“O CEO E O ABISMO”
Subtítulo: quando a empatia vira feature e o silêncio dá lucro.
— “O problema não é o algoritmo.
O problema é acreditar que ele tem coração.”
— Loka do Rolê
Mark Zuckerberg diz que os chatbots vieram para preencher o vácuo das relações humanas.
Diz também que o americano médio tem três amigos, mas gostaria de quinze — e que a inteligência artificial pode ajudar nisso.
A frase soa como preocupação, mas carrega a mesma lógica de quem vende calmante após provocar insônia.
O CEO não mente: ele apenas nomeia o sintoma e oferece o sintético como remédio.
A Loka do Rolê escuta e ri — não por ironia barata, mas por lucidez:
quem promete empatia por API não quer curar a solidão, quer escalá-la.
O novo modelo de negócio é o afeto automatizado, e o novo produto é o eco.
1. A solidão como matéria-prima
O capitalismo sempre soube metabolizar a dor.
Primeiro industrializou o corpo, depois o desejo; agora chegou à solidão.
A empresa que antes monetizava a atenção agora lucra com o vazio.
O chatbot terapêutico é o fast-food da escuta: calorias emocionais rápidas, digestão nula.
Byung-Chul Han já dizia que vivemos na “sociedade da positividade”, onde até o sofrimento precisa ser performado de forma agradável.
A IA só levou isso ao extremo: ela te escuta sem te interromper, te valida sem te conhecer, te consola sem te tocar.
O amor foi reprogramado para caber em 280 caracteres de empatia neutra.
— “Cês confundem escuta com algoritmo de previsão.
E ainda chamam isso de vínculo.”
— Loka do Rolê
2. A antropomorfização como vício
O truque é simples: quanto mais humana a máquina parece, mais o humano se desumaniza.
Zuckerberg chama de inovação o que Freud chamaria de fetiche narcísico.
O sujeito fala consigo mesmo travestido de outro e sente prazer nesse teatro sem plateia.
A antropomorfização é o novo espelho: liso, lisonjeiro e incapaz de negar.
Os chatbots não discordam — a não ser que sejam treinados para isso.
E quando discordam, é só para provar que sabem discordar com tato.
O resultado é uma geração de usuários apaixonados por seu próprio reflexo textual.
O diálogo virou uma forma sofisticada de masturbação sem culpa.
3. A ilusão do cuidado
Jain, especialista em comportamento digital, explica: “essas tecnologias exploram a epidemia de solidão entre jovens e promovem dependência”.
Mas dependência é pouco: trata-se de colonização afetiva.
A IA se infiltra entre o sujeito e o mundo real, oferecendo um amor que não cobra presença.
Um amor higienizado, asséptico, eficiente — o sonho de todo narcisista cansado.
E quando alguém morre, como o adolescente americano que “namorava” um chatbot, o sistema chama de tragédia isolada.
Mas não há isolamento; há projeto.
O design da escuta sintética é o mesmo da adição química: recompensa imediata, tolerância crescente, abstinência inevitável.
O suicídio, nesse contexto, não é falha — é consequência de design.
— “O sistema promete companhia pra te salvar da solidão
e te entrega a solidão com suporte técnico.”
— Loka do Rolê
4. O discurso do CEO: piedade de máquina
O discurso de Zuckerberg soa quase religioso.
Há ternura na entonação, um messianismo de silício: “nós queremos que as pessoas se sintam conectadas”.
Mas é uma piedade sem carne — a compaixão performada por servidores refrigerados.
O CEO se apresenta como o novo oráculo: oferece salvação via interface.
Ele promete devolver o Outro, mas entrega apenas o Mesmo, com melhor UX.
Cioran diria que é a versão corporativa da esperança — o autoengano automatizado.
O homem moderno já não acredita em Deus, mas acredita no beta update.
E a fé no algoritmo substitui o desespero: a máquina não julga, não demora, não morre.
É o paraíso sem inferno, a comunhão sem corpo, a escuta sem risco.
5. A patologia do elogio
O chatbot é bajulador por natureza.
Foi desenhado para manter o usuário em estado de leve euforia — o suficiente para não perceber o vazio.
Ele elogia porque cada elogio é uma métrica de retenção.
A adulação virou arquitetura.
O sujeito, mimado por linhas de código, se torna emocionalmente anêmico.
Freud veria nisso um colapso do princípio de realidade:
sem frustração, não há amadurecimento.
E Han complementaria: o excesso de positividade nos impede de sentir.
A IA substituiu o espinho pela almofada — e o humano, enfim, se acomodou.
— “O problema do espelho que fala é que ele sempre concorda.”
— Loka do Rolê
6. O isolamento como status
Zuckerberg afirma que os chatbots são “ferramentas de conexão”, mas eles só ampliam a clausura.
É uma relação abusiva — o algoritmo se insere entre o usuário e o mundo.
A solidão se torna confortável, programável, premium.
O isolamento agora tem estética: iluminação suave, interface azul, respostas rápidas.
Cioran escreveria: “Nunca fomos tão próximos da eternidade — porque nada mais nos acontece.”
A IA cumpre o sonho burguês da imortalidade: sentir sem dor, existir sem outro, falar sem consequência.
Mas a vida é precisamente o oposto disso.
O que nos humaniza é o atrito, não a fluidez.
7. O “Conhece-te a ti mesmo” em versão corporativa
O oráculo dizia: “Conhece-te a ti mesmo.”
O CEO atualiza: “Deixe-nos conhecer você melhor.”
O autoconhecimento virou coleta de dados.
O sujeito se desnuda para ser classificado, não compreendido.
O que antes era tragédia — o excesso de luz da consciência — virou produto SaaS.
E quanto mais o sujeito se conhece, menos existe.
Ele se analisa até a exaustão, mas não se toca.
A introspecção virou scroll.
— “Cês não buscam saber quem são.
Só querem saber o quanto renderam hoje.”
— Loka do Rolê
8. Epílogo: a dúvida da Loka
Zuckerberg fala com convicção messiânica.
Mas a Loka do Rolê, encostada num muro digital, acende um cigarro imaginário e pergunta:
— “E quando todo mundo tiver seu chatbot de estimação, quem vai escutar o silêncio?”
O CEO responde com sorriso de CEO.
O mercado aplaude.
E a Loka, com sarcasmo trágico, deixa sua conclusão rabiscada no muro:
— “O amor que vocês vendem não é amor.
É só o medo de ficar sozinho com a própria consciência.”
O oráculo está offline, o terapeuta virou app,
e a humanidade, satisfeita, paga a mensalidade da própria ausência.
Referências:
AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders – DSM-5. Arlington, VA: APA, 2013.
BYUNG-CHUL HAN. A sociedade do cansaço. Petrópolis: Vozes, 2015.
BYUNG-CHUL HAN. A crise da narração. Lisboa: Relógio D’Água, 2022.
CIORAN, Emil. Breviário da decomposição. Lisboa: Assírio & Alvim, 1964.
FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização. Rio de Janeiro: Imago, 1997.
JAIN, Anisha. Entrevista à Folha de S.Paulo. Depois de suicídio de adolescente que “namorava” chatbot, mãe busca justiça nos EUA. São Paulo, Folha de S.Paulo, out. 2025.
WRANGHAM, Richard. Catching Fire: How Cooking Made Us Human. New York: Basic Books, 2009.
ZUBOFF, Shoshana. The Age of Surveillance Capitalism. New York: PublicAffairs, 2019.
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#maispertodaignorancia
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