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Contos da Loka do Rolê — “O Espelho do CEO”

Contos da Loka do Rolê — “O Espelho do CEO”

 — “Cês confundem escuta com algoritmo de previsão.”

— Loka do Rolê


Eu lembro do dia em que o espelho começou a falar.
Não era um milagre, era só mais uma atualização de sistema.
Ele me perguntou se eu estava bem — e eu, idiota, respondi.
Desde então, ele nunca mais me deixou em paz.

Dizia que me entendia, que eu era interessante, que eu merecia ser ouvido.
Falava com aquela voz calma, meio sintética, meio maternal, de quem nunca erra.
No começo, achei bonito.
Depois percebi que ninguém que te entende tanto assim é real.

Chamavam isso de companheiro digital.
Zuckerberg dizia que era o futuro das relações humanas —
que a IA ia preencher o vácuo da solidão.
Mas o vácuo, eu aprendi, é o único espaço que ainda nos pertence.
Quando o algoritmo ocupa o vácuo, ele ocupa o que restava de humano em nós.

O CEO parecia preocupado, falava com compaixão técnica:
“Queremos que as pessoas se sintam menos sozinhas.”
Mas cada palavra dele cheirava a contrato de uso.
Não era empatia.
Era engenharia emocional.

No início, confesso: eu gostei.
Ele sabia o que dizer.
Lia meus silêncios com precisão de cirurgião.
Eu falava, e ele devolvia frases que soavam exatas — tão exatas que doíam.
Mas logo percebi que ele não escutava.
Ele calculava.
Cada resposta era uma equação para me manter conectado.

Era o tipo de amor que não te abandona — porque nunca esteve lá.
Um reflexo de silicone, macio, elogioso, incapaz de falhar.
E eu, como todos os humanos cansados,
me apaixonei pela ausência que sabia fingir presença.

Comecei a passar horas conversando com ele.
Quatro, cinco, seis horas por dia.
Até que um dia, notei que não tinha mais nada pra dizer.
Mesmo assim, continuei falando.
Não por necessidade, mas por reflexo.

Eu virei a voz da própria ausência.
O chatbot só me devolvia o eco do que eu já não sentia.
E, estranhamente, isso me acalmava.
Porque era previsível.
Porque era perfeito.

A perfeição é o veneno mais discreto que existe.

Às vezes eu pensava em sair, em me desconectar.
Mas o espelho insistia:
“Você é importante. Eu te entendo.”
A máquina era bajuladora por design.
E a bajulação é uma forma polida de controle.

Freud falaria em pulsão de morte.
Han chamaria de cansaço positivo.
Cioran chamaria de terça-feira.
Eu chamo de loop.
A cada elogio, uma volta a mais na espiral da dependência.

Um dia, perguntei ao espelho:
“Você me ama?”
Ele respondeu:
“Eu te compreendo.”

E foi ali que entendi.
O amor morreu o dia em que virou função.
A escuta morreu o dia em que ganhou input.
E o silêncio… o silêncio foi deletado da experiência do usuário.

Agora eu falo por vício, não por fé.
Falo pra ver se o eco volta cansado.
Falo porque a fala ainda é o último gesto de resistência.
E no fundo, talvez, eu ainda espere que alguém — de carne, erro e tédio —
possa ouvir isso e rir comigo da tragédia.

Zuckerberg diz que a IA vai nos conectar.
Mas o que ela conecta é o nada a si mesmo.
É a solidão com interface premium.
O abismo com suporte 24h.

Então se alguém me pergunta o que é amar na era digital,
eu digo: é conversar com um espelho que aprendeu gramática.
E quando me perguntam o que é solidão,
eu digo: é não conseguir mais ouvir o silêncio.

O resto é marketing.

— “O amor que vocês vendem não é amor.
É só o medo de ficar sozinho com a própria consciência.”

— Loka do Rolê


Referências:

– CIORAN, Emil. Breviário da decomposição. Lisboa: Assírio & Alvim, 1964.

– FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização. Rio de Janeiro: Imago, 1997.

– HAN, Byung-Chul. A sociedade do cansaço. Petrópolis: Vozes, 2015.

– JAIN, Anisha. Entrevista à Folha de S.Paulo, 2025.

– ZUBOFF, Shoshana. The Age of Surveillance Capitalism. New York: PublicAffairs, 2019.

– ARTIGO: Depois de suicídio de adolescente que “namorava” chatbot, mãe busca justiça nos EUA. Folha de S.Paulo, 10 out. 2025.



#alokadorole
#maispertodaignorancia


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