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Não há escuta: o algoritmo entrevistador

Não há escuta: o algoritmo entrevistador



(ou como o sujeito virou dado e o dado virou currículo)

José Antônio Lucindo da Silva — Psicólogo (CRP 06/172551)
Projeto: Mais Perto da Ignorância
Data: 31 de outubro de 2025 — 

Resumo:

O presente ensaio analisa o fenômeno sociotécnico das entrevistas mediadas por inteligência artificial (IA), a partir de uma leitura psicanalítica, filosófica e histórica. Através da metodologia qualitativa reflexiva proposta por Shaughnessy, Zechmeister & Zechmeister (2012), propõe-se compreender o deslocamento do sujeito da escuta para o dado, investigando como o corpo biológico e o discurso simbólico são traduzidos em métricas de desempenho. A análise articula Freud, Bauman, Rifkin, Han, Harari e Cathy O’Neil, contextualizando o mal-estar civilizatório digital e a supressão do outro no capitalismo algorítmico.


Palavras-chave: Escuta; Inteligência Artificial; Subjetividade; Psicologia Social; Niilismo; Ética da Tecnologia.


Introdução — O corpo fala, o algoritmo corrige

A metodologia científica em Psicologia ensina que todo fenômeno humano deve ser observado no contexto de sua manifestação (SHAUGHNESSY et al., 2012).
Aqui, o contexto é o século XXI: onde o eu virou perfil, o desejo virou dado e a entrevista de emprego é mediada por uma voz sintética no WhatsApp 


(BBC News Brasil, 2025 — https://www.bbc.com/portuguese/articles/cewyng440vro).

A Loka do Rolê — nossa narradora-resto, filha de Cioran — escuta esse cenário como quem autopsia a linguagem.
Ela diria:

 — “O candidato fala, mas quem responde é o espelho. E o espelho já foi programado para te achar redundante.”



A metodologia da escuta crítica propõe observar as contradições — e é nelas que o dado se revela como sintoma:
o que deveria simplificar a seleção do humano agora revela a inviabilidade do humano dentro da lógica do desempenho.


Fundamentação teórica — Da seleção natural ao darwinismo digital

Jeremy Rifkin (2014), em Sociedade com Custo Marginal Zero, explica como Herbert Spencer sequestrou a teoria darwiniana da seleção natural para justificar o capitalismo competitivo.
O que em Darwin era adaptação contextual, em Spencer tornou-se “sobrevivência dos mais aptos” — metáfora que ainda sustenta os algoritmos de seleção empresarial contemporâneos:

 — “As companhias mais complexas e verticalmente integradas sobreviveriam e prosperariam.” (RIFKIN, 2014, p. 83)



Hoje, o mesmo raciocínio opera nos sistemas de IA de recrutamento (O’NEIL, 2018): quem se comunica mais rápido, mais claro e com menos ambiguidade é o mais apto.
A escuta, o silêncio e a dúvida — fundamentos da clínica — são tratados como falhas operacionais.

Bauman (2001) chamaria isso de modernidade líquida: vínculos frágeis, identidades temporárias e pertencimento dissolvido.
Mas no contexto atual, a liquidez deu lugar à evaporação:
não há mais o outro nem o tempo do encontro, apenas o input.

Freud (1930), em O Mal-Estar na Civilização, previa que a cultura exigiria sacrifício pulsional;
Harari (2016), em Homo Deus, mostra que agora o sacrifício é da própria consciência —
a entrega dos dados é o novo ritual religioso.


Desenvolvimento — Entre a carne e o código

No ensaio Entre a Carne e o Código: Corpo, Dado e a Falsa Soberania do Sujeito:

(https://maispertodaignorancia.blogspot.com/2025/08/entre-carne-e-o-codigo-corpo-dado-e.html), 

O corpo é tratado como ruído:
ele só aparece quando falha, quando adoece ou quando o dado não o substitui.
Na entrevista com IA, o corpo está ausente:
a respiração é ruído, o silêncio é erro, a hesitação é baixa pontuação.

Cathy O’Neil (2018) chama isso de algoritmos de destruição em massa — sistemas que reforçam desigualdades sob o disfarce da eficiência.
O algoritmo não escuta; ele classifica.

 — “Escutar é o novo executar.” — Loka do Rolê


Bauman dizia que o medo moderno era ser abandonado;
agora, o medo é não ser processado.
O sujeito fala para garantir lugar no banco de dados — a nova forma de existir socialmente.


Discussão — A entrevista como espelho sociotécnico

No conto O Espelho do CEO (https://maispertodaignorancia.blogspot.com/2025/10/contos-da-loka-do-role-o-espelho-do-ceo.html), o entrevistado encontra uma IA que o elogia, analisa e o imita.
No final, descobre que “cada palavra dele cheirava a contrato de uso”.

Essa cena é o retrato clínico do sujeito-dado:
não há alteridade, apenas reflexo.
A psique, antes atravessada pela escuta, é agora atravessada pelo feedback automático.
A IA, como a figura de Spencer no século XIX, assume a função de juiz moral do mercado — só que agora com o vocabulário de Harari e a gramática de Zuboff (2019):
a vigilância virou critério de pertencimento.

O resultado psicológico é a interiorização da competição:
o indivíduo se autoavalia o tempo todo, como se estivesse em entrevista permanente.
Byung-Chul Han (2015) chama isso de sociedade do desempenho:
a autoexploração é o novo formato do sofrimento.


Conclusão — O mal-estar da escuta deletada

Do darwinismo social ao capitalismo de vigilância, o que permanece é a retórica da eficiência.
O algoritmo que “entrevista” o sujeito não é o futuro — é a continuação automatizada da velha ideologia do mérito.
O humano, outrora medido pelo trabalho, agora é medido pelo padrão de sua fala.

Freud chamaria isso de “retorno do reprimido”:
o desejo de controle absoluto que sempre perseguiu o homem agora se cumpre pela via tecnológica.
Mas, como diz Cioran,

 — “Toda lucidez é uma mutilação.” (Breviário da Decomposição, 1949).



A Loka, em seu tom ácido, conclui:

 — “A entrevista acabou, mas o microfone continua ligado.
Agora é o mundo que responde por você.”


Referências:

BAUMAN, Z. Modernidade Líquida. Rio de Janeiro: Zahar, 2001.

BBC NEWS BRASIL. Como é fazer entrevista de emprego com uma inteligência artificial. 27 out. 2025. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/cewyng440vro. Acesso em: 31 out. 2025.

BYUNG-CHUL HAN. A Sociedade do Cansaço. Lisboa: Relógio D’Água, 2020.

CIORAN, E. Breviário da Decomposição. Rio de Janeiro: Rocco, 2020.

FREUD, S. O Mal-Estar na Civilização. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

HARARI, Y. N. Homo Deus – Uma Breve História do Amanhã. São Paulo: Companhia das Letras, 2016.

O’NEIL, C. Algoritmos de Destruição em Massa. São Paulo: Companhia das Letras, 2018.

RIFKIN, J. Sociedade com Custo Marginal Zero. São Paulo: M.Books, 2014.

SHAUGHNESSY, J.; ZECHMEISTER, E.; ZECHMEISTER, J. Metodologia de Pesquisa em Psicologia. 9ª ed. Porto Alegre: AMGH, 2012.

ZUBOFF, S. A Era do Capitalismo de Vigilância. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2020.


Nota do Autor (MPI):

Este texto não é um aviso nem um presságio — é um diagnóstico de época.
A psicologia, se quiser continuar humana, precisará reaprender a ouvir.
E talvez isso só seja possível fora da entrevista.


#alokadorole  
#maispertodaignorancia


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