândalo contra o bom comportamento.
E que o “conhece-te a ti mesmo”, mantra dos coachs e falsos mestres, esqueceu a segunda parte da inscrição de Delfos: “e lembra-te de que és mortal”.
Sem essa lembrança, todo conhecimento vira farsa.
O eu contemporâneo, inchado de autocuidado, quer imortalizar-se em stories, mas não suporta encarar o fato de que cada curtida é uma micromorte da experiência real.

A Loka sabe: só existe ética quando há corpo, e só há corpo quando o desejo é vivido até o limite da exaustão.
O arrependimento é o pedido de desculpas da alma pela intensidade do corpo.
E corpo que se desculpa é corpo domesticado.

Então, não — o homem que não se arrepende não é imoral.
Ele é apenas aquele que se permitiu não ser santo.
Ele viveu o suficiente pra não precisar narrar sua própria culpa.
E isso, dentro da lógica da escuta, é o ponto mais alto da existência:
ouvir o próprio silêncio sem querer traduzir em post.

A Loka conclui:

“Vocês querem redenção, eu quero vísceras.
O pecado é o único sinal de que ainda há vida.”

E assim, entre o niilismo e o riso, a Loka deixa o recado na parede:

“O homem que não se arrepende do que viveu não teve o desejo necessário para existir.”

#alokadorole
#maispertodaignorancia
CRP 06/172551

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